A noite em Nova Aurora estava fria, mas agradável, e a cidade seguia seu ritmo habitual. O centro não estava tão movimentado como de costume, e a sorveteria 24 horas, localizada em uma esquina iluminada por postes amarelados, estava quase vazia. O aroma doce de baunilha e chocolate misturava-se ao leve cheiro de café vindo da máquina no balcão.
Quando Léo chegou, parou a moto e desligou o motor com um gesto preciso. Tirou o capacete e passou a mão pelos cabelos bagunçados, tentando ajeitá-los sem sucesso. Ele nunca foi do tipo que se importava muito com isso, mas, por algum motivo, quis parecer minimamente apresentável. Seu olhar percorreu rapidamente o ambiente até encontrar Ana Clara, sentada perto da janela, distraída, mexendo na borda de um copo de água com os dedos.
Ela estava diferente daquela noite do acidente. Parecia mais relaxada, com os cabelos soltos em ondas suaves, vestindo um moletom simples e confortável. Seu rosto carregava um sorriso tímido quando o viu entrar, e Léo, mais uma vez, se surpreendeu com o impacto que ela tinha sobre ele.
Ele não sabia explicar. Algo nela parecia... leve. Como se pertencesse a um mundo distante do seu.
Com um sorriso torto, aproximou-se da mesa.
— Então, é aqui que eu pago minha dívida? — disse ele, cruzando os braços e arqueando uma sobrancelha.
— Isso mesmo. E não pense que vai sair impune. — Ana apontou para a cadeira à sua frente, os olhos brilhando com diversão.
Léo riu baixo e se sentou. Pela primeira vez em muito tempo, não sentiu a tensão constante que normalmente o acompanhava.
Eles pegaram os cardápios e começaram a olhar os sabores. Ana franziu o cenho, indecisa.
— Hm... acho que vou de pistache.
Léo ergueu uma sobrancelha.
— Sério? Pistache? Isso é coisa de gente estranha.
Ela riu.
— E qual é o seu então, senhor especialista?
— Chocolate amargo. Clássico, simples, sem erro.
— Ah, então você é do tipo que não gosta de correr riscos, né? — provocou ela, enquanto fazia o pedido ao atendente.
Léo deu um sorriso de canto, mas não respondeu. Se ela soubesse a verdade, jamais faria aquela pergunta.
Quando os sorvetes chegaram, a conversa fluiu com naturalidade. Para Ana, era fácil falar sobre si mesma. Contou sobre sua cidade natal, uma pequena cidade do interior, e como sempre sonhou em estudar psicologia para entender melhor as pessoas. Falou sobre sua família, seus amigos da faculdade e até sobre sua paixão por ajudar os outros.
Léo, por outro lado, escolhia as palavras com mais cuidado. Nunca falava demais sobre si mesmo, mas, pela primeira vez em muito tempo, não se importou de compartilhar algumas memórias da infância. Contou sobre os verões na casa da tia, sobre como aprendeu a andar de moto antes mesmo de saber dirigir um carro e sobre seu trabalho como "gerente de um clube". Claro, omitiu completamente qualquer menção à gangue ou ao mundo perigoso em que estava envolvido.
— Então, sua vida é tranquila? — perguntou Ana, tomando a última colherada do sorvete.
Ele hesitou por um segundo antes de responder.
— Mais ou menos. Tem dias mais agitados, mas no geral, sim.
Ela sorriu.
— Que bom. Gosto de pessoas que não complicam as coisas.
Léo apenas observou. Se ela soubesse a verdade, com certeza fugiria dali na mesma hora.
O tempo passou rápido, e quando finalmente se despediram na porta da sorveteria, Ana sentiu que algo especial havia acontecido. Um simples encontro, mas que, de alguma forma, parecia importante.
Léo, por sua vez, saiu dali sentindo uma leveza que não experimentava há anos. E, pela primeira vez em muito tempo, não se incomodou com isso.
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Atualizado até capítulo 52
Comments
Emily Silva
Já começo olha uhm o que ira acontecer
2025-02-26
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