Após pouco mais de uma hora de viagem, Rafael chegou ao endereço recebido por mensagens de texto. Estacionou o carro em frente a uma enorme casa que servia de hotel na cidade vizinha, cuja larga porta de madeira era admirável, assim como o jardim, e ali ele permaneceu dentro do veículo aguardando sua convidada.
Enquanto isso, seu aparelho celular tocou uma, duas, três vezes até que ele decidiu desligá-lo sem sequer verificar quem era.
— Suspeito que seja a Raquel — murmurou consigo mesmo, pondo o dispositivo desligado no porta-luvas. — Agora ela não vai mais me perturbar. Esta noite promete e se tudo der certo, Raquel terá uma grande surpresa em breve.
Letícia surgiu à porta e assim que a viu, Rafael buzinou, chamando a atenção dela para o veículo prateado. Ela se aproximou, e ele saiu para abrir a porta.
— Nossa! Está linda como sempre.
— E você continua pontual — sorriu Letícia, após cumprimentar Rafael com um beijo na bochecha.
Ela estava elegante, trajando um longo vestido de rendas e aberto na barriga e costas. Seus olhos azuis e largo sorriso brilhavam sob o brilho da lua.
— Nunca perdi alguns dos meus antigos hábitos — disse Rafael, passando a mão no cabelo.
— Espero que tenha perdido os péssimos hábitos também, ou vai me dizer que ainda continua bebendo muito com o seu amigo... como era o nome dele mesmo?
— Eduardo.
— Sim, esse mesmo.
Letícia se sentou no banco do passageiro e, após Rafael fechar a porta do lado dela, retornou ao seu assento. Então, continuaram a conversa.
— Eu e o Eduardo ainda saímos às vezes — disse Rafael, colocando o carro em movimento. — Mas não é mais como antes, como na época da faculdade em que saíamos todas as noites. Hoje é diferente. Depois que meus pais faleceram, fiquei responsável pela gestão da empresa, assumi o cargo de Diretor Executivo e ainda tenho que fazer papel de marido.
— Percebo. Você mudou muito. Diria até que está mais...
Rafael parou o carro e a encarou, aguardando o complemento que ela omitiu.
— Estou mais o quê?
— Melhor eu não dizer, vai que aquela mulher descobre que sou eu quem está saindo esta noite com você.
— Não se preocupe. Raquel não sabe de nada. E não se esqueça que fui eu quem a convidou para jantar.
— Sim, e para onde pretende me levar?
— É uma surpresa. Mas tenho certeza de que vai gostar. — Rafael sorriu enigmaticamente e voltou a dirigir com o auxílio do GPS do veículo, enquanto Letícia observava a paisagem pela janela.
Durante o trajeto, conversaram sobre assuntos diversos, relembrando histórias do passado, da época em que estudavam na mesma faculdade e lá se conheceram, começaram a namorar, mas foi só concluírem a graduação para o término do relacionamento e o inicio de vidas com rumos distintos.
— Incrível essa sua mudança, mas eu…
— Continua muito atraente e simpática — disse Rafael.
— Quer me deixar envergonhada?
— Acho que você já está.
Rafael riu das bochechas avermelhadas dela. Para um rosto pálido, é quase impossível ocultar as reações naturais do corpo.
Letícia abriu sua pequena bolsa e retirou um “blush” para amenizar a vermelhidão de seu rosto. Além disso, passou mais batom e fez um bico provocante que chamou mais atenção do que o sinal vermelho do semáforo.
Rafael percebeu que, apesar de todos esses anos, Letícia ainda o atraía como mulher e o conhecia melhor do que ninguém, conseguindo ler seus pensamentos com apenas um olhar.
Adiante, chegaram a um restaurante elegante e sofisticado, com uma vista deslumbrante para a cidade. Rafael estacionou o carro em uma vaga reservada para clientes e abriu a porta para Letícia, que desceu com um sorriso de admiração no rosto.
— Que lugar incrível! — exclamou ela, maravilhada. — Como descobriu esse restaurante?
— Foi um amigo que me indicou. Ele disse que é o melhor desta cidade.
— E ele estava certo. — Letícia olhou em volta, impressionada com a decoração requintada e o ambiente agradável. — Moro há um tempo nesta cidade e nunca vim aqui antes.
