Ela chegou à noite em casa, após um dia inteiro de muito trabalho.
Seu corpo estava demasiadamente exausto. Havia passado o dia todo em pé fazendo malabarismo diante dos automóveis que paravam no sinal vermelho dos semáforos.
Contudo, em seu rosto ainda permanecia vibrante um sorriso agradável que resplandecia o brilho da lamparina sobre a mesa da sala.
— Minha filha, por que demorou tanto para chegar? — indagou a mãe, recebendo-a à porta da simples casa de três cômodos, paredes de blocos de barro e teto de madeira velha. — Sabe que não é seguro ficar naquela rodovia até essa hora.
— Desculpe, mamãe — disse ela, pondo a nota de cinquenta reais que ganhou e as bolas de malabarismo na mesa da sala usada para realizar todas as refeições.
A casa era muito pequena. Além da sala compartilhada com a cozinha, só havia mais um quarto e um banheiro sem descarga. O jeito era usar um balde de água sempre que usavam a privada.
— Eu sei, mamãe, só que isso é preciso para manter a nossa subsistência — ressaltou ela, puxando o jornal do bolso de suas calças largas e esfarrapadas enquanto coçava seus cabelos ruivos, que, soltos, eram longos e cobriam totalmente suas costas dolorida pelo excesso de trabalho. — Como vivemos somente nós duas e a senhora não pode trabalhar devido a sua saúde, é obrigação minha cuidar para que não nos falte o necessário.
— Ah Maria Antônia, não sabe como eu queria voltar a trabalhar, assim você poderia voltar a estudar, minha filha.
— Não, mamãe! Dependendo de mim, a senhora nunca mais vai precisar trabalhar.
— Mas, filha…
— A senhora precisa cuidar de sua saúde.
— Como, Maria Antônia!? Mal temos dinheiro para comprar comida. Os remédios estão cada dia mais caros e o preço das consultas é um roubo.
— Mesmo assim, nós vamos dar um jeito. — Maria Antônia abraçou sua mãe, que avistou a nota de cinqüenta reais sobre a mesa. — Prometo, minha mãe, que vamos superar as nossas dificuldades com a ajuda de Deus.
— Sim, minha querida, que Ele te ouça e te ilumine para que consiga realizar seus desejos.
Em seguida, Maria Antônia se sentou na cadeira ao lado da janela aberta sob a luz do lindo luar que invadia a sala. Ela abriu o jornal com cuidado, sentindo a textura áspera do papel velho em suas mãos, pois gostava muito de ler e de se manter bem informada sobre o que acontecia no mundo, mesmo que fossem notícias tristes ou preocupantes.
Paralelo a isso, sua mãe apanhou o dinheiro da mesa e, com a mente confusa, questionou a origem daquela nota de cinquenta reais. Havia um bom tempo que não pegavam em um dinheiro de valor tão alto.
— O que significa isto?
— Ah sim, mamãe, ganhei esse dinheiro de um homem bondoso hoje pela manhã na rodovia. Pedi somente alguns trocados, e parece inacreditável, mas ele me deu isso!
— Mas, minha filha, isto é muito dinheiro!
— Sim, mamãe, eu quis recusar, mas ele insistiu. Não pude evitar, pois como tinha pressa, não consegui devolver a ele.
— Devolver!? Como assim? Se ele te deu este dinheiro, não deve fazer desfeita. Agora é seu.
Maria Antônia ficou pensativa quanto às últimas palavras de sua mãe. Sabia que se não tivesse implorado ao dono do carro prateado, não teria ganho nada. Isso ainda a deixava com muitas dúvidas sobre o porquê recebeu um valor tão alto.
Será que ele não teria somente alguns trocados? E se um dia precisasse daquele dinheiro? Fez certo em ter aceitado?
Maria Antônia balançou a cabeça e se levantou da cadeira, afastando os pensamentos confusos e atordoantes, concluindo consigo mesma que a generosidade do bom homem só podia ter sido providência de Deus.
— Não, mamãe, esse dinheiro é nosso — disse ela, mudando a página do jornal para os anúncios em destaque. — Agora podemos comprar o que está nos faltando.
— Sim, minha filha.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de sua mãe, mas não viu a emoção dela transbordar porque focou tanto no anúncio que chamou sua atenção: uma empresa estava contratando pessoas para trabalhar em cargos pequenos, mas com ótimos salários.
O interesse de Maria Antônia foi despertado. Mesmo que fosse para trabalhar na limpeza de banheiros, ganharia muito mais que se arriscar nas rodovias fazendo apresentações de malabarismo.
Ela pouco refletiu sobre os prós e contras, apenas se alegrou e chamou a atenção da mãe para a boa notícia. Dentre todas as noites que lia o jornal do dia, aquela foi a primeira em que sentiu a esperança pulsar em seu peito.
— Olha, mamãe! — Maria Antônia mostrou a boa notícia do jornal. — Daqui alguns dias haverá uma entrevista de emprego numa das maiores empresas do centro desta cidade.
— É mesmo!? — Sua mãe elevou as mãos unidas ao alto. — Ai meu Deus! Seria uma glória que a minha filha pudesse participar. Por que não tenta, filha?
— Ah mãe, não acho que posso ter alguma chance em um local tão chique e exigente. — Maria Antônia olhou para si, suas roupas estavam em péssimo estado, seu corpo necessitado de cuidados e seus cabelos de uma boa hidratação. — Mesmo que fosse só para trabalhar na limpeza, ainda assim eu seria reprovada antes mesmo de ter a oportunidade de falar sobre mim.
