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Maria Antônia se admirava com uma expressão boba no rosto diante do espelho pendurado na sala de sua casa. A mãe, sentada à mesa, via na filha a alegria elevada pela tarde no salão de beleza.

Graças a vendedora de roupas, os cinquenta reais foram investidos em um salão de beleza e, embora fosse o mais barato da cidade, todo o dinheiro foi gasto lá, mas por uma boa causa.

Agora Maria Antônia se sentia pronta para a manhã seguinte.

Ela enviou seu currículo um dia antes e foi chamada para participar das entrevistas de emprego. Esse parecia ser um bom sinal.

De repente, alguém bateu à porta. A idosa foi atender, pois não queria interromper o penteado da filha. Era Francisca, amiga de infância de sua filha, com um sorriso largo no rosto e vestida com um lindo vestido solto.

Francisca usava um óculos grande e arredondado no rosto e tinha um bonito cabelo espesso com fios encaracolados.

— Boa noite, senhora! A Antônia está?

— Sim, filha — respondeu a idosa. — Entre, sua amiga está se penteando.

— Quem é, mamãe?

— Sou eu — disse Francisca.

A jovem mulher adentrou a casa, admirando a beleza da amiga. Ela carregava consigo uma enorme admiração por Maria Antônia, cujos longos cabelos ruivos nunca estiveram mais lisos e bem cuidados. Parecia uma sereia fora d'água aos olhos da amiga.

— Francisca, o que houve?!

— Nada, sua boba. — Francisca se sentou à mesa, sorrindo para a expressão assustada de sua amiga. — Não posso vir à noite à sua casa?

— Sim — respondeu Maria Antônia, ainda surpresa com a presença da amiga. — Mas não é seguro sair à noite.

— Esqueceu que somos vizinhas?

— Não tenha vergonha, minha filha — disse a idosa, interrompendo a conversa das duas. — Vou preparar um café, aceitam?

— Sim, senhora, por favor!

— Não, mãe, obrigada!

A idosa se afastou um pouco das duas. A sala era pequena e compartilhada com a cozinha. Tudo o que falavam a idosa ouvia e vice-versa.

Maria Antônia pensou que a amiga tivesse descoberto sua ida ao salão de beleza e, por ser muito curiosa, queria ver com seus próprios olhos o resultado. Como estaria uma artista de rua que há tempos não cuidava da própria aparência após uma tarde de cuidados com os cabelos, o rosto e as unhas?

— Suas unhas estão lindas. Nunca vi um esmalte assim antes na minha vida, e elas até parecem maiores que o normal.

— São unhas postiças.

— Nossa! Devem ter custado muito.

— Custou um pouco — suspirou Maria Antônia, pensando no dinheiro gasto. Em seus pensamentos ainda havia o questionamento sobre a ida ao salão de beleza. Se realmente foi a melhor escolha. Entraram com cinquenta reais e saíram sem dinheiro algum. — Gastamos muito por lá.

— Mas era preciso — disse Francisca, percebendo a alegria de sua amiga cair de nível. — Sei que amanhã você tem uma entrevista de emprego importante, e agora está muito melhor para ir. Não que antes não estivesse, mas você sabe que essa gente dá muito valor a aparência.

— Tem razão — concordou Maria Antônia.

— O café está pronto — anunciou a idosa, pondo a garrafa de café e duas xícaras na mesa.

— Obrigada, senhora. Não sabe como eu amo café — disse Francisca, enchendo uma xícara.

— Sim, imagino — sorriu a idosa. — Espero que perdoe por só termos o café.

—O que está dizendo?

— Faz semanas que o leite acabou e não tivemos condições para comprar.

— Não diga mais nada, senhora. Nem mesmo em casa consumimos café com leite porque sabemos o quanto é caro e que no final das contas nem é preciso. Se não fizéssemos isso, não teríamos condição de pagar a mensalidade do telefone fixo de nossa casa.

— Entendo, filha — suspirou a idosa, olhando para Francisca com um olhar de gratidão. — Agradeço aos seus pais por nos deixar usar o telefone de sua casa. Se não fosse por ele, minha filha não saberia que foi uma das selecionadas para a entrevista de emprego amanhã.

— Não precisa agradecer por isso.

— Claro que sim — disse Maria Antônia, atraindo a atenção da amiga. — A minha mãe está certa. Estamos em dívida com a sua família, Francisca.

— Antônia, vocês duas não nos devem nada e sabem muito bem disso.

— Mesmo assim, minha filha. Espero que Deus um dia possa recompensá-los pelo que fazem por nós — disse a idosa.

— E quando eu estiver ganhando mais do que trocados, agradecerei sua família de alguma forma. Sei que sua mãe ama bordados.

— Ih! Já pode parar — disse Francisca em tom sério, baixando a xícara. — Não quero vê-las gastando dinheiro com presentes para nós. Estamos todos no mesmo barco e ninguém aqui precisa dar nada a ninguém.

