Tomando seu café amargo, enquanto aguardava o horário exato para atender o primeiro candidato a uma das dez vagas de emprego ofertadas, Rafael se lembrou de sua antiga amiga da faculdade, chamada Letícia.
— Será que ela ainda se lembra de mim? — indagou-se enquanto digitava o número que ainda se lembrava de cabeça. — Espero que não tenha mudado de número.
— Alô, quem é?
— Letícia, sou eu, Rafael.
— Rafael… Ah sim. Nossa! Faz tanto tempo que não nos falamos. Quando foi mesmo a última vez que nos vimos?
— Não liguei para recordamos o passado. — Rafael passou a mão pelo rosto como se quisesse limpar cenas ruins de sua memória.
— Ah lembrei! — disse ela. — A última vez que nos falamos foi no dia da minha formatura. Você bebeu tanto que perdeu a cabeça devido ao álcool e, principalmente, ao ciúme.
— Isso é passado, Leticia.
— Rafael, a gente podia estar casado hoje se não fosse aquele seu ciúme tolo.
— Sim, eu entendo. Mas antes não podia entender. Você sabe? A juventude tem lá seus problemas e um deles é nos deixar muitas vezes ser levado pelas emoções. Por favor, vamos esquecer aquele dia.
— Está bem — disse ela suavizando o tom de voz —, mas então por que me telefonou?
— Quero te convidar para jantar comigo esta noite.
— Rafael, eu não moro mais na mesma cidade. Depois que me formei em biologia, eu me mudei para a cidade vizinha, onde até então estou trabalhando em um laboratório de fertilização em vidro.
— Sim, eu sei disso.
— Como!?
— Calma, não fique assustada e não pense que estou te espionando ou algo do tipo.
— Conhecendo você, não duvidaria disso.
— Letícia, é públicado em todos os jornais semanalmente os resultados apresentados pelo local de seu trabalho. Vocês são responsáveis pela felicidade de muitos casais, e isso atrai ainda mais clientes e a atenção da mídia. Li seu nome no jornal desta semana e não tive dúvidas de que era você, a minha antiga e linda namorada. Tivemos momentos incríveis juntos, lembra?
— Rafael, você agora é um homem casado.
— Por pouco tempo, Letícia, por pouco tempo.
— Como assim?
— Aceite jantar comigo esta noite e eu te contarei tudo.
— Mas eu já disse que não estou na cidade.
— Não se preocupe, vou hoje mesmo até a sua cidade. Não é muito longe. As cidades são vizinhas e leva em média uma hora de viagem.
— E a sua esposa, Rafael? Não estou gostando dessa ideia.
— É exatamente por ela que desejo conversar contigo, Letícia. Você é uma mulher honesta, confiável e que sempre esteve ao meu lado enquanto éramos namorados.
— E poderia ter continuado do seu lado se você não tivesse me trocado por ela. Não sei o que viu em Raquel que não viu em mim.
— É, Letícia, também não sei. Talvez eu estivesse cego pela paixão. Mas mesmo quando a química passou, ainda a amei de todo o meu coração porque estávamos casados e eu já havia traçado muito planos para nós, incluindo um filho, só que isso já não será mais possível. Ao menos não com ela.
— Aconteceu algo de grave entre vocês dois?
— Sim, mas não quero falar sobre isso por telefone.
— Está bem, Rafael. Aceito o seu convite para jantamos hoje à noite. Mais tarde, te passo o meu novo endereço por mensagem de texto e o horário que pode vir me pegar.
— Combinado, Letícia.
— Beijos, Rafael.
Após encerrada a ligação, Suzana abriu a porta sem bater. Estava muito mal acostumada quanto ao modo de se portar na empresa. Por sorte, ela não ouviu nada.
— O que quer desta vez, Suzana?
— Não precisa falar tão sério comigo.
— E você poderia ter batido na porta e pedido permissão antes de entrar na minha sala.
— Esta não é a sua sala.
— Com certeza é — sorriu Rafael. — Assim como toda esta empresa que os meus pais deixaram para mim. Então, qualquer sala daqui é minha sala, entendeu bem?
