Me preparo para o jantar, já que irei confrontar Norah, preciso estar da forma que a agrada. Visto um vestido azul real, com mangas levemente bufantes e pedraria em seu corpete. Norah adora este estilo de vestido, creio que chamarei sua atenção esta noite.
Brigitte faz uma trança nas laterais do meus cabelos deixando todo restante solto, me adorno com jóias e desço para o salão de jantar.
Assim que passo pela porta, seus olhos me analisam de cima a baixo, vejo que ela segura um sorriso.
— Estava me perguntando se atrasaria para o jantar. — Me sento na segunda ponta da mesa de doze lugares.
— Creio que isso não agradaria vossa alteza. — Ela me olha com desconfiança.
— Certamente... Posso saber o motivo de tamanha formosura? — Sorrio. — O que pretende Freya?
— Apenas vamos jantar minha irmã. Após o jantar falaremos. — Ela respira fundo.
— Salina, pode nos servir por gentileza.
A criada assenti, nos servindo em seguida.Enquanto jantamos, Norah não para de me observar. Vejo sua curiosidade aumentar a cada colherada de sopa.
— Certo. — Ela limpa os lábios delicadamente com seu guardanapo. — Me diga o que está acontecendo imediatamente. — Limpo meus lábios me colocando ereta sobre a cadeira.
— Como preferir. Chegou a meus ouvidos que brevemente seremos atacados. — Ela ajeita seu guardanapo enquanto falo.
— E? — Ela ergue os olhos a mim.
— Você não acha que eu deveria saber de situações como estas, Norah? O Lorde da Escuridão preste a atacar todas as provincias e reinos e você não compartilha comigo? — Ela respira fundo enquanto repousa a taça sobre a mesa.
— Não cabe a você estas informações. Eu sou a rainha, sou eu quem decide as coisas por aqui.
Me recordo das palavras de Kilian, de fato ela ainda não é a rainha, não tem o direito de me excluir dos assuntos do Reino.
— Você ainda não foi coroada Norah, ainda é apenas a princesa. Então cabe a você compartilhar comigo, mesmo que isso não a agrade. — Seu cenho se franze enquanto posso ver seus lábios tremerem.
— Retire o que disse Freya. — Balanço a cabeça negativamente. — Freya não teste minha paciência.
— Não disse nenhuma mentira. — A encaro sem pestanejar. — Só quero que me respeite pelo que sou, e que me trate com o devido merecimento,minha irmã. — Norah relaxa os ombros se encostando no encosto da cadeira.
— Esse é o motivo da afronta então. — Ela sorri sem mostrar os dentes. — Você sempre foi uma criança mal educada, desobediente e diria até rebelde. Típicamente como os camponeses ignorantes, ou diria como os porcos. — Desvio o olhar, ela ri. — Já não basta seus defeitos físicos e cicatrizes ainda tinha que agir como os pobres.
Fecho os olhos e me recordo do ataque que sofremos quando ainda era criança, eu corri tanto naquela tarde, fugindo pela floresta que acabei me perdendo em um convexo de túneis cheios de musgos. Me lembro que senti muito medo, fiquei escondida alí por um tempo, agachada abraçando minhas pernas. Não percebi a presença de um urso negro gigantesco, apenas me dei conta quando ouvi sua voz atrás de mim grunhindo que estava faminto. Me lembro de olhar pelo ombro e ele me puxar pela perna rasgando minha carne, mas a dor maior foi suas garras fincando sobre minhas costas. O tempo todo ouvia ele dizer que estava faminto, quando ele me virou, pude ver seus olhos laranjados quase em um vermelho vivo.Ele apoiou as duas patas ao redor de meu rosto grunhindo em seguida deslisou uma de suas garras no meu lábio o cortando do lado direito. Quando ele estava preste a abocanhar minha cabeça, fechei os olhos aguardando a morte.Mas ela não veio, apenas ouvi a voz do meu salvador dizendo: " Não toque nela, ou terá que se tratar comigo... Ela pertence a mim e somente a mim. Vá Puka e coma quem quiser, mas nesta nem ouse tocar novamente."
Tentei abrir meus olhos e ver o rosto do meu salvador, mas minhas vistas estavam embaçadas e só pude perceber seus cabelos negros e pele clara.Nada mais.
— Deveria ter morrido aquele dia Freya, você sempre deu desgosto a nossos pais. — Seguro as lágrimas,fechando os punhos debaixo da mesa, não quero que ela perceba que sua rejeição me fere tanto.
— Por favor Norah, apenas me conte as coisas. É tudo que peço. — Minha voz sai como sussurro.
— O que você quer saber Freya? — Ergo meus olhos a seu rosto. Ela respira fundo. — Tudo bem... O concelho está me obrigando a escolher um marido. Segundo as leis uma mulher não pode governar sozinha. — Ela vira a bebida. — Salina mais vinho.