Maria Antônia e a mãe se entreolharam sob o olhar sério de Francisca. As duas sorriram entre si. Francisca nunca esteve tão séria por tanto tempo. Tanto que logo sorriu também quando sua amiga quase a fez derramar o café da xícara com um repentino abraço.

— Muito obrigada, Francisca.

— Ah Antônia, somos melhores amigas desde a infância e, portanto, devemos nos ajudar uma à outra. E é só isso o que faço. — Francisca deu os últimos goles de seu café. — É melhor eu voltar para casa, antes que a minha mãe apareça por aqui. Sabem como ela é, ainda não sabe que já sou adulta.

Maria Antônia e a mãe se despediram dela. A lua já se encontrava na sua posição mais elevada no céu e seu brilho anunciava que era quase meia-noite.

— Agora você precisa dormir, minha filha — ressaltou a idosa. — Amanhã terá de acordar bem cedo. Não é recomendável chegar no horário exato, mas sim, horas antes, se possível.

— Sim, mamãe, a senhora tem toda a razão.

Maria Antônia se deitou na cama próximo a de sua mãe. Eram duas camas que rangiam e cuja madeira e colchão necessitavam de troca. Mas era o que tinham e disso, as duas sempre agradeciam a Deus por pelo menos ter isso, além de um teto sobre suas cabeças e forças para continuar lutando por dias melhores.

— Boa noite, mamãe!

— Boa noite, filha! — respondeu a idosa, soltando uma tosse seca ao final.

Maria Antônia se virou de lado e caiu em um sono que não durou muito. Ela acordou no meio da madrugada ao ouvir sua mãe tossindo incessantemente. Era uma situação que se agravava ainda mais com o passar dos dias.

— Mamãe?

— Durma, minha filha — pedia a idosa, tentando cessar as tosses. — Não quero que chegue cansada lá.

María Antônia sabia que a asma de sua mãe estava piorando e precisava de cuidados médicos imediatos. A idosa não conseguia parar de tossir. A situação chegou ao limite, e isso deixou a filha desesperada.

— Mamãe, não saia de sua cama.

— Aonde vai, minha filha?

— Eu volto logo.

Maria Antônia correu para a casa de sua melhor amiga Francisca para ligar para uma ambulância. Em seguida, retornou para sua casa na companhia da melhor amiga e da mãe dela.

Enquanto esperavam sob os sons das incessantes tosses da idosa, a mãe de Francisca preparou uma xícara de chá para acalmar os nervos de Maria Antônia.

A idosa não conseguia ingerir nada devido às tosses. Por sorte, a ambulância chegou muito rápido. O veículo estava por perto, atendendo outra ocorrência.

A mãe de Maria Antônia foi levada para o hospital, na companhia da mãe de Francisca.

— Por que não posso ir com a minha mãe para o hospital?

— Já se esqueceu que tem uma entrevista de emprego importante daqui algumas horas?

Francisca a segurou até que a ambulância estava distante. Se não fosse por isso, Maria Antônia teria acompanhado sua mãe. Mas ela não estava só, e isso também contribuiu para que aceitasse as palavras de sua amiga.

— Não se preocupe, Antônia — disse Francisca, acalmando a amiga com um abraço carinhoso. — Após a sua entrevista, você poderá visitar a sua mãe. Além do mais, tenho fé que ela ficará bem.

— Obrigada, Francisca.

— A minha mãe está com ela e nos deixará avisada de tudo por telefone.

Maria Antônia elevou os olhos para o alto. Ainda dava para dormir um pouco mais. O céu continuava negro e no horizonte ainda não se via sinal do amanhecer.

— Posso passar o restante da noite em sua casa?

— Claro, Antônia!

— Assim poderei ficar mais perto do telefone caso sua mãe ligue.

— Ah, isso não — discordou Francisca. — Você vai para a minha casa para dormir um pouco mais. Se a minha mãe telefonar, prometo que te acordo. E se precisarem de algum dinheiro para os remédios, meus pais com certeza vão ajudar.

— Dinheiro não, Francisca. Sabe que não gostamos de incomodá-los com isso.

— Mas se for preciso sim, os meus pais vão emprestar o quanto pudermos. Agora, querida amiga, é melhor irmos logo para minha casa, pois quero que durma bem, para que chegue com muita energia e disposição em sua entrevista de emprego.

Maria Antônia sentiu seu peito se encher de esperança e seus olhos transbordarem de gratidão.

— Não sei o que seria de mim e da minha mãe sem você e a sua família.

— Antônia, não precisa falar assim. O importante para mim é ver você e a sua mãe bem. Além do mais, você está se esforçando para conseguir um emprego naquela grande empresa do centro e eu tenho certeza que conseguirá.

— Obrigada, Francisca. Você sempre me apoiou e sou muito grata por tê-la como a minha amiga.

— Estou aqui para o que precisar, Antônia. Sempre vou estar.

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Comments

RO

RO

muito bom

2023-05-15

2

Ver todos

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