— Rum! — fez Suzana, fechando a cara.
— Diga logo o que quer? Não sabe que tenho que atender aos candidatos às vagas de emprego agora.
— Vim justamente aqui para comunicar que já estão aguardando com impaciência o início. Marcamos o início para vinte minutos atrás.
— Sim, tenho ciência disso, só que eu estava no telefone, por isso não pude começar no horário. — Rafael acomodou as costas na confortável cadeira e cruzou as pernas. — Mas agora já podemos iniciar. Então, vá dizer para a candidata que chegou duas horas mais cedo para ela entrar.
— Essa aí ainda não voltou.
— Mas ela não disse que voltaria no horário? — estranhou Rafael.
— Talvez tenha desistido. É provável que tenha pensado melhor antes de pegar um desses cargos que pagam um pequeno salário.
— Já disse que estamos oferecendo um valor justo para o trabalho que eles terão que executar. Está tudo conforme as leis trabalhistas. E se não aparecer quem deseje essas vagas, a culpa é sua e do setor de divulgação por não fazerem o anúncio de forma adequada nos jornais. Agora vá logo pedir que o próximo candidato por ordem de chegada entre aqui para que eu possa entrevistá-lo.
— Sim, Rafael, digo, senhor Rafael — corrigiu-se Suzana em tom de deboche.
Para sua sorte, seu patrão não deu tanta atenção a suas palavras. Rafael sentia seus pensamentos inquietos.
Enquanto atendia aos primeiros candidatos, ele pensava em como discutiria o plano de seu advogado com a Letícia.
As horas foram passando. Haviam candidatos e candidatas excelentes para as vagas. Rafael ficou surpreso pela aparição de tantos interessados. Antes mesmo do meio-dia todas as vagas foram preenchidas.
Assim que a última candidata entrevistada deixou a sala de entrevistas, Rafael encostou suas costas novamente na cadeira e pôs uma mão sobre o queixo, pensativo no que dissera Suzana.
Bastou pensar em sua secretária para que ela aparecesse ali novamente. Mas dessa vez Suzana bateu na porta e recebeu autorização para entrar.
Ela já estava aprendendo a como se comportar direito nos domínios da empresa, ou fingindo muito bem.
— Aquela foi a última candidata que aguardava para ser entrevistada, senhor Rafael.
— Sim, Suzana, ela me disse. Perguntei-lhe se havia mais alguém esperando e é estranho que a interessada que chegou duas horas antes do horário não tenha aparecido.
— É como eu disse. Talvez tenha desistido, ou encontrado coisa melhor.
— Se veio aqui para opinar sobre as decisões da empresa, melhor que se retire.
— Nossa, como você está sensível hoje. Até parece que andou brigando com a sua esposa.
— Sim, nós já discutimos muito, e isso não é do seu interesse.
— Como não? O meu trabalho depende da boa harmonia entre você dois.
— Não existe mais harmonia entre nós há dias e provavelmente nunca mais haverá.
Suzana se sentou e pôs os papéis que segurava na mesa de Rafael. Tratava-se dos currículos dos candidatos que não compareceram à entrevista de emprego.
— Então, trate de recuperar a harmonia. Não seria bom para os negócios da empresa que houvesse uma divisão de bens neste momento em que estamos em ascensão.
— Tarde demais, Suzana. E você deve saber exatamente o motivo do meu pedido de divórcio.
— Não, eu não sei — disse Suzana em tom sincero. Seus gestos e expressões não demonstravam mentira ou omissão. — Dessa vez, sua esposa ainda não me contou nada sobre o que está acontecendo, além desse seu pedido.
— Por que não faz uma visita hoje à noite. Talvez ela te conte a verdade.
— Que verdade?
— Não sei. — Rafael abriu os braços. — É isso que quero descobrir também.
— Mas se não há motivos claros, por que deseja se divorciar dela?
— Suzana, existe um momento na vida de um casal que a melhor escolha é a separação, para o bem dos dois e dos demais envolvidos.
Suzana coçou a cabeça em dúvida. Não compreendeu com exatidão as palavras de seu chefe. Ela desviou o olhar para os papéis, retomando a fala.
