Capítulo 05 - Um dois pra lá, um dois pra cá

  Sua mãe o estava olhando da mesa de jantar, ela parece ter sentido sua falta quando ele não apareceu para almoçar.

— Onde você estava na hora do almoço Allexander? — Perguntou Raquel. — Mais importante ainda, você comeu alguma coisa além do café da manhã?

— Eu comi sim, um pouco de bolo. — Respondeu Allexander.

  A duquesa apenas levanta uma de suas sobrancelhas, ela não foi convencida, e ele prescisa agora comer muito mais do que comeria normalmente no jantar.

— Como você não almoçou e nem comeu nada durante toda a tarde, só poderá sair daqui depois de terminar de comer dois pratos inteiros. — Comando Raquel, ela obviamente não aceitaria um "não" como resposta.

 Aceitando seu destino Allexander colocou mais comida em seu prato até sua mãe acenar com a cabeça aceitando a quantidade de comida posta ali.

— Mãe, você sabe mais sobre o baile que irá acontecer? Só me avisaram que iria acontecer daqui a alguns dias e os príncipes estariam lá. — Puxou assunto, talvez assim distraira sua mãe o suficiente para que ele consiga diminuir um pouco a montanha que seu prato se tornou.

— Não a muito que precise saber, apenas irá ser mais um baile como qualquer outro. Talvez eles mostrem que tem mais um herdeiro escondido em algum lugar. — Fala a duquesa um pouco animada. — Até hoje me lembro que no baile real o príncipe, agora rei, foi mostrado para o mundo pela primeira vez, você tinha que ver o rosto da rainha, pensei que ela iria explodir aquele castelo.

— Sim, eu me lembro dessa história, mas é difícil fazerem esse tipo de coisa hoje em dia, saiu de moda. — Responde Allexander, enquanto coloca outro bocado de comida em seu prato por ordem de sua mãe.

— Mesmo que tenha saído de moda ainda é muito possível de acontecer, há muitas vantagens em esconder um de seus herdeiros.

— É falhar miseravelmente?

— Verdade, isso acontece também. — Disse Raquel, se virando para Caius enquanto ele come silenciosamente. — Mas e você? Já foi a algum baile alguma vez?

 Em resposta o corvo discorda com a cabeça, nunca falando quase nada em direção aos adultos, Allexander desconfia um pouco desse comportamento, mas logo o dispensa, esse garoto só deve ser muito tímido.

— Então o seu primeiro será daqui a cinco dias, espero que esteja preparado.

— O QUE!? Ele também vai vir? Pensei que era apenas eu. — Indagou Allexander, a viagem de carruagem da mansão ao castelo demora cerca de quatro horas, eles terão que ficar juntos no mesmo local por quatro horas?

— Allexander não grite, e sim ele irá com você, qual seria seu problema com isso?

— Bem, como ele nunca foi provavelmente não saberia dançar ou se comunicar, os outros não deixaram isso quieto tão facilmente. — Tenta convencer sua mãe, talvez ela entenda que ele consegue ir sozinho sem nenhum problema e não precisaria da companhia de ninguém.

— Você pode ajudá-lo.

— O que?

— Exatamente como eu disse, ajude-o, ele vai precisar e como você já aprendeu já a muito tempo, consegue sem dificuldade ensiná-lo. — Responde Raquel, indicando Caius que parece empolgado para aprender.

— Mas, por que eu? Não e mais fácil contratar alguém para esse cargo? Só falar com o professor Vincent, ele pode ajudar. — Falou Allexander, talvez assim ele consiga convencer sua mãe a mudar de ideia, mesmo que ele saiba que não irá funcionar.

— Não tem nenhum problema em você ensiná-lo, e irá ser uma ótima ajuda para que vocês consigam melhorar na convivência. — Responde a duquesa com um sorriso que acentua suas sardas, deixando vagas todas as perguntas que seu filho havia feito a poucos momentos atrás. — O que acha dessa ideia Caius? Gosta dela?

— Sim, vossa excelência.

— Mas, se-

— Allexander, apenas aceite, não será o fim do mundo para você. Pode ensiná-lo amanhã depois do café, já que não terá nenhuma aula.

 Com a resposta final de sua mãe ele não discute mais, será apenas preciso ensinar alguns passos para um lado, e depois para o outro, tendo que girar algumas vezes é acabou. Sem dificuldade, sem demora, apenas ir e fazer.

 De certa forma não será o fim do mundo.

...----------------...

 Ele estava errado, é o fim do mundo, não ele não está sendo dramático ou qualquer coisa do tipo. Mas, pensar tê-lo tão perto faz todo seu corpo se arrepiar como se alguém tivesse usado algum feitiço de elétrico nele, ou pior, jogado todo um raio que caia na sua cabeça e passava sem demora por todo o seu corpo. É horrível, e ele só quer terminar isso o mais rápido possível.

 Ele e o corvo estão em uma sala de dança, que também funciona para aprender algumas coisas de etiqueta e uma vez ele veio aqui para enxergar as estrelas cadentes. O cômodo tem a aparência clara e fofa, em um aspecto totalmente diferente da própria mansão, as paredes são pintadas em um rosa pastel, com alguns pequenos quadros encima da porta cheios de imagens com florestas ensolaradas e riachos cristalinos, mas, o que realmente chama a maior atenção em toda a sala são suas grandes janelas, totalizando três, que quase tocam o chão e quase batem no teto, junto das grossas e pesadas cortinas vermelhas claras.

 A vista dali e linda, dando a qualquer um a sensação que poderia até mesmo enxergar do reino deles até os confins mais profundos do céu, de dia as coisas são simples, sol e nuvens que passam com calma, mas a noite, as estrelas fagulham no céu como chamas eternas e a lua as acompanha sendo a cuidadora de cada uma delas.

