6

A entrevista de emprego já era no dia seguinte. Maria Antônia e a mãe conversavam sobre o tempo. “Como passa rápido”. As duas caminhavam pela rua do comércio ao ar livre de vendedores autônomos e ambulantes.

Poderia ser categorizado como uma feira de roupas e utensílios domésticos principalmente, mas havia muitas bugigangas sendo vendidas também.

— Nossa, mamãe, olha estas bolas de borracha! — mostrou Maria Antônia, distraindo-se do objetivo da ida até ali.

— Gostou, senhorita? — indagou o vendedor.

— Sim, senhor. São muito macias e parecem bem resistentes.

— Claro que são. Foram fabricadas com a melhor borracha do país.

— Minha filha, não vamos perder tempo olhando o que não vamos levar.

— A senhora tem razão. — Maria Antônia pôs as bolas no mesmo lugar. — Desculpe, senhor, mas hoje não vou poder levá-las.

— Eu gostaria muito poder guardá-las para que voltasse outro dia e as comprasse, mas infelizmente se passar um cliente interessado e que pague a vista por elas, terei de vendê-las. Este é o meu negócio.

— Claro — assentiu Maria Antônia. — Compreendo. Não faz sentido que segure uma mercadoria por um tempo só porque um cliente gostou.

O vendedor percebeu a ausência do brilho no olhar de Maria Antônia quando avistou as bolas de borracha, muito melhores do que as que usava em suas apresentações de rua.

— Vamos, Maria.

Sua mãe a puxou pela mão, como se fosse uma criança. Naquele momento, Maria Antônia parecia infantil, porque ficou boba com a beleza daqueles objetos que não atraía a atenção de mais ninguém a não ser a dela.

— Esperem — pediu o vendedor. — Talvez possamos fechar negócio com um grande desconto.

— Como assim?

— Bem, senhorita, já faz um tempo que ando para lá e para cá com essas quatro bolas que já penso em me livrar delas de alguma forma, pois mercadoria parada é prejuízo. Então, que tal levar as quatros pelo preço de uma?

Maria Antônia arregalou os olhos para a proposta, mas sua mãe ficou com um pé atrás. Uma pulga atrás da orelha lhe fez duvidar que o desconto fosse justo.

— E quanto custa uma delas?

— Deixa eu pensar, senhorita… Já faz tanto tempo que não falo o preço delas a alguém que quase esqueci, mas agora  lembrei, a unidade está custando somente cinquenta reais.

— O quê!? — exclamou a idosa, colocando-se à frente da filha e encarando o vendedor. — Mas isso é um roubo. Como pode cobrar tão caro por essas bolas?

— Sinto muito, senhora, mas esse é o preço mais justo que posso oferecer. Os impostos estão altos. Tenho muitas despesas para pagar e filhos para alimentar. A senhora me entende, não é?

— Mesmo assim, ainda está muito caro — murmurou a idosa. — Cinquenta reais… Esse é o valor de tudo que temos agora.

— Bem, então podem comprar?

— Nem sob o meu cadáver, levaríamos essas bolas por esse preço.

— Mamãe, não se altere muito — sussurrou Maria Antônia ao ouvido dela. — Lembra? A sua saúde em primeiro lugar e, além do mais, eu não estava pensando em comprar. Só fiquei curiosa em saber o preço, por isso perguntei.

— Minha filha.

— O que decidiram? Vão levar ou não?

— Claro que não — respondeu a idosa. — Embora eu quisesse gastar o dinheiro que temos para ver a minha Maria sorrir pelo resto do dia e da noite por ganhar novas bolas para o seu adorado malabarismo, não posso fazer isso. Agora temos coisas mais importantes para resolver. — A idosa se virou para a filha e lamentou a situação. — Perdoe-me, filha, por não ter condição de atender ao seu pedido.

— Mamãe, eu já sou bem adulta para me tratar como se eu fosse uma criança incompreensível — sorriu Maria Antônia, abraçando-a em seguida. — É claro que não podemos comprar nada agora, além de um vestido bonito para que eu possa ir aquela entrevista de emprego. Depois que eu conseguir o emprego a gente vê se sobra algum dinheiro para eu comprar novas bolas de malabarismo.

— Lógico que vai sobrar. Não viu no anuncio que vão te pagar muito dinheiro se conseguir o emprego? E eu sei que vai conseguir, porque você é uma mulher diferente das outras, minha filha, muito diferente de suas irmãs e de qualquer uma que deseje competir contigo.

— A moça aí vai a uma entrevista de emprego amanhã?

— Sim — respondeu a idosa. — Por que o interesse?

— Talvez eu possa lhe vender estas bolas, senhorita, e quando estiver com o dinheiro do seu primeiro salário, poderá vir aqui me pagar.

— Mas, senhor vendedor, confiaria tanto assim em vender a prazo os seus produtos para pessoas que nem ao menos conhece?

