“Tento não pensar, tento colocar um freio na minha mente, mas são tantas coisas ao mesmo tempo.”
Solange Moretti.
— Aceita uma bebida?
Uma voz profunda me arrancou das
lembranças infelizes.
— Não, grazie.
Permaneci encostada na amurada do convés do iate, olhando a imensidão das águas que me distanciava da praia de San Teodoro.
— Está tudo bem, ragazza?
— Tudo uma m&rda! Caia fora daqui, vá. Já bebi o suficiente.
Respondi com o rosto duro, sem mover os olhos da praia. Meus pensamentos
flutuavam na humilhação de dias atrás.
— E companhia, você quer?
O tom seguro depois de uma patada
despertou a minha curiosidade.
Foi quando movi o rosto para a direita e deparei-me com um tipão de quase dois metros, prostrado a pouca distância, segurando uma taça de vinho branco, usando chinelos, uma confortável bermuda branca e camisa de linho no mesmo tom. O uniforme dos garçons da embarcação.
— Está fugindo do trabalho?
Fiz uma lenta apreciação. Eu seria
uma tola se não admitisse que o uniforme branco acentuava a virilidade daquele garçom.
— Sim, é exatamente esse o meu objetivo.
Ele liberou um quase sorriso e se aproximou, bebendo um gole do líquido da taça.
— Nunca vi você em San Teodoro, é de fora?
— Moro por perto, mas não estou acostumada a frequentar esses lugares. Estou aqui porque minha amiga, que é maquiadora de uma das convidadas, conseguiu as entradas. Não precisa me servir, pois não sou convidada.
O garçom atraente apoiou um dos chinelos na haste mais baixa da amurada e degustou mais da bebida.
— Por que está aqui sozinha se a festa está acontecendo lá em cima?
Questionou, estalando a língua, apreciando o líquido sutilmente.
— Você é bem curioso, hein?
Frisei o sobrolho, levemente desconcertada, apreciando o cheiro másculo que invadiu minhas narinas.
— Só quando encontro garotas bonitas e tristes olhando para o nada enquanto está acontecendo uma festa bacana a poucos metros de distância.
Disse, liberando um raso e charmoso sorriso.
— Tenho meus motivos.
Inalei o ar e fitei a ilha, evitando
demonstrar o brilho de dor.
— Aposto uma boa quantia na certeza de que o seu sorriso é lindo.
— Quê?
Ergui minha cabeça, sentindo um ligeiro calor tomar conta do meu rosto.
— Absolutamente linda, certamente calorosa.
Completou.
Toquei meus cabelos, um tanto vaidosa, mas, no momento seguinte, veio a sensação de vazio, uma visão negativa sobre meu rosto, meu corpo dentro do vestido frouxo.
Veio-me a cruel percepção de não ser boa o
suficiente que me seguia desde que presenciei a traição.
— Me deixa sozinha. Está cheio de moças bonitas lá em cima.
Pisquei, tentando controlar a neblina dos olhos.
— Sofreu uma decepção amorosa e está se sabotando.
Afirmou.
— Quê? Como você…?
Vi em seus olhos. Aliás, lindos olhos, garota sortuda. Parabéns pela decepção.
— Está tripudiando do meu sofrimento?
Bradei, tomada por um leve espasmo de irritação.
— Eu te conheço de algum lugar? Pedi sua
opinião, intrometido? Vai cuidar do seu trabalho e me deixa em paz! Vocês
são todos iguais!
Ele semicerrou os olhos em avaliação e, no, momento seguinte, bebeu a bebida, contendo um risinho na garganta.
— Sim, você é uma mulher de muita sorte.
Insistiu com tanta firmeza que sua opinião pareceu única e absoluta.
Atrevido!
— Não gosto de quem ri assim, sem exibir os dentes. Soa falso, arrogante e parece um pombo velho.
Falei contrariada, sem forças para brigar com o desconhecido.
Ouvi a mesma risada de pombo e uma súbita expulsão de bebida da boca.
— Nunca fui tão ofendido.
Vi pelo reflexo quando deslizou os dedos no queixo para limpar os respingos, ainda sorrindo.
— Não zombe, posso ser agressiva.
— Você está triste, ragazza, e não gosto de ver garotas tristes. Sempre que vejo, quero dar consolo e colo.
Minhas bochechas arderam. Quem era aquele atrevido que exalava autoconfiança, segurança e apelo sexual?
— O finado me traiu com uma pessoa importante faltando um mês para o nosso casamento. Satisfeito com a fofoca?
Mais relaxada, expus o nó que travava minha garganta e sacudi a cabeça.
— Sou molenga. Sempre passam a perna em mim.
— Chamei de sortuda, porque são poucas as que conseguem se livrar de relacionamentos destrutivos.
As palavras foram reconfortantes e
puxou-me para dentro da intensa claridade dos olhos desconhecidos.
— A decepção tem suas vantagens, ragazza. Você pode se sentar no fundo do poço
para descansar. Está tudo bem se fizer isso.
Trouxe o indicador para limpar a lágrima que caiu do meu olho esquerdo.
— Pode transformar a culpa em aperfeiçoamento ao analisar os erros e acertos. Usar a solidão para cuidar do cabelo, das unhas, se admirar no espelho. A ausência é o seu tempo reservado para resgatar o amor-próprio.
Comportou uma mecha desalinhada detrás do meu ombro e deslizou o indicador na curva do meu pescoço, fazendo-me fechar os olhos por alguns segundos.
— Você só precisa respirar e não se sabotar.
— Você é alguma espécie de guru, estupidamente bonito, inteligente e assexuado?
Ele riu das minhas palavras e abri os olhos.
— Só pecou pelo assexuado. Sexo é uma das minhas fontes de prazer favoritas.
— Deus me guarde!
Exclamei, passeando o olhar na camisa aberta até o esterno, nas mangas arregaçadas por cima dos cotovelos, nos desenhos expostos sobre as veias do antebraço.
Já não me lembrava da última vez que
estive apreciando uma beleza masculina, mas podia afirmar que o sujeito era
um convite para a perdição.
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Atualizado até capítulo 85
Comments
Alisa TorYos
Oxi.....
Porque raios um garçom usaria chinelo.
Ela não pensou nisso antes de pensar que ele era garçom e não um convidado
Só eu acho isso estranho.....kkkkk
2024-08-13
2
Lulu 🌹
Muié braba …adogoooooooooo 🤭🤭🤭🤭
2024-02-24
2
rô
vc tem que manter a calma e o equilíbrio
2023-07-24
9