Júlia olhava para Henrique desconfiada. Não fazia sentido ele estar andando desse lado da casa naquela hora da noite. Ela sentia como se o tempo inteiro ele a olhasse julgando suas atitudes e menosprezando ela.
— Tenho certeza que o gato não comeu sua língua. A ração que eu compro é mais gostosa. E agora, vai me responder ou terei que acordar todos aos gritos? — Júlia ameaçou. Henrique gelou. Se isso acontecesse, talvez desse tudo errado e ele perdesse a pouca confiança que havia conseguido depois de muito correr em um campo de areia. Ele não poderia deixar isso acontecer.
— Olha! — Henrique mostrou uma caneca que estava o tempo inteiro em sua mão.— Estava com sede. Levantei. Tudo está muito escuro. Já tenho dificuldade de andar por aqui de dia, quanto mais a noite. Acabei tentando ir para cozinha sozinho e acabei me perdendo completamente. Poderia me mostrar onde fica a cozinha?
— Me acompanhe. — Júlia disse indo na frente. — Sabe, não sei o que você está aprontando, mas se você aprontar qualquer coisa com minha família, corto sua garganta fora. Não vou deixar um erro meu, de trazer alguém assim para casa, acabe criando qualquer problema para todos os outros. Um passo errado e acabo com você. Eu estarei de olho em você.
— Sério? De olho em mim? Me poupe. Você é uma menina mimada que só faz o que quer. Como acha que pode proteger alguém se nem ao menos está por perto? Não sei se é inocente ou idiota— Henrique acabou se deixando levar. Sua boca falou bem mais do que deveria. Tinha medo que aquela fala acabasse com todo o plano dele até agora.
— Você que é um idiota, mesmo que esteja ao lado de alguém, segurando a mão dela, você pode não ser capaz de proteger essa pessoa. — Júlia disse com lágrimas nos olhos. Virou seu rosto para não mostrar que Henrique havia a afetado — Ali está a cozinha.
Júlia não entrou, apenas mostrou a cozinha e saiu. Henrique ficou um pouco aliviado, o plano poderia acabar ali. Entretanto, acabou se dando conta de algo interessante, assim como ele, Júlia também estava presa em uma rede de mentiras criada por ela mesma. Se fosse entregar ele, teria que dizer que mentiu para todos desde o início.
— Bom. Acho que é suficiente por hoje. Não é o que eu buscava, mas saiu melhor que a encomenda. — Henrique riu ao perceber que Júlia não era um problema. — É só uma mimada que mentiu e está com medo de ser pega.
Henrique continuou seu plano. Três meses se passaram. Ele fez de tudo para ganhar a confiança de Katrina e o respeito de Dinamite, o fato de não se dar bem com Júlia, ajudou bastante nisso. Já conhecia boa parte da comunidade. Cada vez conversando com mais e mais pessoas. Até mesmo, fez amizade com Faísca, que ficou bem amigável depois de saber que Henrique e Júlia se odiavam.
— Cara, hoje tem fluxo. Porque você não aparece? Os últimos meses, só trabalhou. Vai ser bom curtir um pouco, pegar umas minas. Beber muito. Tenho certeza que Katrina e Dinamite não vão dizer nada. Vou dizer que levarei você comigo, eles vão curtir a ideia. — Faísca convidou. Henrique precisava da confiança e da amizade de Faísca. Ele bêbado talvez pudesse tirar algumas boas informações sobre o morro.
— Vou curtir. Falam muito sobre o fluxo, mas não faço ideia do que é. Estava realmente curioso. — Henrique respondeu animado. Também era uma forma de compreender o movimento noturno do lugar. Poucas vezes conseguiu sair à noite. Fazia o máximo para não ser pego. Tinha ciência que se Dinamite tivesse ao menos uma suspeita dele, ele estaria morto.
— Passo para aqui umas dez. Aviso aí Dinamite no galpão. — Faísca disse antes de sair rasgando com a moto.
Henrique entrou na casa, se surpreendeu com Katrina puxando várias malas. Ela havia dito que precisava sair mais cedo da ONG e pediu para Faísca ajudar a fechar junto com Henrique.
— Precisa de ajuda? — Henrique ofereceu confuso com o que havia acontecido. Não tinha ouvido qualquer discussão dentro da casa. Era tão pacífica que nem parecia que ali morava um dos chefes de morro mais violentos.
— Obrigada. — Katrina concordou entregando alguma das malas — Vou passar uns dias fora. Minha cunhada e sobrinho não estão bem. Vou ficar com eles.
— Entendi. — Henrique concordou. Já tinha ouvido sobre eles. Uma irmã de Dinamite que morava no interior estava com problemas de saúde depois da gravidez. Tanto ela como o bebê não estão se recuperando bem.
— Se precisar de algo peça ao Faísca ou Dinamite. Júlia vai ficar trabalhando no meu lugar na ONG. E não se preocupe, já conversei com ela. Vocês vão ficar bem longe um do outro. Você fará as mesmas atividades de antes e ela as minhas. Não vai precisar se bicar como sempre que se encontram. — Katrina explicou entrando no carro depois de colocar as bolsas na mala.
— Tenho certeza que ficará tudo bem. Desejo saúde a sua cunhada e sobrinho. — Henrique disse, mas ele não fazia ideia do quão errado estava quanto disse que tudo ficaria bem.
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Atualizado até capítulo 101
Comments
Joselia Freitas
Será que ele é um espião 😞🤔
2024-01-06
2
Marflor
eit q to perdida mais vamos la
2023-12-24
1
Marflor
eita que to perdida mais vamos laaaa
2023-12-24
1