Maria Antônia guardou o cartãozinho em sua bolsa e agradeceu mais uma vez em pensamentos a Deus. Assim como a idosa mãe, ela sempre foi uma pessoa de muita fé e abençoada pelos céus, pois nos momentos mais difíceis nunca faltou a bênção divina sobre si.
— O senhor é um homem bom. Obrigada pelo que está fazendo por mim. Se existissem mais pessoas assim como o senhor, este mundo seria um lugar melhor.
— Não há de quê, mas também não acho que seja para tanto — disse ele, pondo o veículo em movimento. — E como eu disse ontem, você pode me chamar apenas de Rafael. — Os dois aparentavam ter idades próximas. — Agora me diga onde fica exatamente a sua casa?
Maria Antônia explicou com poucas palavras e mais gestos as direções que ele precisava seguir. O carro se movia lentamente enquanto Rafael processava as orientações.
— Acredito que entendi — disse ele —, mas, por favor, vá confirmando se estou indo na direção certa.
— Está bem.
O percurso era mais longo do que ela dissera lá no começo. Ela mentiu antes porque não queria incomodá-lo com a carona oferecida. Rafael não se incomodou com a distância e nem com o fato de já ser quase meio-dia. Ele se concentrou em levá-la em segurança até a casa dela, sentindo que ainda era pouco por tudo que ocorreu desde que se conheceram.
Durante o trajeto, Rafael pensou em muitas coisas e antes que chegassem ao destino, ele rompeu o silêncio com uma curiosidade sobre o fato de Maria Antônia fazer malabarismo.
— Quando aprendeu a fazer aquilo com bolas de borracha?
— Está falando do meu malabarismo?
— Sim, isso mesmo. Imagino que seja algo difícil de fazer.
Maria Antônia sorriu.
— No começo sim, mas com o tempo a gente pega o jeito certo e consegue fazer até de olhos vendados.
— Sério!?
— Sim, consigo fazer de olhos vendados também. Antes de falecer há alguns anos o meu pai me ensinou tudo o que sei hoje, incluindo o malabarismo com diversos materiais, mas principalmente com estas bolas de borracha que estão na minha bolsa. Tenho quatro bolas novas que comprei com a minha mãe quando estávamos…
De repente, Maria Antônia silenciou, pondo a mão no peito. Rafael ficou intrigado e, olhando de canto de olho para ela, percebeu uma repentina tristeza abalar a expressão sorridente dela.
— O que houve? — indagou ele. — Está se sentindo mal?
— O meu peito ainda dói muito.
— Então, precisamos ir imediatamente ao hospital.
— Não precisa. Não é dessa dor que você está imaginando. Não é dor física. O meu peito dói de angústia e medo.
— Está preocupada com o estado de saúde da sua mãe? — deduziu Rafael, abrindo o porta-luvas com uma mão enquanto mantinha a outra na direção.
— Sim — confirmou ela.
Rafael retirou um pacote de lenços de papel e entregou a Maria Antônia, para que pudesse secar seus olhos que estavam começando a lacrimejar. Ela só se deu conta disso quando viu ele pegar os lenços.
— Sinto muito pela sua mãe, deve ser difícil ver alguém que amamos passar por momentos difíceis — disse Rafael, oferecendo apoio emocional a Maria Antônia.
— Obrigada. Realmente não está sendo fácil — respondeu Maria Antônia, sentindo uma pontada de dor no peito ao pensar na situação da mãe, lembrando que saiu do hospital e ela continuava inconsciente.
Depois de um momento de silêncio, em que Maria Antônio secou as próprias lágrimas, Rafael falou novamente:
— Sei que pode parecer clichê, mas muitas vezes é em momentos difíceis que descobrimos o quão fortes somos. Tenho certeza de que você e sua mãe conseguirão superar isso juntas.
— Eu espero que sim — disse ela, agradecida pelas palavras de conforto de Rafael.
Enquanto dirigiam em direção à casa dela, eles conversavam sobre outros assuntos, tentando não focar somente em problemas. Rafael descobriu que Maria Antônia apreciava a literatura textual, assim como ele.
