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No caminho para o hospital, Maria Antônia se sentia ansiosa e apreensiva. A notícia de que sua mãe estava morrendo abalou seu mundo. Ela se segurava nas mãos de Francisca, buscando conforto e apoio durante o trajeto turbulento. Rafael dirigia com agilidade, tentando encurtar o tempo de chegada ao hospital.

Enquanto o carro se movia rapidamente pelas ruas, um silêncio pesado pairava no ar. As palavras pareciam desnecessárias naquele momento, e cada um dos ocupantes do veículo estava imerso em seus próprios pensamentos e preocupações.

Maria Antônia recordava os momentos que passou ao lado de sua mãe, a mulher forte e guerreira que sempre esteve ao seu lado. As duas trabalhavam na avenida até chegar o dia em que a idosa não tinha mais saúde para vender seus doces caseiros sob o calor do imponente sol dos justos.

Maria Antônia se lembrou das histórias contadas antes de dormir, das risadas compartilhadas e do amor incondicional que sua mãe sempre lhe dedicou. As lágrimas corriam livremente por seu rosto, e ela se perguntava como seria a vida sem a presença de sua progenitora.

Chegando ao hospital, Rafael estacionou o carro rapidamente e acompanhou Maria Antônia e Francisca até a recepção. Ali, foram informados sobre o estado crítico da mãe de Maria Antônia e direcionados para a sala de espera, onde estava a mãe de Francisca os aguardando.

— Como ela está, tia? — Era assim como Maria Antônia a chamava desde pequena. — A minha mãe não vai morrer, não é mesmo? Ela não pode…

— Calma, querida.

A mãe de Francisca a abraçou, fornecendo um apoio emocional. Era um momento muito difícil para Maria Antônia e todos estavam ali para apoiá-la de alguma forma. Ainda era incerto o estado de saúde atual da idosa. O que antes se pensava ser resolvido apenas com um tratamento, de uma hora para outra fez com que o médico responsável por atendê-la tivesse uma surpresa desagradável.

— Sente-se, querida. — disse a mãe de Francisca, apontando o largo sofá acolchoado que havia ali com outras três poltronas. — O médico logo virá aqui nos dar alguma notícia sobre a sua mãe.

Francisca se sentou de um lado da amiga e Rafael do outro. A mãe de Francisca se sentou em uma das poltronas e ali permaneceram sob um pesado silêncio e uma forte expectativa para o que viria a seguir.

Rafael não hesitou em ficar próximo de Maria Antônia, mesmo que aparentemente não tivesse nada a ver com a situação e tampouco fosse próximo dela e da idosa.

Maria Antônia enxergava Rafael como um homem bondoso e, embora ainda não tivesse se decidido, como seu futuro chefe também. Por alguns minutos a presença dele passou despercebida, mas logo a mãe de Francisca desejou conhecê-lo, pois ele ainda era um homem estranho para ela e a própria filha.

— Foi ele quem nos trouxe até aqui, mãe — disse Francisca.

— Desculpe, senhora, por não me apresentar. Eu me chamo Rafael. Sou dono e diretor executivo da empresa que deseja contratar a Maria Antônia.

A mãe de Francisca ponderou as palavras de Rafael. Pela expressão dela e a mão próxima ao queixo, ela parecia duvidar que o dono de uma grande empresa andasse atrás de funcionárias, ou que apresentasse tamanha gentileza sem segundas intenções.

— Ainda não entendo o porquê está aqui. Não que não seja necessária ou que não possa. Não é isso, mas é estranho que esteja usando o seu tempo para estar na companhia de estranhas.

Rafael expressou um sorriso junto a uma expressão serena que passava segurança. Ele compreendia bem os pensamentos dela.

— A senhora tem razão em pensar assim. Mas devo dizer que Maria Antônia não é uma completa desconhecida para mim, e a senhora e sua filha agora não são mais também, ao menos de vista e por nome já as conheço. Mas o motivo deu estar aqui é para apoiá-las, principalmente a minha futura ma… digo, segunda secretária neste momento tão difícil. Sei bem como é passar por isso com a nossa própria mãe, e espero que a dela possa superar bem esta situação.

A mãe de Francisca ficou surpresa com a resposta de Rafael. A contratação de Maria Antônia também deixou a amiga impressionada, pois não imaginava que a conversa entre os dois terminaria tão bem quanto esperava ao sugerir que ela voltasse à empresa dele para esclarecer a situação do currículo amassado.

Enquanto isso, Maria Antônia permanecia em seu estado meditativo, pois preferia não interagir com os demais.

— Fico feliz em saber disso — disse a mãe de Francisca com as mãos sobre o peito, contendo a explosão de felicidade que sentia pela filha de sua vizinha de longa data. — Mas aproveitando que o senhor está aqui, será que não teria um a vaga de emprego para minha filha também?

