"No final das contas, só você sabe quem você realmente é."
Lorenzo Varrialle.
San Teodoro
Sardenha/Itália
Dias atuais.
Notei que havia algo errado quando a encontrei no tapete da minha sala, olhando fixamente para a imagem de um porta-retratos.
Era uma fotografia nossa que me acompanhou quando, há mais de oito anos, deixei a cobertura em Roma para morar sozinho em San Teodoro.
Cabelos moldados discretamente, roupas neutras e lábios sem pintura, definitivamente, não faziam parte da marca registrada de minha mãe.
Algo muito errado estava acontecendo com a minha mãe.
Atingido por um puxão forte no peito, soltei a mão da garota que me acompanhava e caminhei até o centro da sala, deslizando meus dedos até o esterno, abrindo um dos botões da camisa social.
— Mãe, não me avisou que vinha.
— E desde quando preciso avisar sobre uma visita?
Permaneceu fixa no porta-retratos, a voz doce estremecida, camuflada por um sorriso
distraído, longe de ser espontâneo.
— Nunca, mas você sempre avisa. Está tudo bem?
— Essa foto é a minha preferida.
Virou o objeto e fixou em meus olhos, abalando todas as minhas estruturas.
— Por que seus olhos estão vermelhos, mãe?
Uma gota fria se formou no alto da minha testa. Cristo, ela não estava nada bem.
— Uma semana sem ver você é muito para mim, meu amor. Senti saudade.
— Alargou o sorriso, piscando lentamente, camuflando a fraqueza.
— Você é a…?
Mudou o olhar para minha jovem amante.
— Antonella.
A loira de traços delicados encostou ao meu lado e estendeu a mão em cumprimento.
— Seu filho me convidou para o almoço. É
um prazer conhecê-la pessoalmente.
— Você é nova.
Dona Pietra arqueou o canto do lábio, desafiando-me com o olhar.
— Maior de idade?
Soltou a mão da garota depois de acariciá-la.
Ela tinha a mania de tatear as pessoas, pois dizia que assim identificava a energia, a
espiritualidade. Eu preferia moldar a percepção através do contato visual.
— Antonella é filha de um fornecedor da Varrialle. Vinte anos.
Espalhei as informações, distraindo-me com os lábios pequenos e finos da garota.
— E estão transando iguais a coelhos nos últimos dias de inverno, estou certa?
perguntou e pude jurar que todo o sangue da menina foi drenado do rosto.
— Eu… eu… posso esperar lá dentro, Lorenzo? Não quero atrapalhar.
Desconcertada diante da verdade, a jovem ninfeta fitou o próprio tênis e deixou que os cabelos curtos e loiros escondessem parte de seu rosto meigo.
Teria rido se o medo não estivesse atado ao lado esquerdo do meu peito.
— É, estamos nos divertindo nos últimos dias.
Afirmei, vendo Antonella levar parte dos cabelos para detrás da orelha, lutando contra a timidez.
— Somos adultos, dona Pietra.
Apoiei a mão na coluna da loira, deixando um silencioso "tudo bem".
— Você se importa de voltar para o jantar, querida?
Mamãe perguntou, fazendo uma indiscreta avaliação no corpo da garota que, de fato, aparentava ser mais jovem do que os documentos comprovavam.
— Não.
Antonella sorriu docemente.
— Será um prazer, senhora.
— Então volte mais tarde, querida. Preciso de Lorenzo só para mim agora.
Piscou, murchando o sorriso da garota.
— Me espere na recepção do prédio, Antonella, levo você em alguns minutos.
Proferi, olhando fixamente para a mulher que me carregou no ventre, lendo sua postura corporal, lutando contra o nó que angustiava a minha garganta.
— Ela vai de táxi.
Dona Pietra ditou.
— A tarde é só nossa, filho. A Antonella entende.
— O que está acontecendo, mamma?
Meu tom de voz demonstrou o grau de preocupação.
— Tudo bem, Lorenzo.
A jovem arfou passiva.
— Foi um prazer conhecê-la, dona Pietra.
— Esperarei você para o jantar, querida. Agora, se apresse.
Mamãe sorriu honestamente.
— Sim, senhora. Até mais tarde.
Antonella disse, fitando-me pelo reflexo, esperando um “até breve” que não recebeu.
Ouvi o clique da porta e me sentei sobre o tapete, olhando dentro dos olhos da minha mãe, presenciando uma enxurrada de lágrimas escaparem por ali.
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Atualizado até capítulo 85
Comments
Anilda Alves da Cruz
coitada está doente 😷
2024-08-15
0
rô
verdade.
2023-07-24
11
Artemes Oliveira
e isso basta
2023-07-24
6