"Não espere o futuro mudar tua vida, porque o futuro é a consequência do presente."
Lorenzo Varrialle.
— Você usa essas coisas?
— Fula o dedo de Luquinha.
Levantou as duas mãos.
— Fula a baliga, o bumbum, o blacho. Não gosto. Mamãe chola.
O meu coração doeu ao escutar aquelas palavras. Tive que desviar o
olhar para longe e travar a garganta, empurrando o nó angustiante que se
alojou ali.
— Solange, você está aí?
Friccionei meus olhos ardidos, atormentado pelo medo de ver o neném ferido, definhando igual à minha mãe.
— Uma funcionária do hotel vai me ajudar a chegar ao hospital. Promete que… Promete que vai cuidar de Lucca?
— Lucca é diabético?
Perguntei, selando os lábios nos cabelos
suados da criança.
— Descobrimos no ano passado. Ele está bem?
— Aparentemente, sim. Só estava faminto.
— Mamãe, você tá tiste? O dodói melolou?
— Sua mãe vai ficar bem, Lucca.
Afirmei, empurrando o problema da mulher para o segundo plano, concentrando-me apenas em Lucca. Meu filho.
— Preciso que você veja a glicose dele, Senhor Lorenzo. Consegue fazer
isso para mim?
Agradeci mentalmente por ter auxiliado minha mãe em todos os momentos. Ela não tinha a doença em questão, mas ao descobrir a doença, fez-se necessário avaliar a glicose e os triglicerídeos semanalmente.
Coloquei a bolsinha dentro da mochila e me levantei com Lucca, direcionando meus pés para a suíte mais próxima, levando o aparelho celular comigo.
— Ficarei mais tranquila se você ensaiar. Faça o teste em você antes.
A mãe disse, ofegante para cazzo.
— Você também tem essa doença?
Empurrei a porta do quarto com o pé, coloquei Lucca e a mochila sobre a cama e arreganhei as cortinas da janela.
— Não, mas sou intolerante à glicose.
Respondeu com a voz lesada.
Inseri uma fita de teste no aparelho de glicemia, abri o bico da caneta e enfiei a agulha, quebrando a ponta do lacre para tampar a caneta.
Foi impossível não me lembrar das vezes que cuidei da minha mãe.
Sua mão inchada, a pele muito fina e sensível, o gemido reprimido,mostrando-se forte quando as forças eram quase nulas.
— Lucca parece ser tão saudável. Gordinho, pele corsds.
Sorri nervoso, suando frio.
— Ele segue o tratamento certinho. Eu e a babá conseguimos identificar os sinais que antecedem as crises e diferenciar a hipoglicemia da hiper, mas já passamos por situações muito difíceis.
Não aceito perder outra pessoa importante, declarei para mim mesmo e espetei meu indicador com a agulha do aparelho. Deixei o sangue preencher o depósito da fita de teste e observei os números subirem, ouvindo a mulherbofegar angustiada.
— Deu 96 mg/dl.
Anunciei quando saiu o resultado no monitor do aparelho.
— Seu?
Ouvi a voz baixa dela.
— Sim, mas estou em jejum.
Separei outra agulha e passei os olhos em Lucca, que me espiava fixamente.
— Sua vez, Lucca.
— Luquinha, não!
A criança escorregou para fora da cama e correu na direção da porta, mas a alcancei e a levei de volta para a cama.
— Mamãe!
— Lucca, é só aquela furadinha. Não dói nada, lembra? Pede para ele escolher o dedo, Senhor Lorenzo.
instruiu a mãe.
— Luquinha não tá dodói.
Disse o menino, escapando pelo outro lado
da cama, sendo apanhada depois de um pequeno tropeço no tapete.
— Vai ser rápido, Lucca.
Levei-o de volta para o colchão, com seus
minúsculos pés chutando o ar.
— Eu não faria isso se tivesse escolha, Lucca.
— Filho, olha aqui para a mamãe.
A mulher apareceu na tela, já vestida, sem o batom vermelho, com o cabelo preso em um alto rabo de cavalo. Tão pálida quanto um papel. Linda, feita sob medida para o ofício da sedução.
— Quelo a mamãe… Ai!
Lucca gritou logo após receber a inesperada picada que expulsou uma gota vermelha de seu minúsculo indicador.
— Da próxima vez, peça para ele escolher o lugar da picada. Meu filho é obrigado a conviver com esse martírio, mas tem direito ao benefício desta escolha.
Ditou com um infinito ar de petulância.
— Da próxima vez, não tenha um filho e esconda do pai por três anos e queira que ele saiba tudo sobre ele.
— Você não conhece meus motivos e não quero que me entenda. Não tenho a mínima intenção de envolvê-lo na minha história, apenas cuide dele. Exerça seu papel até que eu possa estar presente.
Friccionou os olhos e apertou a mão na têmpora.
— A primeira coisa que você vai fazer quando pisar no Itália é autorizar o DNA. Tenha certeza, minha cara, se sair o resultado esperado, essa sua falha de tempo lhe custará muito caro. Espero que o seu trabalho tenha bons rendimentos e que você tenha reservas para pagar os advogados.
