"Ao longo da tua vida tenha cuidado para não julgar as pessoas pelas aparências."
Lorenzo Varrialle.
Cazzo!
Cerrei o maxilar, fitando o visor do celular preenchido por um par de peitos generosos, bem redondinhos e cobertos por uma delicada renda vermelha.
— Oi, Senhor Lorenzo. Meu nome é Solange. Me desculpa pela invasão, mas estou aflita e sem alternativas. Fiquei sabendo que está em Sardenha e…
— Como conseguiu o meu número pessoal?
Meu tom saiu ácido.
Eu contava nos dedos quem tinha aquele contato.
— Quem mais está envolvido nisso?
— Eu… consegui através de uma amiga, mas… desculpa.
Assoou o nariz em um maldito pano que vetou a minha visão.
— Fala logo, mulher!
Soltei uma lufada de ar e aproveitei para passar os olhos no menino, que, estava dependurado na cadeira, tentava alcançar o prato de comida sobre a mesa.
— Nos conhecemos há alguns anos. Eu estava na pior e o senhor me deu apoio. Bem, não só apoio…
A peituda soluçou, engasgando-se no
próprio teatro.
— Sou mãe de um menino de três anos recém-completados. Você pode não acreditar em mim, pois usamos proteção naquele dia, mas não sei… Juro que não sei como engravidei. Nada disso importa agora.
Arfei, sem paciência para a ladainha. Só queria ficar com meu filho e enviar a mãe golpista para longe.
— Será que posso ver o seu rosto ou vou ter que negociar com um par de peitos?
— Cazzo!
O celular da mulher certamente tombou, pois na sequência apareceu um par de sapatos pretos altíssimos.
— Senhor Lorenzo, me desculpa por isso, eu estava trabalhando até agora e não tive tempo de me trocar.
Trabalhando de lingerie? Então, a golpista não passava de uma profissional do sexo. Estava cada vez mais fácil requerer a guarda unilateral do menino.
Em segundos, apareceu o rosto choroso e impecavelmente maquiado de uma bela mulher com olhos castanhos, que usava um quepe azul de aeromoça na cabeça e… Puttana cosa, uma fantasia erótica! cazzo,
quando fodi com essa puttana?
— O menino também é meu filho. Pode continuar.
Bati duas vezes na parede do cômodo, chamando a atenção de Lucca e vendo-o desistir da travessura e sentar-se no chão, sem deixar de contemplar o prato.
— Sim, tenho certeza. Por que não parece surpreso?
— O menino parece ser mais meu do que seu, moça!
— O quê? Como?
— Onde nos conhecemos mesmo?
Sondei, cativo nos lábios cheios e pintados de vermelho.
— Em uma festa, no seu iate. Será que podemos falar sobre isso depois que…
— Quantos dígitos você quer?
Fui direto ao ponto, encarando tudo
aquilo com racionalidade.
— Eu só quero a sua ajuda!
— Corte a conversinha mole, moça!
Também aumentei o tom.
— Qual o seu preço, cazzo? Vamos!
O teatro ficou mais intenso e vi o peito, já coberto por um pano, subir e descer à medida que os soluços escapavam.
— O senhor está sendo inconveniente e grosseiro. Não faz ideia do que já passei hoje.
Ora, ora, era sensível, mas leviana o suficiente para abandonar o filho na porta de um homem desconhecido.
— Sem julgamentos, minha cara, mas preciso resolver a situação da criança. Se for realmente meu filho, quero ficar com ele. Pago o valor necessário, basta dizer o seu preço.
O grito que veio da mulher me fez largar o aparelho celular e apará-lo próximo ao chão.
— Não cogite a possibilidade, porque sou capaz de arrancar seus olhos por trás, seu cretino!
O quê? Voltei a encará-la.
— Controle-se moça! Vamos cuidar disso civilizadamente e de forma prática. Não estou aqui para julgar seus motivos. Você não quer a criança e deseja vendê-lo. Tudo bem, não tenho objeção. Só passe o seu valor sem
teatro.
— Por isso que eu nunca procurei você, ordinário!
Gritou, toda imperiosa, com um brilho de puro rancor nos olhos, confundindo-me.
