Ethan Black
Eu observei Natalie enquanto ela conversava com a enfermeira. Seus olhos brilhavam de uma forma que eu não via há muito tempo. Havia algo em sua determinação e força que me atraía, mesmo que eu não estivesse disposto a admitir. Mas eu sabia que precisava manter o foco no plano. Era o melhor para ambos. Não podíamos deixar que sentimentos ou distrações atrapalhassem o que estava em jogo.
Assim que a enfermeira saiu da sala, Natalie se virou para mim, ainda sorrindo, embora eu pudesse ver que a ansiedade a acompanhava.
— Tudo parece estar indo bem, mas agora é só esperar pelos próximos exames e ver como vamos seguir adiante — ela disse, os braços cruzados na altura do peito, como se quisesse se proteger do que viria a seguir.
Eu me aproximei, tentando ser a âncora que ela precisava. Toquei seu ombro levemente, sabendo que eu deveria ser mais solidário, mais envolvido. Mas, ao mesmo tempo, havia uma barreira que eu mesmo erguia entre nós dois. Isso ainda era um negócio. Era o que eu repetia a mim mesmo. Não havia espaço para confusão.
— Vamos conseguir, Natalie. Você está fazendo um excelente trabalho. — As palavras saíram mais frias do que eu pretendia, mas eram sinceras. Ela realmente estava se dedicando a esse processo de uma forma que eu não esperava.
Ela me lançou um olhar curioso, como se estivesse tentando entender o que passava pela minha mente. Eu odiava isso. Odiava como ela conseguia, de algum jeito, atravessar as barreiras que eu tentava manter. Era como se enxergasse além do Ethan Black impenetrável que todos viam e fosse diretamente para o homem que, no fundo, ainda se debatia com cicatrizes do passado.
Mas isso não importava agora.
Quando saímos da clínica, o silêncio entre nós era quase ensurdecedor. Dirigi de volta para casa com os pensamentos fervilhando, mas sem querer expressá-los. Natalie, por sua vez, parecia estar absorta em seus próprios pensamentos, observando a paisagem que passava pela janela, como se estivesse procurando respostas nas árvores e prédios ao longo do caminho.
Ao chegarmos na casa, ela hesitou na porta, girando lentamente para me encarar.
— Ethan, precisamos conversar sobre as próximas etapas — disse ela, sua voz calma, mas firme.
Eu sabia que esse momento chegaria. Nós tínhamos discutido os termos do contrato de maneira lógica e fria, mas agora que estávamos prestes a entrar na fase mais delicada do processo, tudo parecia mais... real.
— O que exatamente você quer discutir? — perguntei, já me preparando para o que viria.
— Eu só quero garantir que estamos na mesma página sobre tudo. Isso vai além de exames e consultas. A partir de agora, há uma série de cuidados, expectativas e... bem, incertezas. Eu preciso saber o quanto você está envolvido nisso — sua voz vacilou levemente no final, revelando uma vulnerabilidade que ela tentava esconder.
Eu respirei fundo, esfregando a mão na nuca. Não era que eu não estivesse envolvido. Eu só tinha uma maneira diferente de lidar com as coisas. Para mim, tudo era questão de controlar variáveis. E o que Natalie queria era controle emocional, algo que eu não estava disposto a ceder completamente.
— Estou aqui, Natalie. Não tenha dúvidas disso. Eu quero que isso funcione tanto quanto você — respondi, tentando soar firme, mas havia uma hesitação que eu mesmo não conseguia esconder.
Ela olhou para mim por um longo momento, como se estivesse pesando minhas palavras, tentando decidir se acreditava nelas. Então, finalmente, deu um leve sorriso, mas era um sorriso cansado.
— Certo. Vamos seguir em frente então. Espero que isso funcione da forma que imaginamos — disse ela, sua voz calma, mas ainda assim incerta.
Eu a observei enquanto ela subia as escadas, e, pela primeira vez em muito tempo, me senti verdadeiramente perdido. O controle que eu tanto prezava estava escapando pelas minhas mãos, e eu não sabia como recuperá-lo.
Voltei para o escritório, onde me refugiei sempre que o caos interno começava a se agitar. A papelada estava espalhada pela mesa, projetos que eu deveria estar cuidando, mas minha mente estava distante. A ideia de um herdeiro sempre me pareceu uma solução simples para meus problemas. Um filho garantiria que meu legado continuasse, sem a necessidade de envolvimento emocional. E, de certa forma, eu acreditava que essa distância emocional protegeria tanto a mim quanto a Natalie.
Mas havia algo mudando. E essa mudança me deixava inquieto.
Natalie não era como eu esperava. Ela não era apenas uma mulher desesperada por dinheiro ou uma pessoa disposta a fazer qualquer coisa por um contrato. Havia uma força nela que me desafiava, uma vulnerabilidade que me comovia de formas que eu não queria reconhecer. Ela estava se tornando mais do que uma parte desse acordo. E isso me apavorava.
Eu me joguei na cadeira de couro, esfregando as têmporas, tentando afastar as sensações que borbulhavam sob a superfície. Sentimentos que eu não podia permitir que se enraizassem.
O telefone no canto da mesa vibrou, me arrancando dos meus devaneios. Era uma mensagem do médico, com os resultados preliminares dos exames de Natalie. Rapidamente, abri o relatório, escaneando os números e informações.
Tudo parecia dentro do esperado. O corpo de Natalie estava em condições perfeitas para o processo de fertilização. Isso deveria ser um alívio, mas, em vez disso, senti um aperto no peito.
Ela estava prestes a se tornar a mãe do meu filho. Um herdeiro que garantiria que meu nome e minha fortuna continuassem. Esse era o plano, o acordo, o contrato. Mas, de alguma forma, a simplicidade disso estava se perdendo no meio de todas as complicações emocionais que surgiam.
Desliguei o telefone e encarei o teto por um longo tempo, tentando encontrar clareza em meio ao caos que se formava dentro de mim. A cada passo que dávamos, o controle que eu tanto prezo parecia cada vez mais distante.
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Atualizado até capítulo 104
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