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 Liz Miller

Minha casa em Nova Zelândia ainda estava do mesmo jeito. O piso de madeira, a sala junto com a cozinha, a TV ligada em um canal de esportes, tudo do mesmo jeito que há sete anos. A sensação foi de tranquilidade e saudade, até a porta principal abrir.

A figura de Rupert surgiu poderosa e com riso mesquinho. Fechei meus olhos imaginando que isso só poderia ser um sonho. O que estou fazendo aqui afinal?

—  Resolveu voltar boneca ou será melhor chamála de Liz?

Abri minhas pálpebras em desespero e vi que ainda estava aqui. Ele sabe onde estou, sabe meu nome! Respiro rápido e corro para me esconder em meu quarto, mas hoje Rupert não está bêbado. Suas mãos me seguram pelos ombros e me joga na parede com força.

—  Por favor... —  imploro e sou virada de frente com brutalidade.

—  Sabe como senti saudades suas? Desse seu rostinho liso e branquinho?

Tomo coragem para levantar minha face, mas sua mão vem como um ferro de passar quente.

Inspiro profundo abrindo os olhos. O teto branco e intacto carrega a luminária que tanto quis dias atrás. Outra vez esse pesadelo. Há dois dias, depois de ter visto Rupert, venho sonhando com ele.

São exatos dois dias que não saio de casa.

Saio da cama indo direto para o chuveiro. A água quente relaxa meu corpo. Mentalizo que Rupert não sabe que estou aqui, que nem sequer me reconheceu, além do mais, é impossível ele saber meu nome. Trabalho em uma pequena revista, editando matérias. Não é o emprego dos sonhos, mas foi o melhor para me manter longe dos holofotes, depois que fiz minha faculdade de jornalismo.

Volto a vestir meu pijama e sigo para a cozinha, mas uma batida na porta me faz frear.

—  Liz? Está aí? —  Meg chama do outro lado e suspiro.

Mudo meu caminho para a porta e abro com o melhor dos sorrisos que tenho, porém Meg carrega uma cara preocupada e nervosa.

—  Onde está que não atende seu telefone? E por que diabo ainda está de pijama às dez horas da manhã?

—  Calminha Meg, não pode ficar estressada, olha o bebê.

—  Como não posso ficar estressada? Há dois dias que tento falar com você. Rose e eu estávamos preocupadas.

—  Me desculpe, mas é que entrei de férias e aproveitei para ficar mais tempo em casa.

—  Você nunca foi assim. —  acusa e me viro de costas indo para a janela do meu apartamento.

Na verdade, eu sempre fui assim. Suspiro vendo a cidade inteira já acordada.

—  Sei que não sou. —  minto e ponho mais um sorriso para voltar para Meg. —  Por isso estou testando, vendo como é a vida de uma pessoa caseira.

—  E está gostando? —  pergunta e respondo o que Liz diria.

—  Não! —  bufo e sento no sofá trazendo Meg comigo. Esse lugar ficou maior depois que ela se mudou.

—  Me diga a verdade Liz, ficou chateada com o que te pedimos não foi? —  franzo a testa sem entender.

—  Quê?

—  A proposta de ir para Colorado com Noah. Não fique chateada comigo e com Rose, só queremos que vocês sejam amigos.

Colorado! Como pude me esquecer disso? Era óbvio que no dia fiquei nervosa com a proposta, depois fiquei com raiva de Noah por me pressionar. Ele sabe que não podemos ficar juntos. Tudo bem, só eu sei. Mas agora, depois de tantos pesadelos com Rupert, sei que posso sobreviver alguns dias com Noah.

—  Olha Meg, Noah já arrumou alguém para ir com ele?

Seus olhos aumentam ligeiros em expectativa. Eu sei que todos querem que Noah e eu fiquemos juntos, mas é algo impossível. Sou casada. Conhecendo essa família, sei que não haveria problema se soubessem de tudo, o verdadeiro ponto chave são as mentiras. Vivo em uma mentira desde que cheguei a Seattle, porém nem tudo para mim foi ou é uma mentira.

Espero que um dia eu possa contar tudo, sem medos, sem receios e sem vergonhas. Além de tudo, espero o dia de abraçar minha filha.

—  Não, ele vai sozinho. —  diz Meg me trazendo de volta. Respiro fundo e fico de pé decidida.