— Você vai até a cidade vizinha pegar o meu menino que foi parar nas mãos de dois irresponsáveis e agora tem que cuidar dele até que eu possa estar na Itália, entendeu?
Não é golpista? cazzo! É pior… É problema!
— Abaixe seu tom de voz, pois não sou obrigado a lidar com seus desaforos. Agora me diga, estou falando com uma desvairada, vigarista, ou a mistura das duas coisas?
— Está falando com uma mãe desesperada para saber notícias do filho!
Berrou, embebedada por um embargo autoritário.
— E pega seu dinheiro e enfia goela abaixo, cazzo…
Pressionei o visor do celular contra minha coxa, no entanto, nada vedou o estrondo da linguagem ultrajante.
— Mamãe, muto blava cum voche. Dejobediente!
Reclamou o menino perto de mim, com dois minúsculos dedos apontados para mim.
— Lucca?
A insolente rugiu.
— Filho, cadê você? Lucca! Eu quero ver o meu filho! Luquinha!
Diante da perturbação, peguei o bebê no colo e coloquei o visor do aparelho na frente de seu rosto miúdo.
— Desenho, muto desenho. Os baços todos e o pecoço, mamãe…
Foi a primeira coisa que Lucca disse ao ver a mãe e supus que se referia às minhas tatuagens.
— Luquinha, mamãe estava tão preocupada.
Soluçou um pranto rangido.
— Como foi parar aí, meu amor?
— Alguém a deixou na minha porta mais cedo
Esclareci, levemente inclinado ante ao desespero da mulher que mal conseguia falar.
— Um casal em um bug velho.
— Minha… mãe e o vagabundo do amante dela.
Continuou soluçando.
— Você não sabia disso?
Investiguei, lendo uma centelha de sua
linguagem corporal e convencendo-me do choro. Era genuíno.
— Não, estou no Brasil, senhor Lorenzo.
Foi irônica, a antipática!
— Fica tiste não, mamãe.
O menino tagarelou em tom de conforto.
— Luquinha muto legal. comidinha gotosa.
— Filho, mamãe não queria que fosse assim. Me perdoa.
Soluçou e arrastou o quepe da cabeça, desmanchando o penteado discreto, deixando a cascata de cabelos loira e lisa cair em ondas rebeldes sobre o colo, oferecendo-me uma cazzo visão dos deuses. Uma serpente sedutora do Éden.
Tentei analisar melhor aquele rosto bem desenhado, buscando na memória o momento em que detive fios tão longos entre meus dedos. cazzo, certamente os segurei firmes por trás enquanto…
— O que deu para ele, Senhor Lorenzo?
A peituda me puxou da imagem sacana e desejei jogar água na minha cara para afastar qualquer resquício de insanidade.
— Lorenzo, o que deu para Lucca?
— Preciso de você na minha frente o quanto antes, senhorita Solange. De preferência bem-composta.
A mulher ajeitou o pano que tampava os seios e insistiu:
— O que Lucca estava comendo?
— Carne de panela, arroz, feijão e verduras trituradas.
A mãe liberou um longo suspiro.
— Eles a deixaram com alguma bolsa? Roupas, medicamentos?
— Ainda não revistei, mas chegou com uma mochila nas costas.
— Catarina não tinha o direito de fazer isso comigo!
A mulher cobriu a testa com a mão livre e percebi quando seus olhos vacilaram, como se estivessem sonolentos e pesados.
Ela era pálida daquela maneira ou estava tendo uma síncope?
— Catelina bigou com Luquinha, mamãe. Menino taquino, lidículo. Disse assim.
O bebê os entregou, esperto, fazendo o meu sangue ferver de fúria.
— Mamãe nunca mais vai deixar. Vamos para bem longe dela.
A cabeça da mãe pendeu levemente para o lado esquerdo.
— Onde exatamente você está, moça?
— Rio de Janeiro.
Respondeu de olhos fechados.
— Estou a trabalho.
Certo… Uma dama de luxo.
— E enquanto você trabalha fora, o menino fica com aqueles dois irresponsáveis?
Sondei as primeiras provas de irresponsabilidade.
