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No dia seguinte, Rafael acordou cedo e se preparou para ir ao trabalho. Ele ainda estava abalado pela conversa com Raquel na noite anterior, mas precisava se manter focado e cumprir suas responsabilidades como CEO da empresa.

— Não vai tomar o seu café da manhã primeiro, senhor?

— Não, Sônia. Obrigado! — respondeu Rafael, pegando as chaves de seu carro sobre a estante da sala. — Quando a minha esposa acordar, diga a ela que hoje vou almoçar fora.

— A dona Raquel não vai gostar disso…

— Pouco me importa que goste ou não. Entre nós não há mais nada além de ódio e desarmonia. Tanto que o nosso divórcio já está a caminho. Há algumas semanas eu pensava em ter um filho com ela, mas agora não penso em outra coisa a não ser ter um divórcio com Raquel.

— Mas o que houve para chegarem a esse ponto tão grave?

— Não acha que já está perguntando demais, Sônia?

— Desculpe-me. Sei que não é das minhas atribuições me intrometer no seu relacionamento, mas o senhor sabe que é como um filho para mim, e eu me preocupo com a sua vida. Quando seus pais faleceram, prometi a mim mesma que cuidaria de ti como o filho que eu nunca tive, para que não sofresse tanto nesta vida difícil, nem que isso fosse a última coisa que eu faria nesta minha existência.

Rafael sorriu, sentindo seu coração acariciado pelas palavras dela. Ele a abraçou e lhe deu um beijo na testa em agradecimento pela gratidão que transbordava pelos cuidados que Sônia sempre teve consigo.

— Gosto muito de você, Sônia. E não saberia o que fazer neste momento se eu não a tivesse aqui comigo. — Ambos se entreolharam amavelmente. — Promete que não vai me deixar como os meus pais?

— Ah senhor Rafael, assim como os seus pais, não posso prometer algo que não depende de nós. Como diz a bela música: “um dia chegamos e no outro vamos embora.”

— Mas não quero que vá. Se depender de mim, ficará comigo para sempre. Seria terrível perdê-la também, Sônia.

Ela não conteve a própria emoção. Rafael foi mais resistente em não lacrimejar naquele momento. Mas depois, quando estava a dirigir para o seu trabalho, chorou como um adolescente temendo o futuro.

Adiante, estacionou seu veículo prateado no amplo estacionamento da empresa. Enxugou seus olhos com os lenços guardados no porta-luvas e só então se dirigiu ao interior do prédio em que trabalhava na companhia de poucos funcionários, mas que logo aumentaria, pois já estavam necessitando de mais empregados devido ao crescimento da demanda de trabalho.

Rafael cumprimentou todos, inclusive as funcionárias da limpeza enquanto se dirigia para a sua sala. Ele era respeitado e admirado por ser o herdeiro da empresa, mas também pela sua simpatia e boa aparência. Tinha admiradores, mas também havia quem se arriscasse a se opor ao seu poder ali.

Quando adentrou a sua sala, deu-se de cara com uma pilha de papéis acumulados em sua mesa. Eram os mesmos de dias atrás, ainda pendentes. Porém, doía seu peito ao tocá-los porque se não tivesse os deixado para outro dia, se tivesse finalizado-os naquele dia, não teria descoberto a traição de sua esposa.

— Com licença, Rafael — disse a sua secretária após bater e abrir a porta. — Perdoe-me entrar assim…

— Diga logo o que quer, Suzana — disse Rafael em tom sério, pois já queria tê-la despedido, mas isso só agravaria ainda mais as coisas entre Raquel, já que ambas eram melhores amigas. — Veja isto — apontou a pilha de papéis. — Faz parte do ofício de sua função cuidar destes documentos, e não do meu. Por que ainda não os tirou da minha mesa e os levou para a sua?

— Perdoe-me, Rafael…

— É senhor Rafael — corrigiu. — Estamos em local de trabalho e não vou admitir tanta intimidade comigo. Você é amiga da Raquel, não minha. Se o nosso divórcio já não estivesse me estressando tanto, eu já teria te demitido.

— Não, senhor, por favor! — Suzana pôs uma mão sobre o peito, temendo perder o ótimo emprego ali. — Teria coragem de fazer algo tão ruim assim comigo?

— Coragem tenho, mas paciência para suportar as reclamações de Raquel não. Aproveite enquanto ainda puder, porque quando o divórcio estiver finalizado, não haverá mais nada que vá assegurar a sua permanência como a minha secretária aqui. Portanto, comporte-se e mostre serviço ou logo perderá seu cargo para uma pessoa mais competente.

