"Tenho meus limites."
Lorenzo Varrialle.
Respirei fundo depois de uma maratona na cozinha e levei os pratos feitos na direção da mesa de madeira rústica.
Minha cabeça fervia na missão de recordar o momento que resultou na criança sentada à minha mesa.
Com o joelho já limpo e protegido por uma
pomada antisséptica, o menino sacudia os minúsculos pés para frente e para
trás, brincando com biscoitos depois de ter petiscado alguns deles.
Meu… filho.
— Sua comida.
Anunciei, afastando os biscoitos para acomodar o prato com porções trituradas de verduras cozidas, carne de panela, arroz e feijão.
Um preparo rápido que se encaixava no pedido do recém-chegado.
— Está tudo certo?
Indaguei ao encará-lo de relance.
— Uma coier petena!
Disse em tom de ordenança, os olhos quase
nivelados ao tampo da mesa.
— O que é coier?
Reprimi um pequeno suspiro e acomodei meu prato sobre a mesa, ao lado dele.
— Coier…
Apontou para os talheres de inox.
— Boca de Luquinha muto petena. coier glande.
Explicou, expondo seus olhos brilhantes,
fazendo-me compreender a exigência.
— Dio mio!
Larguei meu prato e fui procurar a bendita colher pequena em um dos armários. Peguei a primeira que encontrei no suporte e, quando voltei para a mesa, ouvi meu celular tocar na outra ponta do móvel.
Avancei sobre ele na esperança de ser Andrea com novidades. Era ele.
— Oi, Andrea! Encontrou alguma coisa?
Entreguei a colher para o menino e despenquei na cadeira. Estava cansado mental e fisicamente.
— Que voz grogue é essa, Lorenzo? Estou preocupado com você, irmão.
Vem para a empresa. Traz o menino que resolvemos tudo aqui.
— Está tudo sob controle, Andrea.
Menti. Como estaria?
— O bebê que estava faminto. Como dispensei os funcionários ontem, tive que me virar na cozinha. Encontrou alguma coisa nas imagens?
— Inacreditável!
Andrea implicou do outro lado da linha, fazendo-me rolar os olhos sem paciência.
— Lorenzo Varrialleesquentando a barriga no
fogão para alimentar sua possível criança. o moleque já chegou tirando você da zona de conforto, caro fodão de coração singular.
— Encontrou alguma coisa relevante ou não?
Mudei o olhar para o bebê, que fracassava na tentativa de levar o alimento para a boca.
— Nada, irmão.
— Como “nada”? Viu as duas câmeras frontais?
— As duas pegaram o bug, mas o motorista se escondeu atrás de um boné e óculos de sol. E a morena, de corpo muito sarado por sinal, usou a bolsa para camuflar o rosto.
— Cagna golpista! Certamente vai vender o escândalo para algum site de fofoca.
Diminuí o tom e continuei preso na ação do menino, que agora mastigava todo animado por ter conseguido algum resultado com a
colher.
— Mas já comecei buscas por Solange Moretti nas redes sociais. Encontrei trinta e cinco perfis. Já enviei solicitação para os privados e vou observar os abertos agora. Te envio fotos com links em breve.
— Preciso providenciar um teste de DNA, Andrea. Conhece alguma clínica confiável?
— Não, mas Cíntia tem contato dos médicos de confiança.
— Contou a ela?
— É quase impossível esconder algo de Cíntia, Lorenzo.
— Que cazzo, Andrea!
Exaltei-me e bati a mão no tampo da mesa,
ouvindo um resmungo infantil quando uma pequena porção de comida escapou da colher.
— Ela ficou empolgada com a notícia do novo herdeiro Varrialle. Está emotiva. Já comprou presente para o menino e tudo. Fica tranquilo,
cara, ela não vai passar nada para Madame Carraro. Um cazzo!
Cíntia, a esposa de Andrea, embora fosse uma amiga de confiança, teve a má sorte de nascer de uma erva-daninha conhecida como Madame Carraro, que há muitos anos ganhava a vida expondo famosos na internet.
Inclusive eu que, mesmo discreto, fui alvo de inverdades e ataques virtuais no
episódio do golpe da barriga.
Madame Carraro me odiava, pois contra-ataquei judicialmente na
época e, além de receber uma gorda indenização, consegui, com a ajuda de
Andrea, derrubar seu principal canal de notícias, o mesmo que hoje ultrapassa a
marca de um milhão de seguidores.
