Genevieve Ashford
O casamento estava marcado para o fim daquela semana. Eu não conseguia mais escapar do que estava prestes a acontecer, mas o pensamento que dominava minha mente não era o medo, e sim uma sensação desconcertante de incerteza. Sabia que minha vida estava prestes a mudar de forma irrevogável. E, no entanto, havia algo no ar, algo que me fazia questionar se o que eu via como inevitável não fosse, na verdade, apenas mais um obstáculo a ser superado com um pouco de destreza.
Quando finalmente vesti o vestido, ele parecia pesar mais do que eu jamais imaginei. A cor, um tom suave de marfim, realçava minha pele pálida, mas eu não conseguia deixar de pensar em como ele era apenas um lembrete do compromisso que eu estava prestes a assumir com Edward Blackwell. O peso do tecido não era nada comparado ao peso do meu próprio coração, que parecia apertado com a simples ideia de que aquilo tudo era real.
Minha mãe estava radiante. O grande evento, finalmente, estava à vista, e ela parecia totalmente imersa no glamour de tudo aquilo. Enquanto isso, eu mal conseguia manter os pensamentos no lugar. Cada passo na direção do altar parecia me aproximar não apenas de um homem que, até então, eu considerava insuportável, mas também de uma vida que eu nunca imaginei para mim. Como alguém tão independente e cheia de desejos de liberdade acabaria ali, em um casamento arranjado, com um homem cuja presença agora me causava um turbilhão de emoções?
Era uma pergunta que eu não conseguia responder, e a ideia de que a resposta estava mais perto do que eu imaginava só aumentava a minha ansiedade.
Na manhã do casamento, antes de sair para a igreja, a senhora Howard, minha governanta, estava verificando todos os detalhes enquanto eu me preparava. Ela, preocupada, entrava e saía da sala, ajustando cada pequeno detalhe, enquanto eu me observava no espelho, quase sem me reconhecer. Eu não queria ser a mulher que o destino havia escolhido para ser esposa de Edward, mas, ao mesmo tempo, a sensação de não ter mais controle sobre a minha vida estava me sufocando. O que aconteceria a seguir? Seria o casamento tão insuportável quanto eu imaginava?
E, como se os meus pensamentos tivessem se materializado diante de mim, a porta se abriu e, com o som dos seus passos firmes, Edward entrou. Ele estava absolutamente imponente. Vestido com um terno impecável, seus cabelos cuidadosamente arrumados e os olhos, aqueles olhos provocadores, que sempre conseguiam me desafiar de uma forma única.
— Pronta, Genevieve? — perguntou ele, com uma voz mais suave do que o normal, embora ainda carregada de uma provocação constante.
Eu olhei para ele, tentando manter a compostura, mas, honestamente, algo estava quebrando dentro de mim. Não sabia se era o nervosismo, a raiva, ou talvez a excitação de estar diante dele, mas me vi completamente desconcertada.
— Eu diria que estou mais do que pronta para isso. — respondi, tentando esconder a inquietação em minha voz.
Edward sorriu com aquele sorriso charmoso, que tanto odiava e, ao mesmo tempo, me fazia sentir algo inexplicável.
— Claro, você sempre foi uma mulher de ações e palavras afiadas. Não pensei que fosse se permitir demonstrar nervosismo.
Eu sabia que ele estava me provocando, como sempre fazia. Era o estilo dele. Fazer com que eu perdesse a calma, fazer com que eu revelasse mais de mim mesma do que eu queria. Mas eu não poderia deixar que ele me dominasse, não dessa vez. Respirei fundo e, com um sorriso forçado, me preparei para o que vinha.
Ele deu um passo à frente, e, sem avisar, pegou minha mão. O toque foi inesperado, mas eu não recuei. Era como se ele soubesse exatamente o que fazer para me fazer sentir a tensão crescente entre nós. Eu sabia que isso era apenas mais uma de suas provocações, mas, ainda assim, algo nele despertava em mim uma sensação desconfortável, mas intrigante.
— Genevieve, você sabe que posso ser encantador quando quero, não sabe? — disse ele, com um tom mais baixo, mais íntimo.
Tentei puxar minha mão, mas ele a manteve firme, olhando para mim com uma intensidade que eu não sabia como lidar.
— Não jogue esse charme em mim, Edward. Não estou em busca de encantos, e você sabe disso.
Ele riu suavemente, como se se divertisse com o que eu dizia.
— Você nunca se rende, não é? Sempre tão firme, tão independente… Mas, me diga, você não está um pouco ansiosa para ver como será este nosso futuro? Acha que vai ser assim tão fácil para você me desconsiderar? O casamento não vai ser uma brincadeira, Genevieve. Não da maneira como você imagina.
Eu respirei fundo. Ele estava certo, é claro. O casamento não seria uma brincadeira. Mas, no fundo, a questão não era se seria difícil ou não. Era o fato de que, de alguma forma, Edward tinha razão. Algo estava mudando entre nós. Ele não era mais apenas o homem arrogante e insuportável que eu conhecia. Algo em sua postura, no modo como ele falava comigo, estava começando a mexer comigo.
Antes que eu pudesse dizer algo, o som da carruagem se aproximando da entrada da casa me fez perceber que o momento estava chegando. Era hora de deixar tudo para trás. Era hora de seguir o que estava prestes a acontecer, sem volta.
— É hora — disse Edward, com uma suavidade na voz que me surpreendeu. Ele estava, de algum modo, tentando ser gentil, mas eu sabia que a gentileza dele estava entrelaçada com os jogos de poder que ele sempre jogava.