— Por que não, minha jovem? Vejo que você e a sua mãe são duas pessoas boas e honestas. Tenho certeza que cumprirão com o pagamento assim que possível.

Maria Antônia olhou para a mãe que olhava com um olhar meio torto para o vendedor. A pulga permanecia no mesmo lugar.

— E então, mamãe, o que a senhora acha?

— Embora eu ache isso um pouco estranho, se ele quer tanto vender sua mercadoria e diz confiar em nossa boa índole, não vejo problemas em levá-las.

Maria Antônia deu um rápido beijo em sua mãe e esboçou novamente seu largo e belo sorriso. Compraram do vendedor as quatro bolas de borracha, prometendo, assim que possível, pagá-las sem falta.

Após guardar suas novas bolas de malabarismo na bolsa de pano que portava sobre o ombro, Maria Antônia retomou o percurso na companhia da mãe.

Andaram mais um pouco até chegar às sacoleiras para as quais pechincharam por um vestido de qualidade, mas que estivesse abaixo do valor que tinham.

Cinqüenta reais poderia parecer muito pouco nos bairros nobres, mas ali e nos bairros mais humildes era um dinheiro que causava inveja e cobiça. Com esse valor, você seria considerado rico até gastá-lo completamente.

— Esse é muito bonito, minha mãe.

— Sim, filha. — A idosa se voltou para a vendedora de cabelos grisalhos e rosto enrugado também. — Quanto custa este vestido vermelho com rendas e alças finas.

— Setenta, senhora.

— Dou cinqüenta por ele.

— O preço é setenta.

— Quarenta e cinco?

As duas iniciaram uma disputa de ofertas. Enquanto uma desejava comprar pelo menor preço, a outra queria extrair o maior valor.

— Pago cinqüenta e nenhum centavo a mais.

— Pois então, deixo por sessenta.

— O quê!? Ainda está muito caro. Fora do preço que deve custar este vestido em outros estados.

— Está no preço certo. E se acha que estou cobrando mais do que vale, vá até outro estado para comprá-lo lá.

Maria Antônia riu da situação, mas sua mãe lhe lançou um olhar sério, como se questionasse de que lado ela estava. Por isso, tomou partido em ajudar a mãe a conquistar o vestido.

— Senhora vendedora, não é que não queremos pagar o preço que nos cobra — começou Maria Antônia. — Só que o máximo que temos é cinqüenta reais. Esse foi o dinheiro que consegui há dois dias com um homem bondoso pela manhã, quando eu fazia apresentações de malabarismo no sinal vermelho da rodovia.

A vendedora analisou Maria Antônia dos pés a cabeça e sorriu, deixando escapulir um comentário ambíguo.

— Conseguiu com um homem bondoso é?

— O que está insinuando? — questionou a idosa..— A minha filha é uma mulher de respeito. Não admito que pensem assim dela.

— Calma, mamãe.

— Com as irmãs dela eu até não me importaria que pensassem algo errado delas, porque sempre foram saidinhas e fogosas, mas a minha Maria é muito diferente das irmãs. É uma pérola de valor inestimável muito bem protegida pela sua concha.

— Perdoe-me — disse a vendedora, erguendo as mãos. — Não foi a minha intenção ofendê-la. E como demonstração das minhas mais sinceras desculpas, vou deixar que levem esse vestido pelo valor que puderem me pagar.

— Será que pode ser por quarenta e cinco reais? — indagou Maria Antônia.

— Como assim? Não disseram que o máximo que tem é cinquenta?

— Sim, mas eu queria que sobrasse o dinheiro do ônibus — explicou Maria Antônia. — Não quero que minha mãe se canse ainda mais, andando quilômetros até a nossa casa.

— Não se preocupe comigo, minha filha, a prioridade agora é comprar este vestido para a sua entrevista de emprego.

— Entrevista de emprego?

— Sim, senhora.

— Por que não me disseram isso antes?

A indagação da vendedora deixou as duas confusas, principalmente porque ela esboçou um repetindo sorriso e juntou as mãos como se fosse orar.

— Podem levar esse vestido e não precisam pagar por ele.

— É sério, senhora vendedora!?

— Sim, menina. Acha que sou mulher de andar mentindo?

— Mamãe!

Maria Antônia abraçou sua mãe. Ambas felizes caíram em lágrimas, chorando audivelmente para a alegria da vendedora de roupas que sentiu no peito a felicidade lhe pagando pela mercadoria doada.

— Muito obrigada, meu Deus! — agradeceu a idosa junto a sua filha.

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Comments

Zilda Praxedes

Zilda Praxedes

verdade e tem pessoas que nem se preoculpa com outra

2024-08-02

0

Maria Francisca

Maria Francisca

tanta pobreza meu Deus

2023-06-16

0

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