Natalie Ramos
Eu passei as mãos pelo cabelo, tentando domar a bagunça que ele sempre se tornava quando eu estava nervosa. O espelho me devolvia um reflexo inquieto, a ansiedade evidente nos meus olhos. Amanhã seria o grande dia: o primeiro passo real rumo à fertilização in vitro. Não era como se eu não soubesse o que esperar, mas a realidade da situação estava finalmente começando a me atingir com toda a força.
O contrato, as cláusulas, os cuidados... tudo parecia muito prático e frio no papel, mas agora, prestes a passar por exames, preparativos e todo o processo físico e emocional, era impossível não sentir um nó na garganta.
Eu me sentei na beirada da cama no quarto de hóspedes, um espaço que, apesar de luxuoso, ainda parecia frio e impessoal para mim. O cheiro de lavanda que enchia o ambiente deveria ser relaxante, mas só me fazia lembrar que eu não pertencia a esse lugar. Esse era o mundo de Ethan Black, o bilionário que me contratou para gerar seu herdeiro.
"Um simples acordo", eu repeti em minha mente, como se essas palavras pudessem me convencer de que era só isso.
Puxei o contrato da gaveta ao lado da cama e o folheei mais uma vez, como se as letras pequenas pudessem me dar alguma segurança. Cada detalhe estava ali: os pagamentos, as obrigações, a confidencialidade. Nada de emoções. Eu era apenas o meio para um fim. Não era isso que eu queria, afinal? Dinheiro suficiente para sair do buraco financeiro, pagar as dívidas da minha família e garantir um futuro melhor para mim e minha mãe.
Mas agora, conforme o dia do procedimento se aproximava, algo dentro de mim começava a se inquietar. Eu sempre soube que havia algo de estranho em Ethan, naquela maneira distante e controladora de ser. No entanto, conforme passamos mais tempo juntos, percebi que ele escondia muito mais do que deixava transparecer. Seus olhares silenciosos, suas respostas rápidas e contidas, tudo isso me fazia questionar se ele também estava tentando se convencer de que este era apenas um negócio.
Eu suspirei, jogando o contrato de lado. Isso não mudava nada. Eu sabia o que estava fazendo, e, se alguém aqui estava começando a complicar as coisas, esse alguém era eu. Não podia me permitir pensar em Ethan como mais do que o homem que me contratou. Não podia me permitir olhar para ele de uma forma que não fosse profissional.
A porta do quarto se abriu levemente, e eu virei, esperando ver um dos empregados, mas era Ethan. Ele entrou sem bater, como sempre fazia, sem se importar em pedir permissão. Ele era o tipo de homem que simplesmente tomava o espaço como seu.
— Está tudo pronto para amanhã? — ele perguntou, a voz tão neutra quanto possível.
Eu apenas assenti, tentando esconder o nervosismo que se agitava no meu estômago.
— Sim. Fiz todos os exames e segui as recomendações dos médicos. Amanhã começamos os preparativos mais específicos.
Ethan permaneceu em silêncio por um momento, os olhos dele me observando de um jeito que me deixava desconfortável. Ele sempre fazia isso — me olhava como se estivesse tentando decifrar um enigma, mas nunca revelava o que estava pensando.
— Quero que saiba que, independentemente do que acontecer, você será bem cuidada — ele disse finalmente, as palavras carregadas de uma formalidade que me irritava.
"Bem cuidada", pensei, com uma ponta de frustração. Era isso que ele achava que eu precisava ouvir? Eu não era uma criança. Eu sabia o que estava fazendo e sabia que, no final, tudo isso era parte de um plano maior. Um plano que não envolvia cuidar de sentimentos ou emoções.
— Obrigada, Ethan — eu respondi, sem emoção, tentando parecer indiferente.
Ele se aproximou mais, e por um momento pensei que fosse dizer algo mais, talvez algo pessoal. Mas, como sempre, ele permaneceu no limite de revelar qualquer coisa além do que o contrato obrigava. Era como se houvesse uma parede invisível entre nós, uma barreira que ele erguera há muito tempo e que eu nunca seria capaz de atravessar.
Ele deu um passo para trás, sinalizando que a conversa estava encerrada.
— Descanse. Amanhã será um dia longo.
Eu acenei enquanto ele saía do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si. Assim que ele se foi, deixei escapar um longo suspiro. Tudo entre nós sempre parecia tão controlado, tão medido, como se estivéssemos dançando em volta de um precipício, evitando cuidadosamente cair. Eu sabia que o contrato era claro, que não deveria haver espaço para nada além de uma transação, mas, no fundo, não podia deixar de me sentir um pouco vazia com essa distância calculada.
Me virei de volta para o espelho, encarando meu reflexo mais uma vez. Não havia como voltar atrás agora. Amanhã, eu daria início ao processo que mudaria minha vida para sempre. Não só porque garantiria a segurança financeira da minha família, mas porque, de alguma forma, eu sabia que estava prestes a entrar em um território emocionalmente perigoso.
Ethan tinha seus segredos. Ele tinha suas razões para querer um filho sem envolver o amor ou o afeto de outra pessoa. Eu não sabia exatamente o que o tinha feito se fechar dessa forma, mas algo em mim queria entender. Queria saber o que havia por trás dessa fachada impenetrável que ele exibia. Queria saber se, em algum momento, ele também se perguntava se tudo isso era apenas um negócio.
Mas, por enquanto, isso era irrelevante. O contrato estava em vigor, e o primeiro passo já estava marcado. Eu só precisava me concentrar em fazer o que me propus a fazer.
Fechei os olhos, tentando acalmar meus pensamentos.
Amanhã, tudo começaria de verdade.
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Atualizado até capítulo 104
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