Eu olhei para ele, com o coração batendo forte, e antes que eu pudesse falar mais alguma coisa, ele se inclinou e sussurrou:
— Não pense que estou fazendo isso por você, Genevieve. Estou fazendo isso por nós. Por mais que eu odeie admitir, você também tem algo que eu preciso.
Minha respiração parou por um momento. O que ele queria dizer com aquilo? O que ele precisava de mim?
Ele não deu tempo para mais perguntas. Com um sorriso enigmático e uma expressão quase irreconhecível, Edward segurou minha mão com mais firmeza e me guiou até a porta. O corredor estava silencioso, como se o próprio ar estivesse tenso com a antecipação do que viria. Quando chegamos à escada, olhei para baixo e vi a multidão reunida, seus olhos fixos em nós, aguardando o momento exato para nos ver descer juntos. Eu, uma mulher que nunca se entregara a convenções, agora era o centro de um espetáculo que não pedira para ser parte.
— É agora — disse Edward, e sua voz, embora suave, tinha um tom que eu não podia ignorar.
Quando começamos a descer as escadas, o mundo parecia se desvanecer ao meu redor. O silêncio de todos os presentes, a tensão no ar, tudo me fazia sentir que estávamos prestes a encenar uma peça teatral, com papéis que, de alguma forma, eu não havia escolhido, mas que estava agora incumbida de interpretar. Edward, ao meu lado, parecia tão imponente quanto sempre, mas havia algo mais. Um brilho em seus olhos, algo que não conseguia definir. Ele estava ciente do poder que tinha sobre mim, e o fato de que eu estava, de certa forma, ceder ao que ele desejava, fazia com que a situação fosse ainda mais complexa do que eu imaginava.
Finalmente, chegamos à base das escadas, e, com um simples gesto, ele se virou para mim, com aquele sorriso de sempre, mas agora misturado com algo mais profundo.
— Vamos, Genevieve — disse ele, sussurrando, mas de uma forma que todos ao nosso redor ainda podiam ouvir. — O jogo começa agora.
Eu o olhei, sem palavras. Não sabia se deveria protestar ou simplesmente aceitar o que estava acontecendo. Mas o que poderia fazer? Ele já havia me colocado nesse caminho, e eu estava, de alguma forma, já ciente de que havia mais nisso tudo do que uma simples troca de alianças. Havia algo entre nós, algo que crescia e se enraizava, e eu, por mais que tentasse negar, sabia que não seria fácil apagar.
Ao entrarmos na grande sala, a visão das pessoas nos observando foi como uma pressão que caiu sobre meus ombros. Sentia os olhares pesando sobre mim, os sussurros silenciosos, mas poderosos, como se todos estivessem cientes do que estava prestes a acontecer e, ao mesmo tempo, indiferentes à minha dor. Ninguém sabia, ou se importava, que esse casamento não era algo que eu desejava. Todos viam a noiva deslumbrante, e o noivo imponente. Nenhum dos dois estava disposto a ser vulnerável diante de todos.
Edward, percebendo minha apreensão, deu um leve puxão na minha mão, como se tentasse me tranquilizar. Eu queria resistir, queria continuar a sentir a raiva que se formava em meu peito, mas a verdade era que, por mais que eu tentasse me manter distante, sua presença ainda mexia comigo de formas que eu não compreendia.
A cerimônia começou, e cada palavra proferida pelo padre parecia uma sentença. O simples fato de que eu estava prestes a me tornar a esposa dele parecia cada vez mais surreal, como se eu fosse uma peça de um tabuleiro de xadrez e Edward fosse o mestre jogando comigo.
— Genevieve Ashford, você aceita Edward Blackwell como seu esposo? — a voz do padre ecoou pela igreja, e, por um momento, tudo o que eu consegui fazer foi olhar para Edward.
Ele estava sério, seus olhos fixos nos meus, esperando uma resposta. Algo em seu olhar me desarmava, me fazia duvidar de tudo o que eu pensava saber sobre ele. Eu sabia que ele não queria este casamento por motivos puramente românticos, mas o que ele queria de mim, exatamente? Eu me perguntei, sentindo uma estranha mistura de raiva e confusão.
Eu respirei fundo e, antes que pudesse perceber, disse, quase como uma autossugestão:
— Eu aceito.
A palavra ressoou no silêncio da igreja, e, com isso, Edward sorriu novamente, mas desta vez, o sorriso era diferente. Ele não estava apenas ganhando. Ele estava fazendo exatamente o que queria, e eu, por mais que resistisse, sabia que de alguma forma, eu também já havia me entregado àquele jogo.
— Então, pelo poder investido em mim, eu agora vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
O beijo não foi suave como eu imaginara. Não foi o tipo de gesto que se espera de um momento como aquele, mas foi, sem dúvida, definitivo. Edward, com sua intensidade peculiar, não hesitou. Ele me puxou para ele de forma possessiva, como se o mundo ao redor não existisse mais. O beijo não foi romântico, mas sim um símbolo de algo que estava prestes a começar. Algo que, sem dúvida, mudaria a dinâmica entre nós de formas que eu ainda não entendia completamente.
Quando nos separamos, o olhar nos seus olhos era claro. Ele havia conquistado a primeira batalha, mas o que eu ainda não sabia era que ele não era o único a jogar. Eu também estava começando a entender o jogo, e estava determinada a não ser a peão que ele acreditava que eu fosse.
À medida que saímos da igreja, lado a lado, a multidão nos aplaudia, mas eu sabia que o verdadeiro jogo estava prestes a começar.
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Atualizado até capítulo 30
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