— O que faço com estes currículos?
— Deixe-os aqui mesmo, na minha mesa. Vou dar uma olhada e depois jogo no lixo se não houver nada de proveitoso.
— Como quiser.
Suzana se levantou da cadeira e saiu sem dizer mais nada, enquanto Rafael permaneceu, folheando os currículos entre os quais havia os currículos de dois homens e de cinco mulheres.
— São muitas — murmurou Rafael, pensando na mulher que gostaria de ter atendido por ter chegado muito cedo. Era ótimo para a empresa ter funcionários responsáveis e pontuais. — Qual será o currículo dela? Seria esta margarida? Ou essa Juliana? Micaela? Paula? Não sei…
O currículo da quinta mulher era o mais simples. Não tinha quase nada de informações. O mínimo do mínimo. Sobretudo, falta de experiência profissional e somente o ensino básico completo.
— Maria Antônia… Que sorte a minha, esta não veio aqui — pensou Rafael no constrangimento que ela mesma evitou ao faltar. — Não existiria a mínima possibilidade de eu a contratar. Mesmo que seja uma boa moça, seu currículo é péssimo!
Esse foi o único currículo que Rafael amassou e o atirou na pequena lata de lixo no canto da sala. E os demais guardou na primeira gaveta de sua mesa.
De repente, seu aparelho celular vibrou, notificando o horário do almoço.
Tal como disse a sua empregada Sônia, almoçaria fora em um restaurante próximo à empresa, e a noite seguiria para a cidade vizinha, onde se encontraria com a Letícia.
— Hoje não volto para casa — murmurou Rafael consigo mesmo, no interior de seu carro prateado. — Espero que Suzana apareça por lá hoje à noite, assim Raquel não vai ficar me perturbando com as suas ligações insistentes. Ela nunca se preocupou comigo e não é agora que isso vai mudar.
Rafael ligou o carro e, pisando fundo no acelerador, dirigiu até a saída do estacionamento, onde quase atropelou uma mulher que surgiu de repente.
A estranha parou diante do veículo e, mesmo ouvindo a buzina, não saiu do meio.
— Saia da frente, mulher — pediu Rafael, parando o carro a tempo de não atingi-la. — O que pensa que está fazendo? — Não obtendo resposta, Rafael percebeu algo estranho nela através do para-brisa de seu veículo. — Agora mais essa — resmungou consigo mesmo, saindo do carro. — Quem é… — Rafael não conseguiu completar sua fala devido à surpresa de vê-la em lágrimas. — Você está chorando? Por que chora?
— Eu perdi o emprego — respondeu ela, enxugando as próprias lágrimas que não cessavam. Seu nervosismo era tanto que não conseguia pensar noutra coisa a não ser na oportunidade perdida. — Perdi o emprego, senhor. Não pude voltar a tempo.
— Olha, moça, acalme-se. Acredito que surgirão outras oportunidades para você trabalhar — disse Rafael, notando a pequena beleza que havia na aparência dela. Seus cabelos ruivos e olhos esverdeados em lágrimas o deixaram comovido. — Eu queria poder te ajudar, mas as dez vagas que a minha empresa anunciou no jornal já foram preenchidas.
— Oh não, meu Deus! — exclamou ela, caindo em profunda lamentação. — Essa era a minha única chance.
— Não se lamente tanto. Já lhe disse que aparecerão outras oportunidades.
— Mas eu não tenho tempo para esperá-las!
Rafael sentiu a dor que aqueles olhos molhados e brilhantes transmitiam do fundo de um coração angustiado e preocupado.
Ele tocou os ombros dela, e ambos se entreolharam.
— Diga-me, moça, qual é o seu nome?
Ela estranhou a repentina pergunta do homem bem vestido e elegante que estava a sua frente. Porém, com voz de choro e pausada, esforçou-se para responder com firmeza na voz:
— Eu me chamo Maria Antônia.
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Comments
Vilma Elias
Tomara que ele dê uma vaga pra ela, tadinha
2023-08-09
1
RO
muito bom
2023-05-12
2