— Não, Lucca tem uma babá que também é enfermeira particular e está comigo desde o parto. Luísa passou por problemas familiares e precisou deixar meu filho na casa da avó, que infelizmente não é de confiança.
Escorregou para o chão e repousou a cabeça sobre um tapete felpudo.
— Certo, temos muita coisa para conversar. Quero uma reunião com você antes de acionar os nossos advogados.
— Eu furo o seus olhos se cogitar tomar meu filho!
Disse com o telefone muito próximo ao rosto.
— Apenas cuide dele. Estou de mãos atadas no momento.
— Você não parece bem.
Cogitei ser droga.
— Não desligue. Cuide de Lucca. É só uma queda de pressão…
— Remédio!
O menino se esperneou para descer do meu colo.
— Tem alguém com você, Solange?
Lutei para conter a criança que tentava escorregar por minhas pernas.
— Calma, Lucca.
— Remédio de mamãe.
Balançou-se de um lado a outro, obrigando-me a colocá-lo no chão.
— Lucca!
Saiu disparado da cozinha.
— Lucca!
Segui os passinhos bambos, vendo-o seguir na direção da academia da casa.
— Remédio na mochila.
Tagarelou atônito.
— Mochila de Luquinha. Remédio de mamãe.
— Vem, é por aqui.
Alcancei sua mão e puxei o corpinho para
colocar em minha cintura. Levei-a sobre protestos até a sala, onde dei a volta
nos estilhaços e me sentei ao lado da mochila.
— Mamãe pecisa.
Lucca escorregou para o sofá e abriu a
mochila.
— Solange?
Fitei o visor do celular e encontrei um clarão na tela.
— Senhorita Solange!
— Estou aqui.
Apenas ouvi a voz.
— Você está sozinha?
— Sim, em um quarto de Hotel. Não deixa Lucca descalço. Não dê água gelada e doces. Dê pouco carboidrato. Só vou cochilar um pouco.
— O que está acontecendo aí, cazzo?
Levantei-me do sofá, aflito com a situação.
— Seu filho está bem, tenta se acalmar.
— Não vou morrer. Não pense que vai ficar com meu filho. Sou pai e mãe de Lucca.
— Chama alguém. Suas colegas de trabalho não estão por perto?
— Elas não ficam no hotel, sou a única mulher brasileira da equipe, as outras são todas italianas. Conversa comigo. Não me deixa dormir. C@ralho!
— Aperta o cazzo do botão de pânico, moça. Que cazzo é esse?
— Vou rodar a mão na sua cara… Depois do meu cochilo.
Balbuciou.
— O remédio.
Lucca arrastou uma bolsinha azul da mochila.
Voltei para o sofá, abri o zíper e conferi o conteúdo. Uma caneta, agulha, tiras e um aparelho glicosímetro.
Cazzo!
Virei a parte traseira da bolsa. Ali tinha um papel digitalizado e protegido por um plástico transparente.
Nome: Lucca Moretti Marinho
Idade: Três anos
Mãe: Solange Moretti Marinho
Grupo: Paciente autoimune - Diabetes tipo 1
Não, não, não! Voltei para a bolsa e analisei o restante do conteúdo.
sete seringas. Dois frascos transparentes e lacrados.
— Lucca tem diabetes, Solange?
Indaguei, esbaforido, fitando o pequeno menino que apoiava as duas palmas na minha coxa.
— Solange!
Olhei o visor do celular e não encontrei a mulher. Escutei apenas a voz falando em português, chamando alguém da recepção.
Falou algo sobre uma companhia aérea, não sei, pois não dei muita importância. Só Lucca me importava no momento.
— Diabetes, Lucca?
— Não é muto legal. faz dodói.
Murmurou a doce voz, erguendo o lábio
inferior, todo dengoso.
— Não, não é legal, bebê. É um cazzo.
Trouxe-o para meu colo e o abriguei possessivamente entre meus braços.
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Atualizado até capítulo 85
Comments
Teresa Jordão
ela está tendo uma crise de hopoglecemia???
2024-12-18
0
Quase cinquentona🥴🥺😔😩
O homem só pensa coisa errada .🥴😡
2025-02-09
0
Maria Ines Santos Ferreira
nossa coitada
2025-02-07
0