— Ótimo! Nossa primeira então.
Rafael e Letícia foram imediatamente recebidos por um atendente jovem que os conduziu a uma mesa bem posicionada, próxima à janela, onde puderam apreciar a vista da cidade iluminada à noite.
Rafael pediu um vinho para acompanhar o jantar e ambos escolheram os pratos do cardápio com cuidado, sempre consultando um ao outro.
— Acho que vou querer o filé ao molho madeira.
— Ótima escolha.
— Obrigada.
Rafael acenou para o atendente, que se aproximou com uma caneta e um bloquinho de notas em mãos.
— Por favor, anote o pedido dela e me traga o mesmo também.
— Sim, senhor. — O atendente se virou para Letícia que o deixou hipnotizado com sua beleza. — Desculpe-me, senhora, mas poderia repetir o seu pedido.
— Sim, mas tenha mais atenção desta vez.
O atendente se manteve atento para acompanhar e anotar tudo corretamente. Em seguida, levou os pedidos e voltou minutos mais tarde com os pratos culinários deliciosos. Tanto a aparência quanto o cheiro estavam dIvinos.
— Espero que o sabor faça jus a toda essa apresentação — comentou Letícia em tom crítico.
— Não lembro desse seu jeito exigente — sorriu Rafael.
— Do que está rindo dessa vez? Exigir qualidade é direito do cliente e obrigação deles.
— Sim, é verdade. Desculpa, você tem toda razão. Agora vamos comer.
— Com certeza.
Rafael retomou somente por um instante a seriedade. Sempre foi difícil se manter sério diante de um rosto muito agradável, de uma mulher tão admirável que o fez se questionar em pensamentos o motivo de não ter insistido em se casar com ela em vez de Raquel. O destino é algo realmente intrigante.
Durante a refeição, Rafael e Letícia conversaram sobre tudo o que já tinham vivido juntos, relembrando histórias engraçadas e momentos marcantes.
— Lembra quando fomos acampar naquele feriado? — perguntou Rafael, rindo.
— Claro que lembro! Foi quando você tentou cozinhar a janta na fogueira e acabou queimando tudo! — respondeu Letícia, gargalhando.
Rafael percebeu que, apesar do tempo que tinham ficado afastados, a amizade entre eles nunca se desgastou, e continuava tão forte quanto antes.
Quando o jantar chegou ao fim, Rafael sorriu misteriosamente e pediu que ela o acompanhasse até o terraço do restaurante, onde parecia ser o melhor lugar para falar sobre a proposta sugerida pelo advogado.
“O que será que ele quer me dizer?” pensou Letícia, seguindo Rafael até o terraço, onde logo chegaram e ali estavam a sós. Dali suas vozes não poderiam ser ouvidas das mesas lá embaixo.
— Uau, é lindo aqui! — exclamou ela, observando as luzes da cidade se estendendo até o horizonte. — Obrigada, Rafael, por me proporcionar esta noite maravilhosa. Faz tempo que não saio assim, principalmente porque tenho trabalhado muito no laboratório de inseminação artificial e você deve imaginar o quanto o meu tempo para o lazer é escasso.
— Sim, e que bom que mencionou o seu local de trabalho — pigarreou Rafael. — Tem algo que preciso te contar.
— É sobre aquilo que não pôde me falar por telefone? — perguntou Letícia, curiosa.
— Exatamente.
— E o que isso teria a ver com o meu local de trabalho?
— Você logo entenderá — disse Rafael, segurando as duas mãos dela e se aproximando o máximo possível.
A curta distância entre os corpos permitia sentir a respiração um do outro, os perfumes doces e a transferência de calor. Letícia fechou os olhos, imaginando que haveria algo a mais sob aquele calor crescente, que aquele fosse o momento em que ele…
— Tenha um filho meu — disse Rafael.
— O quê!? — exclamou Letícia, arregalando os olhos duas vezes mais que o normal. — O que está acontecendo aqui, Rafael?
— Eu quero que você tenha um filho meu, Letícia. Assim ele terá direito a parte da minha herança, e aquela mulher, como você chama a minha esposa Raquel, não terá direito a muito do meu dinheiro após o nosso divórcio.