Suzana se tremeu com as palavras de Rafael. Seu corpo suava e seus pensamentos se agitavam. A expressão dele se manteve séria e rígida e parecia não haver nada que mudaria isso.

— Eu só vim avisar que já está tudo pronto para o início da entrevista de emprego dos novos candidatos às vagas abertas.

— E quantos candidatos já temos para concorrer às dez vagas?

— Por enquanto nenhum.

— O quê?! — exclamou Rafael, mudando a expressão. Isso sim o deixou desestabilizado, com a mão sobre a testa. — Não posso acreditar. Não fizeram o anúncio nos jornais como ordenei?

— Sim, Rafa… digo, senhor Rafael. Só que parece não haver interessados para trabalhar em cargos com baixa remuneração.

— Pode parecer pouco, mas é o salário digno aos cargos ofertados. Se não há ninguém interessado, é porque não estão precisando de trabalho, ou o anúncio não chegou até os candidatos interessados.

— Na verdade, para não dizer que não apareceu nenhum candidato ainda. Chegou uma moça aí até mais cedo que o anunciado, mas já foi embora.

— Como assim? — indagou Rafael, sentando-se à sua mesa. — Explique isso melhor, Suzana.

— Bem. É uma mulher não muito atraente. — Suzana se sentou diante da mesa de Rafael e continuou suas descrições sobre a candidata. — Precisava ver como estava vestida. Talvez ela achasse que estivesse bem para uma entrevista de emprego, mas seu cabelo ruivo e suas roupas… deveria ter gastado mais com o próprio visual antes de ousar pôr os pés nesta empresa de classe alta.

— Pode parar, Suzana. Isso não me interessa.

— Como não, imagina se uma mulher como ela vem trabalhar nesta empresa. Como acha que os clientes iriam reagir ao ver uma mulher com os cabelos mal cuidados e com roupas que mais pareciam ter sido encontradas na primeira lata de lixo que avistou na rua.

— Eu disse para parar, Suzana. Se quer me falar mais sobre essa candidata, diga o porquê ela foi embora? Por que não aguardou para ser entrevistada?

— Bem… como ela chegou muito cedo e parecia precisar fazer outras coisas importantes, pedi que voltasse mais tarde, garantindo que não iria perder a oportunidade de ser entrevistada também.

Rafael pôs a mão sobre o queixo e estreitou os olhos na direção de Suzana. Sendo a melhor amiga de sua esposa infiel, não era mais prudente confiar totalmente em suas palavras, uma vez que já demonstrava muito descaso com as próprias obrigações. Queria receber sem se esforçar como as outras. Realmente, estava na hora de contratar outra secretária muito mais eficiente.

— Espero que ela volte.

— Não, Rafael! Não pode entrevistar aquela mulher?

— Sim, tanto posso como farei isso. Aliás, agora estou curioso para conhecer a única candidata que até o momento veio aqui e, sobretudo, duas horas antes do combinado. Deve ser uma mulher muito responsável e bela — imaginou Rafael.

— Não me ouviu por acaso? Responsável ela até pode ser, mas bela…

— Chega, Suzana. — Rafael se levantou da cadeira e se dirigiu até a porta. — Obrigado pelas informações. Agora trate de cuidar desses papéis que fazem parte de suas obrigações resolvê-los. Quando eu voltar, não quero mais encontrar essa pilha de papéis sobre a minha mesa, do contrário você pode arrumar suas coisas e passar no setor de Recursos Humanos hoje mesmo.

— Está me ameaçando? Como tem coragem de fazer isso? Se a sua esposa descobrir…

— Não terá problema nenhum — respondeu Rafael em tom firme. — Eu sou o diretor executivo desta empresa e posso contratar e demitir quem eu desejar, quando e como eu quiser. Entendeu?

Suzana virou o rosto de lado e bufou enraivecida por não ter conseguido o mesmo efeito de antes ao mencionar Raquel em suas palavras.

Rafael não era mais o mesmo, e isso estava cada vez mais evidente. Ele sorriu para a reação de sua secretária fiel a sua esposa como um cão e em seguida saiu dali, deixando-a sozinha com a própria raiva.

Após pegar um café sem açúcar na lanchonete interna, Rafael se dirigiu a sala onde entrevistaria os candidatos para as novas vagas de emprego da empresa que outrora fora dirigida por seu pai, na companhia de sua bela e inteligente mãe, que também faleceu naturalmente dias após o marido.

Gradualmente, os candidatos e candidatas às vagas de emprego foram chegando, mas entre eles não havia nenhuma mulher que tivesse o cabelo ruivo como descreveu Suzana.

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Comments

Maria Francisca

Maria Francisca

Bem feito Suzana

2023-06-16

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