5

 Liz Miller

Durante o caminho todo branco por conta da neve que caia aos poucos, Hellen nos contou sobre o problema de Frank. Foi impossível não se arrepiar quando a mulher contou o quanto era importante para o senhor de idade, falar com Noah. Confesso que eu também estava curiosa.

Cheguei a esquecer de tudo que estava me atormentando, só conseguia pensar em Frank, um homem de sessenta e dois anos que ama a arte, e que aos cinquenta anos descobriu que tinha câncer de próstata. Pagou para fazer uma cirurgia arriscada, mas aos sessenta anos, o câncer voltou de novo, só que agora de maneira agressiva se espalhando por mais partes do corpo.

Frank tentou fazer quimioterapia, mas devido seu estado de saúde, tudo que ele conseguiu foi prolongar um pouco mais sua vida. Hellen contou que há duas semanas, enquanto ele mexia na internet, viu algo que o deixou transtornado e animado, na mesma hora contatou Hellen para ir atrás de Noah.

E agora estamos aqui em Denver, no Colorado. Algo parecia suspeito para mim, não de maldade, mas alguma coisa parecia estar faltando. Noah não entendia a relação desse homem com ele, e eu muito menos, por isso nós estávamos ansiosos para chegar.

Quando por final, vi o hospital da janela de trás do carro, tratei de acalmar meu coração. Noah parecia nervoso, mas não demonstrava muito. Saímos e fomos direto para um corredor de quartos, a moça que ficava na recepção já conhecia Hellen.

—  Podem esperar só um minutinho enquanto falo com ele? —  pergunta Hellen quando paramos na porta de número 86.

—  Claro, podemos sim. —  digo e me afasto encontrando parede atrás de mim.

Noah me segue com as mãos no bolso e uma expressão preocupada.

—  Tenta não ficar tão tenso. —  digo amigável.

—  Não tem como. —  suspira e cruzo os braços fitando um ponto invisível na porta à frente.

—  Pior que não tem mesmo.

—  Só não consigo entender porque ele me chamou. Há donos de galerias melhores do que eu pelo país.

—  Não diga isso, para mim você é o melhor.

Ouço sua risada fraca ao meu lado e sinto meu coração derreter.

—  Sou o único que você conhece Liz, mas obrigado por dizer que sou o melhor para você.

Reviro os olhos por ele sempre levar tudo na segunda intenção. Ele nunca perde a chance.

—  Sem essa Noah, Meg não teria sido um sucesso, se não fosse por você. —  rebato convicta vendo seus olhos crescerem um pouco. – Ela é talentosa, mas sem o seu esforço e dedicação ela não seria reconhecida.

— Sabe, é bom quando você me elogia. – Noah diz satisfeito e baixo a cabeça sem fitá-lo.

Eu gostaria de fazer isso mais vezes, mas para mantê-lo longe, sou fria. A porta do quarto abriu revelando Hellen e desencosto da parede. Ótimo! Não queria continuar essa conversa, Noah com certeza entenderia errado.

—  Podem entrar. —  ela informa dando espaço.

Noah permite que eu vá primeiro e ele segue logo atrás. O som das máquinas se torna perceptível e vejo o Sr. Collins, meio sentado e meio deitado sobre a cama hospitalar. Sua aparência era magra, mas mesmo assim tinha um sorriso gentil e carinhoso no rosto. Noah toma o passo à frente e estende a mão.

—  Olá Sr. Collins, é bom finalmente conhecê-lo.

—  Digo o mesmo, estou contente que esteja aqui.

—  diz em tom baixo e rouco.

—  Essa é minha amiga Liz. —  Noah me apresenta e ofereço minha mão.

—  Olá Sr. Collins. —  falo meio tímida.

Sua mão fina, fraca e fria pegou a minha num gesto amoroso e percebi o quanto a vida era valiosa, na verdade, eu já tinha uma noção disso.

—  Como pode ser amigo de uma mulher tão bonita? – o senhor brincou e corei sentindo os olhos de Noah sobre mim.

—  Acredita que nem eu sei. —  responde divertido e rolo meus olhos.

—  Bom, brincadeiras à parte, lhe chamei porque tenho alguns quadros valiosos que guardei durante muito tempo.

Frank iniciou o real motivo de estarmos aqui e me afastei dando espaço para Noah.