— Isso é um absurdo, Rafael! — disse Letícia, recuando e libertando suas mãos. — Já pensou de fato no que está me dizendo?
— É só uma questão de negócios, Letícia. Eu e a Raquel estamos passando pelo processo divórcio e, portanto, preciso garantir que o meu dinheiro não vá todo para ela.
— Não posso acreditar que você está me pedindo algo assim. Isso é muito errado, Rafael. Agora entendo o motivo desse repentino convite para jantar contigo. Era isso que queria me dizer? — Rafael acenou que sim com a cabeça. — Só que eu não posso me envolver nisso — disse ela em tom emotivo.
O pedido dele a deixou à flor da pele, com a indignação e a decepção crescendo a cada instante.
— Entendo que possa parecer estranho, Letícia, mas precisamos pensar racionalmente. — Rafael tentou argumentar.
— Como se pode falar em pensar racionalmente em uma situação dessas? Você está pedindo para eu ter um filho seu simplesmente para que ele possa herdar parte da sua fortuna e a sua esposa não fique com tudo? Isso é muito egoísta e errado, Rafael! — Letícia retrucou em tom elevado.
— Não é só por isso, Letícia. Sei que você sempre quis ser mãe e acredito que poderia ser uma ótima mãe para o meu filho. Além disso, nossa amizade é forte e acredito que poderíamos lidar com essa situação juntos. Isso seria apenas um negócio entre amigos. Não precisaríamos ter um relacionamento amoroso como no passado. A questão atual se trata apenas de uma barriga de aluguel. — Rafael tentou argumentar novamente.
— Não, Rafael, eu não posso concordar com isso. Não é assim que as coisas funcionam. Essa é uma ideia maluca e imoral. Você precisa encontrar outra solução para os seus problemas, mas eu não vou me envolver nisso — respondeu Letícia, firme em sua decisão.
— Tudo bem, eu entendo. Desculpe por ter te feito essa proposta estranha, principalmente assim, de repente — disse ele em tom irritado pela recusa dela. — Agora você sabe que estou passando por um momento difícil, e eu não sabia o que fazer até o meu advogado me sugerir esse plano.
— Por sinal, um plano muito sem noção — disse ela, seriamente, baixando o tom de voz. — Se eu fosse você, não ouviria mais esse seu advogado.
Rafael baixou a cabeça, desapontado pelo não ao plano arriscado e ao mesmo tempo sentindo a consciência pesar ainda mais com a dura verdade ressaltada por Letícia. Não era isso que queria ouvir. Naquele instante ele se sentiu vencido mais uma vez por sua esposa, embora ela não estivesse presente.
— Se precisar de mim para outra coisa que não seja maluca e imoral, pode contar comigo.
— Sim, Leticia — disse Rafael, elevando a cabeça com os olhos melancólicos. — Apesar de tudo, obrigado por ter me ouvido.
— Sempre estarei aqui para te ouvir, Rafael, mesmo que seja coisas absurdas como essa. Embora eu não me importasse em fazer aquela mulher se divorciar de você sem receber quase nada de seus patrimônios, trazer uma criança a este mundo por esse motivo é uma atitude muito egoísta. Pense melhor sobre isso e principalmente nas consequências que traria a essa criança. — Leticia se virou na direção da saída, ainda meio abalada com a proposta de Rafael. — Acho que é melhor voltarmos agora. Já está tarde e amanhã tenho de estar cedo no laboratório.
Rafael concordou e deu os primeiros passos rumo à porta, e ela o seguiu. Ambos em silêncio. Letícia não conseguia tirar da cabeça o pedido inapropriado dele, enquanto ele se perguntava em pensamentos se havia outra forma de convencê-la, ou se teria de abandonar de vez o plano sugerido por seu advogado.
Existe mesmo outra solução? Rafael só conseguia pensar na proposta de Vicente. Seu advogado era um dos melhores e sempre soube exatamente o que fazer. Nunca foi de errar e sempre orientava bem os seus clientes. Nunca perdeu uma causa, e isso dava ao plano sugerido ainda mais credibilidade.
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Comments
Maria Francisca
vãi sobra para a Maria Antônia
2023-06-16
0
HENEMANN- MEDEIROS. Henemann
escreve mais capítulos por favor 😭
2023-05-20
2