Eles trocaram dicas de livros e autores favoritos, e Rafael ficou impressionado com o conhecimento e a paixão dela pelo assunto.
— Você já leu O Pequeno Príncipe? — perguntou Rafael.
— Sim, é um dos meus livros favoritos. Acho que é uma obra que todo mundo deveria ler pelo menos uma vez na vida — respondeu Maria Antônia, esboçando um leve sorriso.
— Concordo plenamente. Também sou fã do Antoine de Saint-Exupéry. Já leu Voo Noturno?
— Não.
— É um livro incrível que me atraiu para o mundo da literatura quando eu era jovem, e agora leio nas minhas horas livres e um pouco antes de dormir. Adoro como o autor desse livro consegue transmitir tanta emoção através da escrita — disse Rafael.
— Interessante, mas ainda não tive essa oportunidade.
— Quando quiser, posso te emprestar.
— Sério!? Seria ótimo. Em casa tenho poucos livros, a maioria eram do meu pai. Foi ele quem me ensinou a ler também. Às vezes eu ia à biblioteca pública ler um pouco, mas ultimamente não tenho tido tempo devido ao trabalho de malabarismo.
— Hum… Mais um motivo para aceitar ser a minha segunda secretária — retomou Rafael o assunto da vaga de emprego. — Prometo que terá tempo para realizar as suas leituras.
Maria Antônia o encarou e disse seriamente:
— O senhor é muito insistente, sabia?
Rafael sorriu antes de responder.
— Já me disseram muito isso. Não consigo evitar. Mas por que você continua me chamando de senhor, eu já disse que pode me chamar só pelo meu nome.
— Sim, eu sei, mas… Tudo bem, vou tentar chamá-lo daqui por diante como preferir.
— Não se sinta pressionada a isso também — disse ele. — Se prefere me chamar de senhor, não tem problema. Eu disse que te daria o tempo que precisar para me dar a sua resposta, e vou manter a minha promessa, não se preocupe.
— Desculpe — disse ela, suavizando o tom de voz. — Acho que fiquei muito emotiva de repente. Não sou de ficar irritada ou estressada com facilidade, mas…
— É compreensível que esteja um pouco emotiva — interrompeu Rafael, tranquilizando-a. — Sua mãe está hospitalizada. Você precisa se esforçar muito para pagar o tratamento dela e acredito que o que ganha fazendo aquilo que faz com as suas bolas de borracha não é o suficiente.
— Não está tentando de novo me convencer a dar a minha resposta agora, ou está, Rafael?
Ele olhou para ela rapidamente e sorriu antes de voltar a atenção para a estrada que mudou de asfalto para uma estrada de terra empoeirada e com buracos a cada dez metros percorridos. Estavam quase em frente ao destino.
— Garanto que não estou — disse ele —, mas se quer saber o que penso sobre qual vai ser a sua resposta, posso dizer uma coisa. Se você quiser começar amanhã mesmo, estarei te esperando às sete horas da manhã, mas pode chegar às oito, como será o seu primeiro dia de trabalho, vou te dar esse privilégio.
Maria Antônia ficou boquiaberta. Ela nunca imaginou que Rafael fosse um homem tão determinado em seus propósitos. Ele falava como se tudo fosse acontecer de acordo com os seus próprios desejos.
Embora a insistência dele não a agradasse, ela tinha consciência de que não poderia perder essa oportunidade de emprego. Agora mais do que nunca necessitava disso para a própria subsistência, mas também para salvar sua querida mãe.
— Ê aqui onde moro — disse Maria Antônia, apontando a sua humilde residência cercada por uma cerca de paus velhos e uma pequena cancela como um tipo de porteira, tal como tinha a casa ao lado da melhor amiga de infância.
Rafael parou o carro em frente a casa de Maria Antônia, percebendo pelo retrovisor de seu veículo os olhares de admiração da vizinhança. As pessoas que passavam por ali arregalaram os olhos ao ver um carro de luxo em um bairro pobre. Era algo atípico para as pessoas daquela região.
Maria Antônia tentou abrir a porta do veículo, mas não conhecia aquele tipo de maçaneta.
