8

 Noah Peterson

Bebo minha terceira dose de whisky enquanto fito o fogo na lareira.

Liz estava finalmente em meus braços como tanto desejei, e em questão de segundos estava correndo para longe. Como se não bastasse o caos, ela me diz que sou incrível e na mesma frase coloca que eu não a mereço. O que ela pretende com isso?

Pensei em todos os absurdos e atrocidades que ela podia ter feito, mas pensar nisso, dessa maneira, me faz sentir mal. Eu conheço Liz. É um tanto indelicada comigo, mas com os outros é a melhor pessoa. Ela cuida e protege quem ama. É sensível, alegre e confiante. Como eu não a mereço?

Praticamente me declarei, só faltou dizer que a amava. Chego a uma conclusão que alguém a machucou tanto a ponto de ela ter feito algo que até mesmo ela abomina, e por isso se sente culpada. Mas é aí que está a questão. O que ela fez? Ela nunca machucaria ninguém a não ser... Que ela estivesse protegendo alguém ou estivesse se protegendo. Bufo com minha teoria ridícula.

Você a conhece!

Esfrego meu pescoço sentindo o cansaço do dia e bebo mais um gole da bebida. O que ela esconde? Sinto a indiferença que às vezes tem comigo, mas também tem entrega quando está em meus braços, ou até mesmo quando estou perto o suficiente. Ela gosta de mim, mas me evita a todo custo.

Por que então aceitou essa viagem? Lógico que ela não contava em estarmos presos em um chalé, mas mesmo assim estaríamos juntos e eu iria dar em cima. Iria usar todas as armas para conquistá-la. Ela sabia disso.

Então por que veio? Argh, mais perguntas sem respostas!

Um barulho vindo a minha direita desvia meus pensamentos. Eu estava tão absorto que não notei o cheiro de comida que vinha da cozinha. O barulho havia sido de Liz que deixou um prato de comida na mesa pequena próximo a mim junto com um copo de suco. Após alguns minutos, veio da cozinha com um segundo prato e um copo de suco, indo para a poltrona ao meu lado, um pouco distante de mim.

—  Não deveria beber tão cedo. —  ela diz em repreensão sem me olhar. —  Espero que coma, não quero ter que cuidar de você bêbado, deve ser difícil carregá-lo.

Como esperado. Liz agiria como se nada tivesse acontecido. Vestiu a máscara de durona e enfrentou da maneira errada a realidade. Decido não a forçar, não a quero distante de mim. Se é dessa maneira que ela pretende agir, esquecendo o que aconteceu, mais cedo, não sou eu que vou relembrar. Tenho tempo para descobrir o que houve com minha Liz.

—  Foram apenas três doses, não estou bêbado pode ficar tranquila. Aliás, não sou eu que bebo por diversão. —  alfineto e ouço sua voz aborrecida.

—  Eu não bebo por diversão, Noah. Quando bebo além do que posso é apenas pra esquecer algumas coisas.

Esquecer do quê? Do passado? Tive que segurar as perguntas na ponta da língua. Ela estava aqui e conversando comigo.

—  Tudo bem, não vamos brigar. —  digo vendo seu olhar confuso em mim.

—  Você que sempre começa, Noah. —  rebate e tenho vontade de rir do seu jeito.

Ah como ela me faz bem!

—  Por isso peço desculpas. —  falo em voz baixa embaralhando mais a cabeça dela.

—  Tem certeza que não está bêbado?

—  Tenho Liz, não é como se eu fosse te agarrar agora. —  ela cerra os olhos desconfiados e volta para seu prato.

—  Apenas coma seu almoço Noah. —  manda e aceno levemente com a cabeça.

Termino de comer rápido para ficar olhando-a. Penso em uma maneira para tê-la ainda por perto, e noto ela brincar com a comida. Algo está deixando minha Liz sem fome. Será que foi nossa conversa de hoje?

—  Será que você pode parar de ficar me olhando? – ela indaga e deito minha cabeça. Será que é por isso que não está comendo? Talvez esteja intimidada.

—  Não consigo. – digo simples observando sua reação.

Liz respira um pouco mais rápido e percebo seus olhos me evitarem. Ela descruza as pernas apoiadas na poltrona e ergo as sobrancelhas entendendo que ela vai se retirar.

—  Tudo bem. – falo depressa e fito a lareira. – Não estou mais olhando... O que é bastante difícil.

– murmuro e ouço seu riso baixo.

Passo a contar o tempo ao mesmo tempo em que balanço o pé. Ouço os barulhos mínimos ao meu lado como o bater do talher no prato. É engraçado que quando ficamos a sós com alguém que amamos, falta assunto.

—  Noah? – Liz me chama e volto a encará-la rapidamente seu rosto, porém, ela continua a me ignorar.

—  Sim?

—  Como reagiria se descobrisse que alguém próximo a você estivesse mentindo?

Em minha testa carrego um profundo V por causa da profunda pergunta. É interessante e curioso. Isso me faz pensar que Liz tenha feito algo e mentiu sobre. O que me deixou abalado foi ela se importar com a maneira que eu reagiria. Resolvo ser sincero.

