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Rafael encarou sua esposa Raquel com frieza enquanto ela se sentava à mesa do café da manhã. Era um silêncio pesado que pairava sobre eles, cortado apenas pelo som dos talheres tocando as xícaras de porcelana.

— Tem alguma coisa a dizer? — perguntou Rafael, finalmente quebrando o silêncio.

Raquel olhou para ele com desdém antes de responder:

— Por que eu deveria ter alguma coisa a dizer? Você é quem está pedindo o divórcio.

Rafael respirou fundo antes de continuar:

— Eu quero que isso seja feito o mais rápido possível. Quero uma divisão justa dos nossos bens.

Raquel deu uma risada cínica antes de responder:

— Justa? Você sabe que eu mereço muito mais do que está disposto a me dar.

Rafael manteve a calma enquanto respondia:

— Não estou aqui para discutir isso agora. Eu só quero que isso seja finalizado o mais rápido possível.

Raquel o encarou com um olhar desafiador antes de se levantar da mesa.

— Vamos ver como você vai se sentir quando eu pegar tudo o que é meu — disse ela antes de sair da sala.

Rafael suspirou enquanto a observava partir. Ele sabia que a batalha pelo dinheiro seria longa e difícil, mas estava determinado a sair vencedor.

Após tomar o amargo café, ligou para seu advogado, que lhe apresentou um plano arriscado, mas que poderia garantir que Raquel não ficasse com tudo o que lhe era devido no acordo de divórcio.

Encerrada a ligação, pôs seu aparelho celular na mesa e pensou sobre o plano sugerido, não era muito bom… aliás, parecia ser loucura: “Tenha um filho com outra mulher, assim sua esposa infiel terá direito a muito menos de sua fortuna, senhor Rafael.”

As palavras de seu advogado de meia-idade chamado Vicente não saiam mais de sua cabeça. Seria um absurdo, sim, mas seria ainda pior deixar que Raquel saísse por cima nessa história.

Rafael bateu a mão fechada sobre a mesa, recusando-se a ceder mais do que Raquel merecia: Nada! Decidiu, então, que precisava de alguém disposto a ajudá-lo a colocar o plano em prática, mas não queria que fosse qualquer pessoa. Teria de ser alguém que fosse o contrário de sua esposa gananciosa e vaidosa e que aceitasse se alinhar aos seus desejos.

...***...

— Sônia — chamava Raquel a empregada da casa, que rapidamente se aproximou.

— Sim, senhora. No que posso ajudá-la?

— O Rafael já saiu?

— Não sei, senhora.

— Como não sabe? É paga para me dar as respostas que preciso também, mas ultimamente está tão velha que mal consegue executar seu trabalho como deveria.

— Sinto muito, senhora. Eu vou ver se ele já saiu.

— Deixa isso para lá — gesticulou Raquel.

A empregada permaneceu ali mais ela, na enorme cozinha da luxuosa casa. Tudo era muito bonito e as cores harmônicas.

A limpeza era tão impecável que dava para se ver o próprio reflexo nos móveis e nas cerâmicas das paredes, bem como o brilho dos lustres dourados.

Logo, Raquel retornou à sala do café da manhã e, assim que avistou seu marido, ficou surpresa por ele ainda estar ali sentado à mesa.

— Não tinha de ir trabalhar hoje, amorzinho?

Ignorando o olhar e o sarcasmo de sua esposa, Rafael pegou a sua pasta de trabalho e saiu da sala rumo ao seu escritório no centro da cidade. Já passava da hora de estar na empresa, executando seu cargo de diretor executivo.

Além disso, lá seria muito mais fácil se manter tranquilo, pois desde que descobriu a infidelidade de sua esposa, não se sentia mais confortável em estar na presença dela. Em qualquer lugar que estivesse com Raquel, parecia estar em uma parte do inferno, na companhia do próprio diabo.

O sofrimento era inevitável e as memórias do flagra da infidelidade de sua esposa não se apagavam de forma alguma de sua mente. Até quando teria de suportar tal tormento?

Ele queria ter a coragem para confrontá-la sobre o real motivo do divórcio, mas se limitava a dizer que por não haver mais amor entre ambos, a separação seria a melhor coisa a ser feita.

