" As vantagens extraídas da dor constroem personalidades fortes."
Solange Moretti.
Praia de San Teodoro,
Sardenha/Itália
Quarenta e cinco meses antes.
— As vantagens extraídas da dor constroem personalidades fodas, sem perder a delicadeza, que no seu caso é o que fascina. Você é muito novinha, mas visualmente altruísta, vai superar com mais facilidade.
— Não me arrependo de acreditar no amor. Trágico foi tê-lo dedicado à pessoa errada.
Continuei apreciando a beleza do guru.
— Uma romântica incurável…
Murmurou com um leve toque de diversão, finalizando a bebida da taça.
— Restou algum projeto baseado em você, ragazza romântica? Planejou o seu futuro em algum momento?
Levantou o meu queixo, buscando meus olhos, como se estivesse realmente interessado na resposta.
— Sou recém-graduada em ciências aeronáuticas e quero pilotar aviões comerciais. Quero muito.
Respondi cheia de orgulho, um pouco
assustada com a conexão que me envolvia.
— Ainda falta um longo caminho para conseguir minha licença de piloto, mas vai dar certo. Não é impossível.
O desconhecido me estudou, desviando os olhos para minha boca, o que provocou uma coceira no local, fazendo-me escorregar a língua ali e sentir uma súbita timidez.
— Você acredita que vai alcançar seus objetivos chorando porque perdeu a chance de ser esposa de um canalha, ragazza?
— Você alimenta a mente e distrai os olhos. Não é justo. Me consiga papel e caneta. Preciso anotar algumas coisas.
— Do que exatamente está me acusando, mocinha?
— Sedutor, potencialmente destinado a destruir corações sem mover um dedo.
Deixei escapar e vi o riso do homem se estender aos olhos.
— Que todos os anjos me protejam de estar no fundo do poço com você.
— Nenhuma mulher me terá nas mãos, ragazza, mas garanto que todas que passaram pelas minhas foram tratadas como rainhas.
O garçom guru deslizou o dorso do indicador por minha bochecha, empinando meus poros, piscando minha… Assustei-me com a umidade alojada na extremidade da minha calcinha e distanciei um passo.
— Quando fez isso?
Travei meus joelhos e senti o fogo subindo de vez.
Ele riu, aparentemente me achando tresloucada.
— Você tem uma singeleza nobre que raramente encontro em uma mulher.
— E você é um mentor espiritual, descarado.
Afirmei, meus olhos totalmente cativos nele.
— Tudo bem, confesso.
Piscou sedutor.
— A boa notícia é que você acabou de ganhar algumas horas de mentoria. Já vou começar
desenvolvendo a habilidade de extravasar ao ponto de esquecer o próprio nome.
Insinuou com os olhos na minha boca, fazendo-me engolir em seco à medida que a proposta se dissolvia em minha cabeça.
— Extravasar… Pular do iate?
Fiz-me de desentendida e tentei controlar a respiração.
— Extravasar, não cometer suicídio, ragazza.
Soprou as palavras.
— Já viu estrelas sobre amuradas de um convés?
— Se estiver se referindo àquelas estrelas…
Levantei o indicador, certa de que se tratava de saliências ao ar livre. Ele aproximou o poderoso corpo do meu e apoiou uma das mãos em minha cintura.
— Você roubou minha atenção desde que entrou no iate, menina.
— Foi?
Arfei sob o efeito da sensação eletrizante, sentindo-me viva, desejada, longe do chão que a traição me arremessou.
— Quer ver estrelas sob aquelas estrelas?
— Moço, acabei de sair de um relacionamento…
— Esquece esse cara. Não sofre, não.
Aproximou a boca da minha, fazendo-me sentir o choque de sua respiração.
— Não me lembro de ter encontrado mulher mais linda em toda a minha vida. Quero você.
— Misericórdia, moço.
Uni indicador e polegar no tecido do meu
vestidinho florido e arejei meus seios, tomada pela vontade louca de esfregar
minhas pernas com vontade, acalmar o latejo que incendiava o corpo.
— Qual o seu nome mesmo?
Perguntei na tentativa de me recompor.
— Lorenzo. Tenho quase certeza de que o seu é Linda ou Bela. Acertei?
— É Solange.
Sorri meio ofegante e descansei as mãos no peito dele, aproveitando para dar uma rápida apalpada. Tão forte.
— Preciso… ir ali, Lorenzo.
— Agora?
Estudou minhas mãos invasoras, rindo de canto. Risada de pombo..
— Neste exato momento.
Afirmei e, sem que eu esperasse, o
desconhecido deslizou a língua por entre meus lábios e saboreou-me lentamente, cheio de insinuações e ousadia.
Um toque rápido com sabor de curiosidade, incerteza e desejo.
— Para você não se esquecer de voltar.
Roçou os lábios sobre meu queixo, correu as narinas na curva do meu pescoço e afastou um passo para me fitar com um olhar de desejo genuinamente voraz.
— Esperarei ansiosamente por você, Sol.
Não tive tempo de respirar normalmente. Com pernas bambas, disparei para o convés superior do iate, procurando Luh na pista de dança, sendo atormentada pela culpa, pressionada a desistir da súbita atração que me puxava para os braços do desconhecido.
Encontrei minha melhor amiga alinhando os cílios de uma mulher, no meio de outras cinco.
