Liz Miller
Estava envolvida em braços firmes e grossos.
Sentia-me quente, protegida e amada. O abraço de Noah era reconfortante. Sem querer ou talvez por obra do destino, acabei falando mais do que devia. Estava tão absorta em meus pensamentos e tentando me concentrar no tabuleiro, que nem me toquei do que havia falado.
Tentei disfarçar inutilmente. Ninguém iria falar que não se sente segura por engano. Tentei pensar em algo besta para explicar o porquê não me sentia segura, mas desde o momento em que Noah e eu brigamos, contar a verdade estava rondando minha cabeça. Empenhei-me em mostrar que nada tinha acontecido com um almoço. Dar como encerrado o ocorrido. Não esperei que ele fosse tão esperto.
Em vez de cair no meu jogo, caí no dele e eu o amo demais para continuar vivendo mentindo. Os minutos que passo junto com ele me consomem e vai crescendo o cansaço de ter que esconder quem sou. Sair para festas, tratá-lo mal, usar roupas que não é o meu habitual, tudo isso está me deixando exausta. Meu único desejo, gritante, nesse momento é que ele me conheça de verdade.
Só espero não perder Noah, Meg e toda a família Peterson que passei a gostar dentro desse tempo.
Consigo engolir por hora meu choro e com cuidado, Noah me faz sentar outra vez no tapete macio e branco da sala. O jogo foi empurrado para o lado, enquanto ele se sentava a minha frente.
— O que está acontecendo? – Noah pergunta de maneira serena e respiro fundo. Seu olhar amoroso quase me faz voltar atrás e decido encarar para o tapete. Assim tenho mais coragem.
— Eu vou te contar... Só espero que não me odeie depois.
— Odiar? Liz... — ouço a insatisfação na voz e sinto sua mão tocar meu rosto levando-me para ele. — Nunca vou odiar a pessoa que amo, é meio que impossível. — ele sorri dando de ombros.
Existe verdade em seus olhos e em suas palavras. Seu jeito de como quem está pedindo desculpas por me amar, me faz sorrir triste e derrubar algumas lágrimas. Sempre quis escutar essas palavras e agora vou acabar com tudo. Noah enxuga minhas lágrimas e respiro lentamente tirando meu rosto de sua mão.
— Não deveria me dizer isso agora, não me conhece Noah... Na verdade, você e todos os outros viram, de vez em quando, o meu eu verdadeiro. Em relação a você eu mostrei bem menos. Sempre fugi.
— Acho que isso é bem notável. — murmura desconfiado e mordo meu lábio. Ele parece me achar louca, mas continuo.
— Eu não queria me envolver com você. Esse era o segundo motivo para te ignorar e tratar mal. Não queria sentir nada por você além de um carinho, o mesmo que sinto pelos seus irmãos. Mas não deu certo, não consegui.
— Mas por que não se envolver, o que te impede? Qual o segundo motivo para me evitar? — questiona atento e envolvo sua mão.
— Antes de contar, eu quero que saiba que aquele dia depois da inauguração da exposição dos quadros de Meg, no seu apartamento, foi verdadeiro. Foi real. Eu ainda penso naquele dia.
Foi lindo e mágico. Talvez o dia que perdi meu coração para um vendedor de artes.
— E o momento que se entregou para mim na sala de quadros de Frank? — indaga atrevido com um sorriso nos lábios, e quase reviro os olhos. Sua mão levanta outra vez acariciando meu rosto e fecho os olhos suspirando. — Eu sei que foi real Liz, sei que foi especial. Só quero que confie em mim e deixe-me entrar no seu mundo. Eu amo você e creio que não tem como mudar isso.
— Eu não sou Liz. — jogo de uma vez antes de ficar enrolando mais. — Liz Miller é um nome que inventei. Talvez ela exista, mas não sou eu.
Noah cerra os olhos e inspira profundamente. Eu conheço seus movimentos e expressões para saber muito bem que está começando a achar que o inverno do Colorado congelou meu cérebro.
— OK... Então como é o nome da garota que revirou e ainda está revirando meu mundo? — pergunta divertido depois de segundos e deixo meus ombros caírem.
— Você não está acreditando em mim Noah. — alego num grau baixo de irritação.
— Me desculpe Liz, mas você está me dizendo que não se chama Liz. Eu já vi seus documentos.
— São documentos falsos, os verdadeiros estão escondidos.
— Você realmente quer que eu acredite nisso? – questiona com a sobrancelha erguida e fito o teto.
Terei que ser mais precisa.
— Espera aqui um momento. — peço deixando-o sentado e indo até o quarto que estou ocupando.
Noah precisava de provas para acreditar. Minha sorte, ou não, é que sempre levo comigo duas fotos e apesar de não ser suficiente, uma foto minha com minha filha e minha mãe numa cama de hospital e outra de minha filha atual, bastaria para ele começar a considerar de que estou falando sério.
Volto para sala agora não tão segura. Sento à sua frente sobre seus olhares curiosos, espero um momento indecisa e finalmente lhe entrego as fotos. Tenho que ser forte e contar a verdade. Noah fitou por bastante tempo a foto em que eu estava com minha mãe e minha filha. Logo depois baixou as fotos deixando-as no chão, e quando me olhou sério, não precisou muito para entender a pergunta estampada em sua face. Ele não carregava uma postura relaxada de antes e parecia aceitar as coisas que eu havia dito.
Para ser mais sincera, eu não conseguia ler o Noah, que estava a minha frente. Apesar de no fundo uma luzinha piscar me dizendo que Noah entenderia, o resto de mim admitia que eu o perderia. Eram muitas mentiras.