— Deixe que eu te ajudo — disse Rafael, inclinando-se para abrir a porta.
Nesse instante ela o sentiu mais próximo do que nunca. O cheiro dele de fragrância das mais renomadas marcas do país. Um perfume inebriante e gostoso que ela só sentia de longe agora estava a experimentá-lo com intensidade de perto. Maria Antônia divagou nessa boa sensação e não percebeu quando a porta foi aberta.
Rafael retomou a postura, mantendo seus olhos nela. Ele a sentiu distante por um momento. Por isso, tocou levemente no ombro dela, ao mesmo tempo que sentiu sua mão desejando acariciá-la.
Mas ele foi rápido e se segurou para não fazer nada que pudesse prejudicar o momento com más interpretações.
— Desculpe — disse Maria Antônia. — De repente, eu fugi um pouco da realidade ao lembrar do homem mais importante da minha vida.
— Que homem é esse? — questionou Rafael, surpreso com a fala dela.
—Estou falando do meu pai, é claro. Desde que ele faleceu, eu e a minha mãe vivemos sozinhas naquela pequena casa — apontou novamente a residência próxima ao carro. — Obrigada pela carona.
— Não há de que. Foi um prazer ter tido essa nossa conversa. E que bom que resolvemos aquela situação.
— Mesmo que estejamos bem quanto aquilo, eu nunca poderei esquecer o que fez com o meu currículo.
— Sim, compreendo. E não espero que me perdoe por aquilo, mas apenas receba as minhas desculpas.
— Tudo bem. — Maria Antônia saiu do carro sem dizer mais nada, e Rafael saiu também assim que ouviu uma mulher gritar o nome daquela que em seus pensamentos seria a sua segunda secretária e a mãe de seu filho.
Sim, Rafael estava em seu íntimo sentindo que havia encontrado a pessoa perfeita para colocar o plano sugerido por seu advogado em ação. Todavia, ele hesitou em tocar no assunto, temendo que a resposta dela fosse semelhante a da Letícia. Mas na primeira oportunidade conveniente, lançaria a proposta, imaginando que a resposta seria sim.
— Maria Antônia! — gritou Francisca, passando pela cancela à frente de sua casa.
Ela aguardava impaciente a amiga de infância retornar do trabalho na rodovia. Francisca tinha um aviso muito importante a ser dito. Tão importante que quase não foi dito devido a tanta emoção.
— Por favor, Francisca, diga logo — pediu Maria Antônia, sentindo um aperto no peito. — O que aconteceu para o seu rosto estar tão abatido?
— Antônia, vá ao hospital.
— Sim, eu vou depois de tomar um banho e trocar de roupa.
— Não! Não há tempo. Vá rápido ao hospital, agora!
— Por que está me dizendo isso dessa forma, Francisca?
Os olhos molhados de Francisca sob os óculos de lentes grandes e arredondados deixou Maria Antônia ainda mais preocupada e com o aperto no peito ficando mais forte.
— A sua mãe está morrendo, Antônia.
— Quê!?
— Ela deseja te ver..
— Não, Francisca. — Maria Antônia caiu em profundo abalo sob o abraço da melhor amiga. — A minha mãe não…
Assistindo a cena e comovido por Maria Antônia, Rafael se colocou à disposição para levá-la ao hospital onde a mãe dela se encontrava internada. Ele se sentiu na obrigação de fazer mais isso por ela e um pouco mais.
Para Rafael, existia algo em Maria Antônia que a tornava muito diferente da Raquel, e isso ele desejava descobrir o que era antes de lançar a proposta dela ter um filho seu.
— Pode nos levar mesmo? — indagou Francisca.
— Sim — confirmou Rafael ajudando as duas a se acomodarem bem nos bancos do veículo.
As duas se sentaram nos bancos de trás. Assim, Francisca conseguia confortar a amiga em lágrimas incessantes. Rafael perguntou o nome do hospital e, após receber a resposta, ele pisou fundo no acelerador, fazendo o carro emitir um ronco estridente.
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Comments
Sonia Helen 💜💜
coitada 😞
2023-08-05
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