—  Sim, estou ciente disso.

—  Meu plano era lhe mostrar pessoalmente. Os quadros estão em uma das minhas cabanas, mas tive um contratempo. —  brinca outra vez e vejo Noah rir desconfortável.

—  Não há problemas quanto a isso vou dar uma olhada de qualquer jeito, porém o que me chamou atenção em sua proposta é que nada irá lhe beneficiar.

—  Bem meu jovem, eu não tenho porque ter um benefício. —  explica com um sorriso cansado. —  Como, não? O senhor precisa do dinheiro, além do que, pode ficar para sua esposa, filhos ou netos.

—  Não tenho mais ninguém nesse mundo e já estou de partida também.

A certeza que ele tinha de que em breve partiria doeu em mim. Sinto uma conexão semelhante, pois toda vez que Rupert me batia eu achava que partiria e bem, eu parti, mas não dessa vida e sim para outro lugar. Todavia ao contrário dele, eu tenho pessoas nesse mundo. Pobre homem. Ninguém merece ficar sozinho.

—  Por isso decidiu praticamente dar suas obras? —  pergunto de longe e seus olhos fracos me fitam em lembrança.

—  Não são minhas obras, são de Judy, ela amava a pintura.

—  E Judy é? —  indaga Noah e Frank fecha os olhos.

—  A mulher que sempre vou amar. —  sussurra e arfo sentindo lágrimas se acomodarem em meus olhos. —  Eu quero que esses quadros sejam admirados por outras famílias, não tem sentido ficarem escondidos. Tudo que peço é que preservem o nome dela.

—  Com toda certeza que farei isso Sr. Frank.

Permaneço calada e encolhida em meu canto quando Noah olha para trás me observando.

—  Acho melhor irmos, ainda temos que ver um hotel para descansarmos. —  Noah informa, mas o senhor o impede.

—  Espere um pouco meu jovem. Um dos motivos para lhe chamar foram os quadros, mas a causa principal foi essa moça.

De cima de uma cômoda ao lado de sua cama, Frank pegou um papel e entregou para Noah. Não consegui ver as feições de Noah, mas quando me olhou novamente, vi a confusão. Cerrei os olhos inclinando muito pouco minha cabeça.

—  E o que Meg tem a ver com isso? —  ouvi Noah perguntar e desencostei da parede ficando alerta.

—  Meg Sanders, não é? Bom, vai parecer estranho, mas eu tenho uma carta da mãe dela.

A notícia me pegou de surpresa. Convivi com Meg por muito tempo, para saber que a mãe está morta para ela. E agora eu sei que sua mãe está realmente morta e temos uma carta. Uma carta da mãe de Meg. Só agora me caiu a ficha. Uma vez no passado, Meg mencionou o nome dela.

—  Judy Wilson. —  sussurro tendo a atenção das pessoas no quarto.

—  Você sabe quem é ela? —  indaga Noah e nego com a cabeça.

—  Apenas ouvi o nome mencionado por Meg, ela não gosta de falar sobre a mãe. O nome completo de minha amiga é Meg Wilson Sanders, mas ela nunca usou o sobrenome Wilson.

—  Eu imagino. —  suspira Frank e me aproximo atônita.

—  Não, você não imagina. Se essa Judy é a mãe de Meg, não tem como o senhor imaginar isso. Essa mulher quase acabou com a felicidade da Meg. — digo não muito sensível ao senhor acamado.

Noah se aproximou entrando em minha frente e segurando meu braço amistoso.

—  Liz, por favor, é um idoso no caminho da morte. —  sussurra em aviso e respiro fundo.

—  Me desculpe, vou esperar do lado de fora.

Sei que ele está morrendo, e que posso estar sendo rude, mas minha amiga esteve morta por muitos anos. Tive que ouvir ela se lamentar por não ser boa para ter um marido e agora ela tem pensamentos horríveis de que deixará o filho que está esperando. Quase desistiu de Gael por causa da mãe que lhe deixou um trauma e fico aliviada por ele não ter desistido e estar sempre do lado dela.

Entretanto, tenho medo do que essa carta possa fazer, quando chegar em suas mãos. Noah não entende, mas terá que confiar em mim. Dar essa carta para Meg não é uma boa ideia.

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