—  Eu gostaria muito de lhe dar uma resposta elaborada, mas a verdade é que não sei.

—  Tudo bem, até que foi uma boa resposta. —  ela ri sem graça e arfo.

—  Talvez eu ficasse um pouco chateado. —  Liz levanta os olhos e dou de ombros. —  Se fosse alguém próximo a mim, creio que já teria dado liberdade suficiente para confiar.

Seus olhos caem para o chão culpados e olho para o lado apertando minha mão em um fecho. Por que ela não confia? Vejo uma prateleira de jogos. Está na hora de mudar o rumo da conversa e aliviar a tensão. Que sorte a minha Frank ter isso.

—  Sabe jogar Damas, Liz? —  indago e ela olha de volta para mim se situando. —  Andei dando uma olhada pela casa e vi que Frank tem alguns jogos.

Podemos passar um tempo nos distraindo com isso. —  Seria legal jogar Damas.

Aceno segurando minha felicidade. Pelo menos ela não negou. Pego meu prato e sigo até ela. Seus olhos crescem e vejo sua tensão com minha proximidade.

Fique tranquila, Liz!

—  Já terminou? —  pergunto apontando para o prato.

—  Já, sim. —  garante e observo seu prato quase intocável.

—  Não comeu muito.

—  Estou sem fome. —  explica dando de ombros e vinco as sobrancelhas.

—  Então por que cozinhou?

—  Imaginei que você estivesse com fome. — murmura e relaxo. Estava pensando em mim? – A verdade é que não queria você bêbado. – enrola e retomo meu lugar já que Liz já demonstra certa impaciência.

—  Obrigado Liz, estava uma... Delícia.

É impossível não usar dos galanteios com Liz. Ela revira os olhos fitando a lareira e sorrio sem barulho.

Controle-se!

—  Você pode pegar o jogo? Vou levar os pratos e deixá-los na máquina de lavar.

—  Sim, claro que posso.

—  Está na prateleira do outro lado da sala. — aviso e saio em disparada com medo que ela desista.

Ajeito o mais rápido que posso tentando não quebrar nada. Quando chego à sala ouço um resmungo vir detrás de mim, viro tendo o vislumbre de Liz de ponta de pé tentando pegar uma caixa no alto. Havia esquecido que o jogo estava na prateleira de cima. Aproximo-me por trás e pouco cafajeste que sou encosto-me ao seu corpo.

Sua bunda empinada congela em meu colo. Nem sequer consigo ouvir sua respiração. Ela está paralisada. Pobre Liz. Sorrio inspirando seu cheiro e levanto minha mão passando pelo seu corpo até a caixa. O que alguns centímetros mais alto não faz? Pego o jogo me afastando em seguida e ouço seu arfar.

—  Vamos? —  pergunto para Liz como se nada houvesse acontecido. Não é assim que ela faz?

O olhar perturbado de Liz me agrada. Ela sacode a cabeça levemente e acena que sim. Onde está sua voz? Viro para a lareira a tempo de sorrir. Vou enlouquecê-la.

O jogo começou sem muita conversa. Liz estava focada na sua vez, faltavam poucas peças no tabuleiro e eu estou ganhando. Tenho certeza que por causa de sua distração, pois sou um desastre neste jogo de tabuleiro. Uma das perguntas que estava rondando minha cabeça antes dela aparecer surge, e resolvo perguntar de uma vez.

—  Por que resolveu viajar comigo de repente?

—  Porque não estava tão segura em Seattle. — disse de forma tão simples que só notou o que confidenciou depois.

Franzi minha testa fitando-a. Por que não estaria segura em Seattle?

—  O que quer dizer com isso, Liz?

Sua face pálida indicava algo que não podia ser contado. A respiração ficou rápida e os olhos me olharam espantados.

—  Eu falei errado. —  murmura com o riso fingido e aprofundo minha carranca.

—  Creio eu que você falou certo Liz, e eu ouvi muito bem. Você está com problemas?

Será dinheiro? Se ela devia dinheiro para alguém tinha que ser muito. A meu ver Liz não é rica, mas tem sim uma vida boa. Nunca a vi passar por problemas, sua família sempre esteve ao seu lado.

Pode ser um homem a chantageando no trabalho. Liz sempre faz questão de dizer que saiu com alguém na noite passada. Ela se levantou do chão, e fui junto parando a sua frente.

—  Não vai fugir Liz, não dessa vez. Vai me contar o que está acontecendo, precisa confiar em mim.

—  Mas não está acontecendo nada Noah, eu só me expressei mal. —  declara sem raiva.

Noto seu corpo encolhido. Ela está acuada. Os braços cruzados e a voz chorosa me mostravam receio. O olhar era para o chão, não me olhava, não gritava com raiva e nem respondia atrevida. Ela estava...

—  Está com medo? —  pergunto com o coração na mão.

Podia aguentar tudo menos minha Liz amedrontada. Puxei-a para meus braços e fui envolvido com força. Liz chorou e apenas fiquei segurando-a. Palavras não resolveriam agora, ela só precisava saber que eu estava aqui.

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Comments

Maria Alves

Maria Alves

Estou louca pra que ela conta o que aconteceu no passado.

2024-04-06

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