—  Ele não vai mais sozinho. Vou com ele.

Os acontecimentos a seguir foram tão rápidos que quase me perdi. Soube que o voo era no mesmo dia, só que na parte da tarde. O grande problema estava nas roupas. Colorado nessa época de fim de ano costuma fazer frio, e como moro em Seattle e não havia planejado ir, não tinha muitas roupas de frio. No máximo um blusão de lã e uma blusa de crochê de pontos fechados.

De qualquer forma, não planejo sair por aí e o hotel que ficarmos deve contar com um aquecedor. Noah quer apenas uma companhia e eu, fugir desse lugar por um tempo, mesmo que eu tenha que ser rude, egoísta e chata com o homem que amo. Ficar dois dias longe daqui, vai me fazer pensar no que fazer.

—  Não está desistindo não é amiga? —  Meg questiona ao meu lado no táxi e sorrio.

—  Não, não estou. Disse que ia e vou.

—  Não vai se arrepender. —  diz animada e reprimo um suspiro.

—  Fala como se alguma mágica fosse acontecer. Não se esqueça que não suporto Noah, só estou indo para que ninguém fale que sou uma pessoa horrível.

—  Eu nunca diria que é uma pessoa horrível. — afirma amável e a olho com carinho.

—  Por isso que amo você. —  digo a abraço-a verdadeiramente.

—  E eu a você.  Agora, por favor, tente ser simpática com Noah. —  pede e reviro os olhos.

—  Eu tento, mas ele sempre tem que vir com aqueles olhos azuis e corpo incrível... —  me interrompo ao perceber o que estou falando. — Como todos os Petersons tem, então ele abre a boca e faz graça como se eu gostasse do que faz.

—  Eu acho que gosta.

—  Meg! Você não está sendo minha amiga. – digo e ela apenas rir.

—  Ele te paquera Liz, e para falar a verdade, você só se faz de difícil para que ele continue te paquerando.

—  O quê? Só pode estar ficando doida, acho que seu homenzinho está sugando seu cérebro.

—  Ele não está sugando meu cérebro, pare com isso! – gargalha e suspiro resignada.

—  De qualquer forma seu pensamento é equivocado.

—  Ah, Liz, quando vai assumir para si mesma que é apaixonada por ele?

Engulo em seco absorvendo sua pergunta. Dentro de mim já está mais que assumido que estou apaixonada por ele. Eu o amo! Pego sua mão e envolvo na minha.

—  O que acha de não criar expectativas?

—  Não posso. Sabendo do que sei, é impossível não criar expectativa.

—  E o que sabe? Se Noah pensar em nos colocar no mesmo quarto ele vai dormir no chão. – aviso e ela nega balançando a cabeça.

—  Vai descobrir amiga quando estiver lá, e não vai ter como fugir dessa vez.

Cresço meus olhos e solto sua mão olhando para o banco da frente. Não vou fugir? Eles descobriram e vão me entregar para Rupert? Seria coincidência demais essa proposta no mesmo dia que o vejo. Talvez não tenha sido proposital eu ver Rupert. Mas o que estou pensando? Meg não faria isso comigo, a não ser que ela não soubesse.

—  Como assim? —  murmuro baixo e nervosa e duvido que Meg tenha escutado.

—  O que houve? Ficou pálida, está tudo bem?

—  O que quis dizer com não vou fugir dessa vez?

—  Foi modo de falar, afinal viajarão juntos, realmente não vai ter como fugir de Noah como faz todas às vezes. —  suspiro aliviada. Eu estava criando paranoias em minha cabeça. —  Tem certeza que está bem?

—  Sim, foi apenas uma tontura. Sabia que tenho medo de avião? —  mudo a conversa e ela sorri confiante.

—  Noah estará lá para ajudá-la.

Sem que ela perceba minha expressão de desespero por quase ter entregado a verdade, sorrio e reviro os olhos falando algo banal. Viro para a janela do meu lado e respiro fundo algumas vezes. Tenho que parar de pensar no pior sempre.

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Comments

Vilza de Souza

Vilza de Souza

Doida pra ver esse marido morrer.

2023-11-07

1

Márcia Valgas

Márcia Valgas

Ansiosa com essa história. Liz e Noah.

2023-07-16

0

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