— Mãe! — exclamou Francisca, surpresa. — Mãe, este não é o momento.

Rafael sorriu diante da situação. Foi um instante de distração que serviu para amenizar o clima pesado pairando sobre aquela sala de espera.

— Pensarei no caso de sua filha — disse Rafael, deixando Francisca ainda mais surpresa e a mãe dela esperançosa.

No momento, Francisca só frequentava um curso de bacharelado em administração à noite em uma universidade pública, mas ainda não pensava em conseguir um emprego, embora tivesse potencial para conseguir um com facilidade. Era inteligente e muito sábia, tanto que era com ela que Maria Antônia sempre compartilhava os seus problemas, desde os mais rasos aos mais profundos.

As horas passaram tão devagar quanto o andar de tartarugas na praia, enquanto eles aguardavam notícias da paciente. Maria Antônia mantinha as mãos trêmulas e os olhos vermelhos de tanto chorar. Francisca tentava transmitir apoio com seu olhar e pequenos gestos de consolo.

Com a cabeça apoiada no ombro da amiga, Maria Antônia sentia o consolo aliviar um pouco o aperto em seu peito. A dor era intocável porque atingia diretamente a sua alma, as suas emoções.

Finalmente, o médico responsável pelo caso da idosa apareceu ali e se aproximou deles na sala de espera. Seu semblante sério e cauteloso aumentou ainda mais a tensão no ar.

— Como está a minha mãe, doutor — indagou Maria Antônia, que se levantou do sofá quase que em um salto ao vê-lo chegar.

Ele suspirou, causando ainda mais apreensão, e explicou a gravidade da situação e a necessidade de uma cirurgia de emergência para tentar salvar a vida da paciente que teve uma queda brusca no seu estado de saúde, porque todos os problemas internos dela vieram à tona de uma só vez.

Se a idosa tivesse se cuidado mais, ido mais ao médico, tomado todos os remédios como recomendado, seu estado de saúde estaria melhor. Mas ela não fez isso devido a baixa condição financeira e, portanto, omitia a gravidade de suas dores.

Maria Antônia sentiu como se o chão estivesse se abrindo sob seus pés. A notícia era devastadora, mas ela sabia que não podia desistir. Ela olhou para Francisca, buscando força e coragem, mas foi no olhar de Rafael, que a tocou no ombro para chamar a sua atenção, que ela viu uma determinação que a confortou.

— Tenha fé e paciência — disse Rafael.  — Fê e paciência são duas coisas importantes que a Sônia, mais do que uma empregada, a governanta da minha casa, me disse quando a minha mãe passou por uma situação semelhante pouco tempo após o falecimento do meu pai. Precisamos cultivar muito isso neste momento.

— Sim, mas e se o pior acontecer, Rafael, eu não sei se consigo suportar perder a minha mãe... Ela é tudo para mim — disse Maria Antônia com a voz embargada.

Rafael segurou as suas mãos com firmeza e olhou profundamente em seus olhos.

— Eu entendo o quanto a sua mãe deve ser importante para você, Maria Antônia. A mãe é a primeira e a mais importante pessoa que amamos na vida. Sei bem como se sente, porque não tenho mais a minha, mas não quero que isso aconteça com você também. Gostaria de dizer que tudo vai ficar bem, mas só os médicos podem confirmar isso.

Rafael apertou as mãos dela com firmeza, tentando transmitir segurança. Maria Antônia fungou, lutando contra as lágrimas que ameaçavam transbordar novamente.

— Não sei o que vou fazer sem ela, a minha âncora, o meu porto seguro. Não consigo imaginar a minha vida sem ela ao meu lado.

Rafael levantou o olhar para o médico, que agora aguardava o momento de comunicar o valor da cirurgia. Nunca era fácil dizer isso aos familiares dos pacientes, porque na maioria dos casos gerava desespero por não terem condições para pagar.

— Perdão por interrompê-los — pigarreou o médico, sentindo em seu peito que a filha da paciente logo entraria em desespero. Era nítido pela forma como estava vestida que ela não teria condições de custear o valor de cinco dígitos. — Lamento, mas é uma cirurgia muito específica, por isso custa exatos cinquenta mil reais.

Como esperado, Maria Antônia entrou em profundo desespero. Suas pernas fraquejaram, e Rafael a segurou com um forte abraço. Nem mesmo a mulher mais forte poderia suportar essa situação sozinha.

Rafael sentiu o peso do corpo dela aumentar sobre seus braços, após ela inevitavelmente desmaiar de tanta emoção.

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Comments

Elisa Lando

Elisa Lando

A história é tão emocionante

2024-07-23

1

Ângela Abreu

Ângela Abreu

Coitada da Maria Antônia.

2023-11-15

0

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