15

Após uma manhã improdutiva de trabalho, Rafael estava parado no sinal vermelho, perdido novamente em suas lembranças do flagra da traição de sua esposa quando, de repente, o sinal abriu e ele acelerou.

Por pouco, não atropelou a mulher que fazia malabarismo do outro lado. Ela tentou atravessar a rodovia, mas o sinal abriu antes do esperado e acabou caindo diante do carro prateado de Rafael.

— Droga! Você está bem? — perguntou ele ao sair do carro às pressas para ajudá-la.

— Sim, estou bem, obrigada — respondeu ela, levantando-se com um sorriso sem graça. Assim que percebeu que era o entrevistador que amassou o seu currículo, sentiu-se ainda mais desconfortável.

Por isso, ela se manteve com o olhar baixo, voltado para a sua bolsa de alça única na qual carregava suas antigas e novas bolas de malabarismo.

Rafael tentou se lembrar de onde a conhecia. Enquanto isso, os carros atrás do veículo dele começaram a buzinar impacientes.

Ele se abaixou para ajudá-la a coletar mais rápido as bolas de malabarismo do chão e as colocar de volta na bolsa, enquanto verificava se realmente estava tudo bem com ela, cujo nome estava vindo aos poucos à mente.

— Não se machucou? — indagou Rafael, enfim, reconhecendo-a claramente.

— Não, foi apenas um susto — disse ela.

— Tem certeza que está tudo bem, Maria Antônia?

— Lembra o meu nome!? — seus olhos se abriram de surpresa. — Pensei que eu não fosse nada para o senhor depois daquilo.

Os carros atrás começaram a buzinar, reclamando do bloqueio diante do sinal verde do semáforo. Embora houvesse passado apenas um dia desde que se viram, ela estava um pouco diferente. Talvez porque voltou a usar suas velhas roupas, enquanto o vestido estava bem guardado para uma outra ocasião excepcional.

— Lamento pelo que aconteceu ontem na minha empresa — disse Rafael em tom de arrependimento. — Mas por sorte, encontrei você.

— E quase me atropelou de novo, agora que eu estava para voltar a minha casa.

— Sinto muito por isso também. Reconheço que preciso ficar mais atento na direção, só que nesses últimos dias tem sido difícil. Por favor, aceite conversar comigo novamente — pediu Rafael, estendendo sua mão.

Maria Antônia pensou pouco nas opções, pois teve seus pensamentos interrompidos pelo incômodo do barulho dos carros. Os sons estavam a cada instante mais altos e irritantes.

No fim, ela só cedeu ao pedido de Rafael porque também desejava dizer algumas coisas a ele. Palavras das quais combinou com a sua melhor amiga Francisca que diria a ele quando retornasse àquela empresa. Mas olha só como age o destino, ali estava ele, bem diante dos seus olhos.

— Entre no meu carro. — Ela segurou a mão de Rafael, que a guiou até a porta ao lado do banco do copiloto. — Vamos conversar em um local mais apropriado, e depois te levarei para a sua casa.

— Não precisa, eu moro aqui perto. — Ela libertou sua mão e apontou a direção contrária da rodovia. — Vamos apenas conversar e depois vou embora sozinha.

— Eu insisto, pelo menos uma carona até a sua casa — persistiu Rafael, demonstrando não aceitar outra resposta além do sim. — É o mínimo que posso fazer depois de quase atropelá-la.

— Está bem, uma carona até em casa. Mas apenas isso depois da nossa conversa, tudo bem? — concordou ela, cedendo ao pedido dele.

— Claro, eu entendo. Vamos logo antes que essas buzinas me deixem louco. — Rafael abriu a porta do carro para ela.

— Obrigada.

Rafael deu a volta com passos rápidos até a direção de seu veículo. Após buzinar contra as buzinas dos carros atrás, ele pós o seu em movimento.

— Coloque o cinto de segurança, por favor.

Ela não tinha muita habilidade com essas coisas, mas conseguiu pôr o cinto sem problemas porque viu atentamente como Rafael colocou o dele.

Durante o trajeto até o ponto de um estacionamento tranquilo próximo a uma pequena praça ornamentada com flores, os dois conservaram um silêncio constrangedor.

— Vou estacionar aqui — disse Rafael, finalmente rompendo o silêncio desconfortável. — Podemos conversar no carro, mas se quiser podemos ir até aquela cafeteria. O que prefere?

— Aqui mesmo está bom — respondeu ela, de imediato. — Não gosto de entrar nos estabelecimentos daqui.

— Posso saber o motivo?

— Bem, é óbvio que se eu entrar da forma como estou vestida, as pessoas ficarão me olhando, e isso me incomoda um pouco. Se não me visto bem, como aquelas pessoas, é pelo fato de termos condições financeiras muito diferentes.