Portanto, lançou a ela dias atrás a proposta do divórcio, esperando que ela confessasse seus erros. Mas Raquel foi cínica como sempre e mentirosa, aceitou a proposta sem pensar duas vezes, demonstrando uma consciência tranquila, embora tivesse cometido um terrível pecado.

Não era uma mulher de igreja, e nem ele. Contudo, Rafael questionou aos céus por que diabos Deus permitiu que a safadeza de sua esposa tivesse ultrapassado os muros do matrimônio.

...***...

O trânsito como sempre estava lento como uma fila de tartarugas. O sinal fechou, e Rafael parou o carro mais uma vez, bufando sua raiva sobre o volante. Conteve-se para não quebrá-lo devido a sua cabeça quente.

— Eu preciso encontrar alguém que possa ser a mãe do meu filho — murmurou, com o olhar fixo no parabrisas e os pensamentos distantes. — Raquel não vai pôr suas belas e delicadas mãos no meu dinheiro…

— Senhor.

Demorou alguns segundos até Rafael perceber o som de batidas no vidro da janela de seu carro e a voz de uma mulher lhe chamando. Após baixar o vidro, percebeu que se tratava da mesma moça do malabarismo se apresentando como de costume naquele ponto da rodovia.

Como sempre, ela estava vestida aos farrapos. Seu rosto meio sujo e suas unhas escuras denunciavam que havia um bom tempo que não cuidava do próprio corpo. Seus cabelos longos e avermelhados atraíam a atenção, mas no estado em que se encontravam parecia mais uma peruca de palhaço com fios quebradiços do que o cabelo de uma mulher adulta que era.

— Senhor, teria algum dinheiro para mim? Uns trocados já me servem? Por favor!

Rafael não sentiu pena nem dó porque mal conseguia se concentrar na condução do próprio veículo. Seus pensamentos estavam muito excitados para lhe permitir sentir a fraqueza daquela mulher, cujo estômago roncava audivelmente.

O sinal abriu e, diante da cor verde do semáforo, os carros de trás começaram a buzinar. Ali todos tinham pressa e já bastava a lentidão do percurso, ter de esperar a boa vontade do veículo à frente para se mover do lugar, era um cúmulo para a maioria.

— Anda logo!

— Que pessoas irritantes — resmungou Rafael, pisando levemente no acelerador.

— Espere, senhor! — pediu a mulher, largando as bolas de malabarismo na rodovia e agarrando o braço de Rafael que parou o carro novamente. — Ajude-me, por favor! Faz dias que consegui algum dinheiro. As pessoas têm se tornado cada dia mais duras com o próximo. Mas o senhor parece ser uma boa pessoa.

Rafael olhou para as mãos sujas e em seguida para o rosto em lágrimas. Ela começou a  lacrimejar e a fungar o nariz como se estivesse a retomar um choro pausado.

— Não vá sem me ajudar pelo menos com alguns trocados que não vão lhe fazer falta. Eu te peço, senhor, ajude-me!

Rafael massageou sua testa para aliviar o estresse causado por seus pensamentos e agora por uma mulher mal vestida buzinando mais que os carros logo atrás do seu.

— Está bem — disse ele —, mas solte o meu braço.

— Desculpe, senhor.

Rafael pegou sua carteira no porta-luvas e dela retirou uma nota de cinquenta reais, era a menor nota que tinha entre todas.

— Mas, senhor, isso é muito dinheiro…

— Receba logo, mulher — insistiu Rafael, estendendo a nota pela janela. — Este dinheiro não vai me fazer falta. Tenho muito mais que isso.

Dois carros logo atrás começaram a buzinar sem pausa. O som irritou os ouvidos de Rafael, que soltou a nota de dinheiro para fora do carro e, de imediato, pisou no acelerador.

A mulher quase foi atropelada pela pressa dos carros que buzinavam. Ela saltou para trás e só instantes depois teve a oportunidade de apanhar da rodovia a nota de cinquenta reais meio suja devido às rodas dos pneus que haviam passado por cima.

— Que Deus lhe abençoe, senhor — murmurou ela consigo mesma, pressionando a nota de dinheiro sobre seu peito aliviado enquanto perdia de vista o carro prateado de Rafael.

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