— Sinto muito por isso. — Apesar da forma que ela me trata, eu realmente sinto por ela.Ninguem deveria ser obrigado a fazer algo que não deseja.
— Não sinta, faz parte de minhas obrigações como rainha... Não se preocupe com o ataque, enviei um mensageiro ao Reino Shadowsdusk.
— Não acredito que mandou um dos nossos soldados pra morte. — Ela ri me olhando com a cabeça tombando para esquerda.
— Você prefere a morte de vários no lugar de uma única alma. — Ela suspira.— Você é mesmo patética.
— E o que dizia na carta? — A questiono curiosa.
— O Lorde da Escuridão nos ofereceu um acordo e eu aceitei. — Ela ergue a sobrancelha, mas seu olhar recai no meu pescoço.— Que colar é este?
— Um presente — o seguro o ajeitando. — , nada demais.
— Interessante. — Ela parece pensativa. — Preciso me retirar, tenho assuntos de suma importancia para tratar. — Ela se levanta.
— Mas não terminou... — Ela me interrompe.
— Não me ouviu? — Apenas assinto, ela vira as costas e sai do salão.
Respiro fundo olhando para Salina que olha para o chão.
—Salina, poderia me servir um pouco de vinho? — Ela me olha timidamente.
— Claro senhora. — Ela sorri.— Me perdoe o atrevimento, mas, como a senhora permite que sua irmã a trate desta forma?
Salina é uma jovem de aproximadamente dezesseis anos, chegou a pouco tempo no castelo e não sabe nem um terço do que já passei aqui.
— A vida toda foi assim Salina, já me acostumei a ser desprezada pelas pessoas que amo.Antes por nossa mãe, agora por Norah, nada mudou. — Tomo um gole do vinho.
— Que os deuses me perdoe senhora ao dizer isso, mas ela não merece ser a Rainha, e sim a senhora. — Sorrio para Salina.
— Obrigada, mas as coisas não são como esperamos, não é?
Ela sorri voltando a seu lugar, termino o vinho me retirando da mesa. Subo para meus aposentos e Brigitte está na porta me aguardando.
— Por seu semblante as coisas não foram como esperava. — Entramos no quarto.
— Como sempre ela foi ríspida como nossa mãe. — Suspiro. — As vezes me dá vontade de fugir e deixar tudo pra trás. — Brigitte desamarra o corpete.
— Não diga bobagens Freya, está é sua casa seu lar. É onde cresceu e pertence tanto a você como a Norah.
— Há momentos que sinto que até mesmo a terra me rejeita Bri, vejo pelos olhos dos outros quando vou até os vilarejos.
— Eles apenas te acham forte por sobreviver aquela Puka maldita do Reino de Car... — Ela faz uma pausa — do Lorde da Escuridão.— Retiro o vestido me jogando na cama.
Ninguém ousa a pronunciar o nome dele, pois é uma forma de o convocar e trazer a morte para o lugar.
— Ela deveria ter me devorado aquele dia, não sei se devo agradecer ou matar quem me salvou.— Fecho os olhos. — Ainda lembro o cheiro dele,ele exalava um doce perfume de Dama da noite ao desabrochar, misturado com cravo.— Suspiro.
— Como, você era tão pequena. Como pode se lembrar?
— Apenas senti este cheiro duas vezes, no dia que fui salva e anos depois no bosque. Mas ficou marcado na minha memória. Posso não ter visto seu rosto, mas lembro de sua fragancia. — Olho para Brigitte. — Meu cheiro é bom Bri?
— Claro minha garota, coloco óleos perfumados no seu banho todos os dias.— Cheiro a pele de meu braço.
— Cheiro a frutas cítricas, nunca havia notado. Também, meus dias são tão caóticos que estés detalhes passam despercebidos.
— E lorde Kilian, você gosta de seu aroma? — Mordo o lábio.
— Ele sempre está cheirando a grama molhada e a cavalos. — Brigitte ri.— Não me importo, adoro seu cheiro de qualquer forma.
— Você gosta muito dele, não é? — Suspiro segurando o colar. — Acho que o amo, ele é quem torna meus dias melhores.
— Ele também gosta muito de você minha menina. — Me levanto indo até a janela.
— Mas acho que ele nunca olharia para mim como uma amante. O afeto dele é de um amigo, ele merece uma mulher normal, sem defeitos.— Ela segura meus ombros.
— Você é perfeita meu amor, seus olhos são lindos, suas cicatrizes a torna especial. — A olho sorrindo levemente.
— Obrigada. — Apoio minha mão sobre a dela. — Vá jantar e descansar. Eu farei o mesmo.
— Claro, bom descanso princesa. — Ela beija minha testa.
— Obrigada.
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Atualizado até capítulo 146
Comments
Joelma Oliveira
típico de filhinha mimada da mamãe. mostrar se sentir superior às vezes é pra esconde seu medo de não o ser
2022-05-10
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Joelma Oliveira
pelo menos ela tem amigos, há já que não tem o pai
2022-05-10
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