— Sinto muito que tenha que passar por situações assim. Entendo que há pessoas que desprezam o outro por questões como essa.

— E não são poucas.

— Infelizmente você tem razão. Mas saiba que esse não é o tipo de perfil que compõe a minha personalidade. Isso posso te garantir. Não me importa como esteja vestida, desde que apresente bons valores. Por isso, reconheço que cometi um erro com você e gostaria de corrigi-lo da melhor forma possível.

— Onde quer chegar me dizendo isso?

Os dois se entreolharam, e ele sorriu como prenúncio da proposta que a deixaria surpresa.

— Quero te oferecer uma vaga de emprego na minha empresa.

— O que!? Mas as vagas não tinham sido preenchidas?

— Sim. Só que conversando mais cedo por telefone com o gerente do setor de finanças da minha empresa, chegamos a conclusão que seria possível contratar mais uma pessoa.

— Não posso acreditar — disse ela, desviando o olhar para o para-brisa no qual um inseto verde posou, de repente.

— Sim, é verdade o que digo. Quero que você vá trabalhar na minha empresa. Lembro que sua mãe está no hospital e que ela precisa passar por um tratamento muito caro, não foi isso que me disse? Então, essa é a oportunidade que vai te ajudar a custear esse tratamento.

— É realmente uma bênção de Deus — disse ela em tom baixo, agradecendo aos céus. — Fico feliz por essa oportunidade, mas infelizmente eu não posso aceitar.

Rafael se virou de lado e inclinou um pouco para trás, surpreso com a resposta dela.

— Vai mesmo recusar a minha oferta, principalmente agora que está precisando de um emprego?

— Olha, não é o que está pensando. Não estou recusando a sua oferta. Agradeço por isso, mas eu não vou conseguir trabalhar na sua empresa sabendo que o meu currículo foi reprovado. Eu preciso primeiro melhorá-lo. Tenho que voltar a estudar o mais rápido possível.

— Mais um motivo para aceitar a minha oferta. Além de ajudar a sua mãe, você poderá custear os seus estudos em um contraturno.

— Mesmo assim, o meu currículo ainda…

— Esqueça o seu currículo por enquanto. Formação profissional é importante, mas valores também são. Desde que contratei a melhor amiga da minha esposa para ser a minha secretária, só tenho tido mais trabalho, mesmo ela sendo uma mulher de ampla formação acadêmica. Então, pensei que talvez, se aceitar, você possa se tornar a minha segunda secretária. Eu gostaria que você fosse a minha única secretária, mas pensei bem sobre o caso da Suzana e decidi não demiti-la por enquanto. Ela é a melhor amiga da minha esposa, que não vai me deixar dormir ou ler o meu jornal em paz se eu demiti-la. Por isso, manterei duas secretárias para me ajudar com o trabalho diário da empresa, se você aceitar.

Maria Antônia se sentiu abençoada por Deus. A vaga de emprego estava em suas mãos. Restava dizer uma única palavra. Mas ela ainda não se sentia digna de aceitá-la depois do que ocorreu.

Sua mente estava confusa e, mesmo que tivesse conhecimento de si mesma, de suas potencialidades, ela não conseguia tomar uma decisão definitiva.

— Ainda não sei qual resposta devo dar — suspirou Maria Antônia, sentindo a indecisão doer sua mente. — Isso foi tão de repente e inesperado. Sim, eu decidi com a minha amiga que voltaria a sua empresa para esclarecer aquela situação, mas aqui está o senhor me pedindo desculpas pelo quê ocorreu e ainda me oferecendo uma vaga de emprego como uma de suas secretárias.

— Entendo que são muitas informações recebidas de uma só vez para processar. Por isso, só peço que por enquanto não pense em recusar definitivamente essa vaga de emprego — disse Rafael, tocando a mão dela. — Darei o tempo que desejar para me retomar alguma resposta.  Ele abriu o porta-luvas do qual retirou um de seus cartãozinho de apresentação. — Telefone para mim quando estiver decidida. Aguardarei a sua ligação, e espero que seja o quanto antes, pois estou precisando muito de alguém competente e pontual como você, que possa me auxiliar com todo o trabalho que tenho como diretor executivo. Nunca pensei que o cargo de chefe fosse ser tão difícil até chegar a minha vez de assumi-lo no lugar do meu falecido pai — sorriu Rafael, conseguindo dos lábios dela o esboço de um leve sorriso.

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Comments

Elisa Lando

Elisa Lando

Bela história e tão real!

2024-07-23

0

RO

RO

muito bom
ansiosa por mais capítulos

2023-05-25

1

Ver todos

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