— Eu me chamo Emma Duran... Sou casada e tenho uma filha de três anos, e antes que fale qualquer coisa, preciso que me escute primeiro. Vou te contar toda a verdade, e de como eu vim parar em um apartamento em Seattle.
Noah não acenou e nem sequer moveu um músculo, tomei isso como “um continue”. Respirei fundo tentando controlar minha respiração e iniciei minha história rezando para que Noah perdoasse toda minha mentira.
Contei a Noah que havia nascido e sido criada em Nova Zelândia. Comecei a trabalhar cedo, e foi assim que conheci Rupert que no início era um homem decente e apaixonado, mas que depois se transformou em um demônio. Expliquei que apesar do pouco tempo de namoro, Rupert era carinhoso e cuidadoso. Sempre me dava presentes e me elogiava. Minha mãe também se encantou por ele e daí não foi difícil ir para o casamento. Foi depois de um tempo casados e morando juntos que Rupert mudou. Iniciou-se uma sequência de agressões, algumas psicológicas e outras físicas. Eu não podia fazer nada pelo simples motivo dele ser um ótimo advogado e filho de policial. Rupert na frente dos outros era um amor comigo, o melhor dos maridos, mas em casa se transformava. Quem acreditaria em mim? Uma palavra dele e eu seria uma mulher desequilibrada.
À medida que relato minha história percebo que Noah fica mais rígido e fecha as mãos em punho algumas vezes. Resolvo resumir, contando rapidamente a parte de Lana, onde tive uma súbita imagem de que Rupert mudaria e encerro contando que minha mãe me ajudou a fugir. Ela tinha amigos de longa data em Seattle que resolveram me ajudar. Consegui uma identidade falsa, colori os cabelos várias vezes de loiro que agora parece natural, fui para uma faculdade com ajuda dos meus falsos pais, comprei um apartamento no qual acabei por dividir com Meg, arranjei um trabalho comum e fingi ser uma pessoa que adora festas e baladas.
— Me transformei em Liz, uma garota que não tem medo e que sai de cada balada com um homem diferente. Afinal de contas, Rupert nunca suspeitaria que eu, Emma, faria isso. — sorrio triste relembrando minhas mentiras. – Eu apenas finjo ser a Liz, mas toda vez que vou a uma festa e que saio de lá acompanhada, paro na esquina e despacho o rapaz. Sempre volto para casa sozinha depois de andar por aí. O que conto no dia seguinte é mentira.
Noah já não me olhava mais quando o encarei. Ele fitava a foto de Lana, minha filha. Minha vontade era de me jogar em seus braços para um abraço reconfortante como eu tive antes e beijá-lo para saber se ainda estava tudo bem, se ainda gostava de mim. Mas é claro que não fiz isso, eu não sabia como estavam as coisas.
— Você me perguntou o porquê vim nessa viagem. — Noah voltou a me olhar, mas não pude decifrar no que ele estava pensando, e acho que nem eu conseguiria no estado que me encontrava. Eu só queria chorar. — Ele está em Seattle, mais precisamente, rondando próximo ao bairro onde moro. Não sei se ele me achou ou se já sabe onde moro, só sei que ele apareceu. Eu sempre tenho o maior cuidado para ficar fora das vistas dele, de fazer o contrário do que Emma faria. Só converso com minha mãe por meio de cartas e ainda assim quando mando, ela as queima em seguida. Raramente consigo ligar a webcam para ver minha menina e minha mãe. — suspiro cansada. — Foi por isso que vim com você... Eu não quero voltar para ele. Se Rupert me encontrar um dia, ele vai me matar, tenho certeza. Depois de anos tudo que ele deve ter de mim é raiva.
O silêncio se formou. Eu só conseguia olhar para Noah e continuar rezando para que ele não me deixasse. Minha mãe sempre disse que quando a gente encontra a pessoa certa, não podemos deixála ir. Eu não queria, mas o destino resolveu brincar com a minha vida colando Rupert em meu caminho.
— Isso é tudo? — Noah finalmente falou e quase suspirei de alívio. Minha ansiedade era tão grande que não identifiquei a emoção de sua voz. Estava tudo bem ou ele soou frio e indiferente? Por que ainda não me olhava?
— Sim. Não aprofundei muito, mas essa é toda a verdade. — com um aceno rápido, ele se levantou me abalando. – Aonde vai? Noah?
Ele saiu para corredor dos quartos e escutei quando uma porta se abriu e fechou com uma batida. Fico em choque. Olho para os lados em vão.
Ele me deixou!
Volto a encarar o corredor, esperando que ele volte que me tome em seus braços e diga que tudo vai ficar bem. Engano meu. Como se não bastasse Rupert tirar minha família, ele tirou de mim Noah. Tudo culpa dele! Desgraçado! Por que ele tinha que aparecer na minha vida?
Meus olhos ardem e fecho-os com força. Por quê? Por que comigo? A dor em meu peito era insuportável. Deitei no tapete e abracei minhas pernas. Minha filha sorria na foto com seu rabo de cavalo mal feito e um macacão rosa.
Então chorei. Chorei de raiva, de saudade, de tristeza. Chorei por Noah, pela minha mãe e por Lana que ainda sonho com o dia em tê-la em meu colo.
Com isso tudo, eu ainda chorei por mim.
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Comments
finalmente teve coragem de falar a verdade, espero que Noah ajude ela!😢
2024-04-01
0
Vilza de Souza
Tadinha
2023-11-08
0
Vilza de Souza
Tadinha, meu coração está sangrando 💔😭
2023-11-08
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