Mergulhei por uma brechinha com dificuldade e cutuquei o ombro dela.
— Luh…
— Sol…?
Ela me fitou, mas continuou com os dedos nos cílios postiços da mulher.
— Por que suas bochechas estão coradas, docinho? Viu um tubarão?
— Ai, está puxando meu olho.
A cliente reclamou, segurando o
punho de Luh.
— Termina de colar aqui, depois conversa.
— O que é?
Luh largou o cílio dependurado na mulher e cravou uma das mãos na estreita cintura.
— Se minha amiga quer atenção, ela vai ter
atenção! Eu, hein! Vem, Sol.
Entrelaçou o meu braço e puxou para longe.
— Amiga, eu…
— Você…?
— Conheci um homem
Cochichei.
— Ele é garçom da embarcação.
— Mas gosta de pobre, viu? Com tanto homem rico à disposição.
Deu tchauzinho para um sujeito que olhava diretamente para as pernas dela.
— Falo com você depois das clientes, minha amiga é prioridade.
Avisou ao sujeito.
— Quem é ele, Luh?
Analisei o bonitão que olhava minha amiga
com devoção, enquanto se distraía com um copo de uísque.
— Não sei, mas elogiou meu cabelo e tem um pacotão. Vou dar atenção para ele mais tarde. Ele está me esperando a algum tempo.
— O garçom tem mel na boca, Luh.
Comentei, largando a imagem do flerte da minha amiga.
— Você beijou, Solange Moretti?
Luh berrou.
— Fala baixo. Ninguém precisa saber da minha vida.
Encolhi meus ombros, olhando para todos os lados, sendo perseguida pela sensação
de infidelidade.
— Nem foi um grande beijo.
— Você está solteira, Solange. Não deve satisfação a ninguém. Para de loucura.
— É estranho depois de tantos anos de relacionamento.
Continuei observando ao redor.
— Ele quer me fazer ver estrelas, você acredita?
Sussurrei, envergonhada.
— Só um descarado jogaria uma proposta tão
indecente em poucos minutos de conversa.
— Você quer ver as estrelas com ele, não é?
— Que coisa, Luh! Sou decente.
— Você quer! Está escrito em seus olhos. Está tudo bem, querida.
Sem julgamentos, Luh esfregou o polegar na curva da minha bochecha e liberou um sorriso incentivador.
— Ele é tão lindo, Luh.
Confessei animada.
— Parece aquele aquele ator de cinema Brad Pitt.
Suspirei.
— Tem um cheiro… Ah, que homem cheiroso e inteligente.
— Então não faz cerimônia, docinho. Se você quer, cai de boca no champanhe do garçom.
Luh deixou um beijo estalado em meu rosto.
— Mas fica longe da espuma, espuma sempre traz problema ou chutinhos na
barriga.
— Nunca estive com outro homem na vida.
Cochichei.
— Você não acha que preciso viver o luto do finado?
— Quem teve consideração por você, Solange?
Ironizou minha melhor amiga, rolando os olhos sem paciência.
— Tudo bem.
Beijei uma das mãos dela.
— Mas vou apenas conversar com o bonitão e, eventualmente, guardar o contato. Sou moça direita.
— Direita, esquerda, de costas…
Ganhei um tapa na bunda.
— Para com isso!
Protegi o meu bumbum.
— Vai lá tirar essa leoa rosa de dentro da jaula e fazer valer o bate gilete de cada dia.
— Quanto você bebeu? Luciana!
Fui ligeiramente empurrada na direção da escada.
— Não se esqueça da roupinha protetora.
Gritou sobre o som baixo da música e fez um sinal indecente com as mãos, deixando-me constrangida.
— Você é louca.
Apenas movi os lábios.
Ansiosa, como se fosse uma adolescente durante a descoberta do primeiro beijo, tomei uma longa respiração e desci os degraus que levava ao convés inferior do iate.
Desci sem pressa, inalando o cheiro fresco do oceano, digerindo a situação, o momento e a novidade.
Pasqualini era romântico, atencioso e, há três anos, dormíamos juntos durante nossas folgas, mas pouco me tocava e, na maioria das vezes, esquivava-se das minhas investidas.
Só vinha pronto no momento errado,
durante as horas sagradas de estudos, pois sabia que eu não largava os livros
por nada, que nasci com um sonho impossível dentro da minha realidade e
precisava seguir uma rotina pesada.
Era uma estratégia! Tudo estava se encaixando, tudo fazia sentido. Ele
não sentia vontade, desejo ou tesão em mim.
Tinha o que precisava no quarto
ao lado, com mamãe.
Meu estômago revirou. Era duro me lembrar de que fui traída pela pessoa mais importante da minha vida.
Esfreguei a mão contra meu peito.
Supera, Solange! supera.
Expulsei o ar pela boca, ventilei meus cílios e continuei descendo.
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Atualizado até capítulo 85
Comments
🦊Guminho🦊
então é feio , Brad Pitt é feio
2025-02-14
0
Quase cinquentona🥴🥺😔😩
Tá doida? 🥴
2025-02-09
0
Anilda Alves da Cruz
engraçado depois de tanta conversa e trancaram ele não se lembra dela, não acredito o que tem mais,?
2024-08-15
1