— Eu prefiro guardar todo o meu ódio para quando estiver na sua frente, seu canalha arrogante dos inf&rnos!
Canalha? Eu quis zombar daquela palhaçada, mas estava muito preocupado para lidar com tolices.
— Deu 70mg/dl. Ele não está em jejum.
— Prepare a insulina.
a mulher ordenou e minha cabeça explodiu em latejo.
— É mrsmo necessário?
Tentei me esquivar da tarefa.
— Ele está bem.
Vi o momento exato que Lucca engoliu em seco. Os olhos espertos fixos em mim, desejando se esquivar tanto quanto eu.
— Se não aplicar agora, em minutos, ela vai ter uma hiperglicemia e você não vai querer lidar com a consequência disso.
— Certo.
Puxei uma longa respiração, sentindo um suor frio escorrer em minha nuca.
— Agora preciso que me oriente.
— Comece lavando as mãos. Estou indo ao hospital, mas continuarei na linha.
— Não plecisa, Lolenzo.
A maciez da mão de Lucca cobriu minha
barba.
— Vochê, munto monito. Tão monito da mamãe.
Não era impressão. Eu estava mesmo sofrendo uma tentativa de engambelação.
— Você é bom nisso, pequeno.
Dirigi-me ao banheiro do quarto, deixei minhas mãos limpas e secas e voltei, sendo agarrado pelas pernas no caminho, escutando um chorinho de cortar a alma.
— Calma, Lucca. Será rápido.
— Vai fular mim, Lolrnzo?
Deus, como era possível um ser tão pequeno abalar minhas estruturas usando apenas meia dúzia de palavras alienígenas?
— É rápido, bebê. Depois podemos passear na praia, o que você acha disso?Sentei-me sobre meus calcanhares, colocando-me quase na altura dele.
— Quelo a mamãe. Luquinha não tá bem.
Cobriu a testa com a mão e fechou os olhos falsamente, tremendo as pálpebras, espiando pela brechinha.
— Você é um ótimo negociador. Tem um futuro brilhante pela frente, mas preciso aprender a cuidar de você agora.
Levantei-me com ele no colo e levei-o de volta para a cama.
— Na bolsa, tem um pequeno recipiente de álcool 70. Comece higienizando a boca do frasco de insulina. Depois de aberto, será necessário guardar na última gaveta da geladeira.
— Lucca resiste sempre?
Fitei o menino de braços cruzados na
altura do peito, bravo, com as bolas dos olhos graúdas cheias de lágrimas.
— Ele não conhece você, é normal.
— Ele está bem satisfeito e tranquilo na minha companhia. O que me faz acreditar que vivia instável, em várias mãos, correndo diversos riscos.
— Se concentra no bem-estar da meu filho, ok? Depois, resolvemos nossas pendências pessoalmente. Pendências que você está disposto a criar, porque se depender de mim, não quero saber de você na minha história.
Minha bateria vai acabar, seja rápido. Estou no elevador.
— Então me oriente.
— Faça a homogeneização do conteúdo da insulina rolando o frasco vinte vezes entre as mãos.
— Certo, estou fazendo isso.
Expiei Lucca, ainda enfezado, derramando uma única lágrima do olho esquerdo. Tão durão e persuasivo. Meu filho.
— Já está pronto.
— Agora, remova o protetor branco da seringa, aspire vinte unidades de ar e tire a proteção laranja. Coloque o frasco de insulina em uma superfície plana.
— Certo.
Coloquei o vasinho no assoalho e removi os lacres da seringa.
— Solte as vinte unidades de ar dentro do frasco e o vire de ponta-cabeça para inspirar a mesma quantidade de insulina.
— Seringa pronta.
Arrastei-me para o meio da cama e levantei o
queixo de Lucca.
— Vamos fazer isso juntos?
Ele não disse nada, apenas me encarou dentro dos olhos e levantou a camisa, Parecia decepcionado.
— Faça uma prega cutânea, três dedos ao lado do umbiguinho dele, e aplique a insulina.
Fiz como a mãe orientou e prendi um pedaço do meu filho entre o indicador e polegar, inserindo o líquido ali. Fui presenteado por uma boa buzina, dessas que começa lentamente e estronda tudo em um piscar de
olhos.
— Shii… Já passou, já passou. Calma, neném, já passou.
— Muto feio.
Abriu a boca, fazendo o maior escândalo.
A mãe começou cantarolar uma música com a voz embargada e, em questão de minutos, o menino adormeceu em meus braços.
— O celular vai desligar. Ligo quando chegar ao hospital. Estarei de volta segunda-feira, logo cedo. Juro que frito o seu célebro se cogitar me afastar de Lucca.
E encerrou a ligação.
Ótimo! Livrei-me de um golpe e ganhei um problema.
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Atualizado até capítulo 85
Comments
Selma Mello
interessante gostando muito da história
2024-11-17
0
Anilda Alves da Cruz
já se apaixonou /Tongue/
2024-08-15
2
Ana Karol Campos
kkkkkkkk parece mais a sirene na escola kkkkk
2024-02-27
5