— O que menos preciso é lidar com exposição agora, cazzo!
Afastei meu prato e apoiei o cotovelo na mesa, friccionando o indicador e polegar contra os olhos, sentindo a cabeça latejar continuamente.
— Cíntia jamais passaria nenhuma informação adiante.
Andrea rebateu, defendendo a esposa, que era discreta, porém, ingênua e
constantemente explorada pela mãe.
— Até porque você acaba com a velha e
ela sabe que eu tomaria à frente mais uma vez.
— Certo. Me liga se descobrir algo. Vou cuidar do menino agora e na
sequência procurar no Facebook.
Encerrei a ligação e coloquei o aparelho celular sobre a mesa.
— Muto gotoso essa tomidinha…
Ouvi o menino resmungar, todo lambuzado de comida. Tinha abóbora até próximo aos olhos.
Era inacreditável que ele estivesse tranquilo ao lado de um desconhecido. Poderia ser qualquer pessoa no meu lugar, inclusive um
malfeitor sem escrúpulos.
Por certo, vivia à toa, o pobrezinho. Negligenciado por três anos nas mãos de uma genitora leviana.
— Vem aqui, menino.
Mergulhei minhas mãos em suas axilas e a
trouxe para o meu colo.
— Você se sujou todo, me deixa ajudar.
Removi a sujeira de seu rosto com a própria colher, dispensei a lambança no canto do prato e reabasteci a boca faminta.
Lucca estava suado, precisando de um bom banho e roupas limpas.
Mesmo não me sentindo confortável para realizar aquela tarefa, daria o meu melhor para deixá-lo apresentável.
— Hum…
Liberou um ruído expressivo, saboreando a comida como se fosse uma grande preciosidade.
— Luquinha, come tudo, mamãe gosta.
Disse antes de deixar a boca em uma posição estratégica, provavelmente esperando outra porção.
Peguei-me sorrindo ao encará-lo. Lucca era lindo. Nenhum outro nome cairia tão bem para ele.
Pensei em minha mãe naquele momento, na felicidade que seria saber da existência de um neto, um desejo que não realizei durante
sua vida, mas prometi nos últimos suspiros.
— Você chegou no momento mais vulnerável da minha vida, bebê.
Coloquei a comida na boca dele e deixei um beijo em seus cabelos bagunçados.
— Você também pensa que está muito cedo para nos apegarmos?
— Vunelável?
Indagou, envolvido com a comida, sem saber o peso das minhas palavras.
— Você não faz ideia, bebê. Será complicado lidar com mais um vazio se isso não passar de um golpe para ferrar com minha vida.
Deixei outro beijo nos cabelos dele, rindo da minha patética carência afetiva.
— Goope é muto legal.
O bebê afirmou, como se estivesse saindo de uma silenciosa análise. Definitivamente, era necessário selecionar palavras certas na frente daquela pequena mente em desenvolvimento.
Meu filho.
Reabasteci a colher e, naquele momento, a tela do celular acendeu na interface do aplicativo, exibindo a foto de Lucca numa mesa com um… prato de comida todo colorido.
Que me fez salivar instantaneamente ao
me recordar dos pratos feitos por minha mãe.
— Sol… mamãe de Luquinha!
O pequeno murmurou, apontando para o aparelho sobre a mesa.
— Oi, mamãe, Luquinha guada um potinho comida pala voche. Um plato muto glande.
Engoli em seco antes de colocar a criança no chão e me afastar com o aparelho diante dos meus olhos.
Era alguém da família. Tive certeza disso e
não demorei a verificar.
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Atualizado até capítulo 85
Comments
Quase cinquentona🥴🥺😔😩
Que fofo 😍
2025-02-09
0
Fatima Matos
lindo esse menino 👏
2024-11-15
0
Giorgia
Nossa, parecem um bando de retardados aloprados.... A criança com 3 anos não fala nada com nada, nem coisas básicas... O pai e is amigos, nem parecem amigos, um bando de fifoqueiros ; e a história, até agora, sem pé nem cabeça, nada esclarecido, parece vossa de adolescente.... Vamos ver!!!... Ou ler mais um capítulo...
Ah, autora, já entendemos, que se trata de italianos, pode usar a nossa língua, por favor.... Até a agitação deles, vc já conseguiu passar, chatinhoooo.....
2024-09-14
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