— Beleza não é tudo, Maria.
— Mas eles exigem isso no anúncio: boa aparência, disponibilidade de tempo e força de vontade para trabalhar. Tenho quase tudo disso.
— Não se julgue mal — repreendeu a mãe. — Você é muito inteligente e simpática, aposto que conseguirá fácil uma vaga de emprego nessa empresa e quanto a boa aparência, a gente dá um jeito. Não há nada que um pouco mais de cuidado e uma roupa nova não possa resolver.
— O que a senhora quer dizer com isso?
— Ainda não está claro? Vamos usar os cinquenta reais que você ganhou para que possa se preparar para essa entrevista de emprego.
— Não, minha mãe! Esse dinheiro é para comprarmos os seus remédios e repormos a dispensa. Sabe que não temos mais nada e…
— Filha, não se preocupe com isso, nunca estive tão bem de saúde. Além do mais, é preferível passarmos alguns dias a mais comendo migalhas do que pelo resto de nossas vidas. Não quero que viva sua vida se esforçando muito para ganhar apenas alguns trocados que mal dá para manter a disposição do corpo. — Maria Antônia começou a enxergar a esperança que pulsava em seu peito nos olhos de sua mãe. — Além do mais, essa é a oportunidade que faltava para você juntar o dinheiro que precisa para voltar a estudar e ingressar na universidade de medicina, como sempre sonhou em ser uma grande e excepcional médica.
Maria Antônia pôs o jornal na mesa e uma mão sobre a boca, ponderando as palavras de sua mãe. Seus olhos começaram a refletir o brilho da lamparina, enquanto lágrimas escorreram de seus olhos.
Mãe e filha se abraçaram sob o calor da esperança.
— Mamãe, a senhora me conhece tão bem. Sabe que isso é tudo que eu mais desejo, mas também quero cuidar de sua saúde.
— Então, filha, isso é mais um motivo para aceitar que o dinheiro ganho hoje seja usado para melhorar sua aparência, para que cumpra todos os requisitos desse anúncio e seja a primeira a estar lá no dia dessa entrevista de emprego.
— Sim, mamãe, obrigada!
— Filha… Cof! Cof!
Sua mãe começou a tossir fortemente e parecia que a cada novo dia as tosses se tornavam ainda mais secas. Maria Antônia a ajudou a sentar na cadeira e pegou um copo de água.
— Beba um pouco, minha mãe.
— Obrigada, minha filha. Não sei o que seria de mim sem você, a única filha que me restou. Enquanto suas três irmãs partiram daqui com seus maridos e nunca mais deram notícias.
— Algum dia elas vão aparecer, mamãe.
— Não se iluda, Maria Antônia. Suas irmãs são umas ingratas. Quando tiveram a oportunidade de mudar de vida aproveitaram, mas o dinheiro as fez esquecer a humildade que tentei cultivar no coração de vocês quatro.
— Mamãe, não force sua garganta. Vamos para o quarto. A senhora precisa descansar agora. Depois conversamos mais sobre isso.
— Ó filha querida, você é a mais nova e a mais boa entre suas irmãs, além de ser a mais linda para mim — sorriu a idosa. — Não diga isso para elas, hein.
— Está certo, minha mãe— sorriu Maria Antônia, agradecida pelos elogios, embora não fosse a primeira vez que os ouvia de sua mãe e de seus amigos do bairro humilde, em que transitavam pessoas descalças e cachorros sem dono.
— Você se preocupa muito com a sua mãe e com o próximo, antes mesmo de se preocupar consigo mesma. E isso me preocupa.
— Por quê?
— Este mundo nunca foi bom, minha filha. O mal nos rodeia e vive em busca de brechas para nos derrubar. Preocupa-me morrer antes que tenha se casado e se estabilizado nesta vida como suas irmãs. Embora eu conheça bem a sua força e sei muito bem que consegue se cuidar sozinha, quero que arrume um bom marido, que tenha uma bela família e seja feliz nesta vida com prosperidade.
— Não se preocupe com isso, mamãe. Eu nunca estarei sozinha, Deus sempre estará comigo e a senhora também ainda vai viver muitos anos. Aliás, já sou muito feliz só em poder estar aqui para cuidar da senhora.
Maria Antônia deu um beijo no rosto de sua mãe, que esboçou um sorriso de gratidão, mas tal sorriso rapidamente foi desfeito por uma nova sequência de fortes tosses assustadoras para os olhos esverdeados da filha mais nova.
Maria Antônia não desejava pensar no pior, mas a situação de sua mãe não aparentava ser boa nem mesmo diante de seus olhos otimistas.
A saúde e o seu futuro dela estavam nas mãos de Deus e, embora parecesse ter motivos mais que suficientes para deixar de acreditar na bondade dele, Maria Antónia acreditava mais ainda e não havia nada que iria abalar sua fé ou apagar a chama da esperança que queimava em seu coração.
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Comments
Elisa Lando
A melhor coisa é depositar tudo nas mãos de Deus e acreditar que vai dar tudo certo com fé.
2024-07-19
1
Marilena Yuriko Nishiyama
lute e seja forte Maria Antônia,creia em Deus 🙏🏻,acredite nEle que irá te mostrar o caminho certo 🙏🏻🙏🏻
2024-01-28
0
HENEMANN- MEDEIROS. Henemann
Eu já estava adorando o conteúdo de toda a história 😕 agora começou tudo de novo. mesmo assim tá muito boa
2023-05-20
3