— Oi? — Fala uma vozinha excitante, e quem disse foi o corvo, que apenas fica ali em silêncio esperando que seu devaneio se dissipe.

— Vamos aprender como dançar logo, já que minha mãe quer tanto isso. — Diz agressivamente Allexander, parece que quando ele fala com raiva ou qualquer outro sentimento perto disso ele consegaguejar sem gaguejar, mesmo que sinta que não pode fazer isso para sempre.

 O garoto acena com a cabeça, parecendo que se ele abaixasse a cabeça dele o chão quebraria apenas com suas ciscadas rápidas.

— Venha aqui e fique na minha frente. — Comanda ele, mas, no fundo ele genuinamente quer que o garoto seja um aprendiz rápido é que não quebre o seu pé.

 O corvo segue o seu comando, ficando na sua frente e o olhando com expectativa, fazendo Allexander fechar a cara e usar o máximo de si para esconder seu nervosismo.

— Coloque a mão na minha cintura.

  O garoto demostra nervosismo com isso, parecendo que os dois estão compartilhando o mesmo sentimento só que com motivos diferentes.

— Vamos. — o corvo ainda excita. — Deixa que eu faço isso então.

"Vamos lá garoto, quero que isso acabe rápido igual a você, então colabora. " Pensa Allexander, quase colocando seus próprios pensamentos para fora.

 Quando a mão se enrosca em sua cintura um frio estranho se apodera dele, não igual ao do escritório de seu pai onde com uma conversa rápida ele consegue sair dali e ir se esquentar, mas sim como se um medo congelasse todos os seus pensamentos, suas asas se tornaram mais pesadas e sua respiração parece sair pequenas nuvemzinhas que sobem por seu rosto.

 A mão em sua cintura aperta um pouco, e vendo o pequeno corvo, que por alguns segundos faz seu coração doer como se algo o apertasse e tentasse quebrar de alguma forma, sua atenção volta, ele precisa se concentrar e terminar logo, sem sair correndo para se esconder em algum canto remoto de novo. Respirando fundo, ele continua.

— Você vai um, do-dois e gira, logo depois um, dois e gira de novo, sem ficar no mesmo lugar. Simples não? Só tome cuidado p-para nã-não pisr no pé de s-sua pa-parce-ira.

 Os dois repetem esse movimento, girando e girando, Allexander até que conseguiu um resquício de leveza em seu coração nesse meio amontoado em sua cabeça, parece que o garoto aprende rápido-

— AI! Falei para você tomar cuidado onde pisa, quer quebrar meu pé? — Diz ele, talvez com raiva, talvez com dor, ou alguma mistura estranha dos dois que ele mesmo não consegue perceber agora.

— Desculpa, desculpa, jovem mestre. — Fala o corvo, seu corpo se encolhe, como se isso ainda fosse possível, abaixa sua cabeça e começa a tremer como se esperasse algo acontecer.

 — Preste mais atenção, se ficar pisando no pé do seu parceiro a única coisa que vai conseguir e ficar na parede durante todo o evento. — Diz Allexander, segurando a mão do garoto com mais força. — Vamos de novo.

 Eles dançam por mais algum tempo, até seus pés doerem por todas as voltas que eles dão em volta do salão e o garoto finalmente pegar o jeito.

— Pronto, pronto, agora já está bom por hoje. — Fala Allexander, retirando qualquer contato com o corvo e se virando pro outro lado da sala.

— Fui bem? — Perguntou o garoto, demonstrando grande vontade de ser elogiado.

— Foi, foi, só não tente esmagar o pé de seu parceiro de dança e vai ficar tudo bem. — Responde ele, enquanto se deita no chão gelado para deixar seu corpo quente esfriar um pouco, enquanto estica suas asas, deixando penas marrons e brancas se espalharem da forma que quiserem.

 Ele escuta alguém também se deitando abaixo de seus pés, e como não poderia ser um fantasma de algum ancestral seu só poderia ser o corvo. Levantando sua cabeça da de cara com o garoto imitando sua posição, que também está virado para ele.

— O que é? Tem alguma coisa engraçada na minha cara? — Fala Allexander, usando uma voz mais mal-humorada para não ter o risco de gaguejar.

— Não, eu só gostei de passar esse tempo com você. — Responde o garoto, enquanto tira os olhos dele e se vira para cima, vagando em pensamentos desconhecidos.

 Allexander apenas arquei sua sobrancelha sem comentar nada, talvez ficar em silêncio irá deixar seus sentimentos mais quietos e finalmente conseguirá relaxar um pouco sem sentir a respiração prestes a parar de funcionar.

 Sem perceber eles haviam dançado por horas, deixum passooras passarem entre uma passo a outro, fazendo a sala cor de rosa se transformar em vários tons alaranjados e avermelhados, dando uma certa sonolência nos dois indivíduos deitados, em completo silêncio deixando as sombras e o tempo falarem por eles.

 Allexander suspira, o garoto aprendia rápido, rápido até demais, talvez mais uma ou duas aulas já o deixaria pronto o suficiente para o dia do baile e o resto conseguiria aprender sozinho. Ainda com as pernas um pouco cansadas decidiu ficar ali por mais um tempinho, apenas olhando para o lustre cheio de velas novas que a muito tempo não foram acessas.

— Como é um baile? — Pergunta o corvo, tirando ele de sua distração.

— É simples. — Responde ele calmante, ainda distraído pelo lustre e apenas deixando as palavras saírem da sua sem pensar. — Você conversa com algumas pessoas, disputa quem tem sorrisos e risos mais falsos, bem, ainda somos crianças, então nossos "bailes" são bem mais fáceis que os dos adultos.

— Tem diferenças?

— Parece que sim, sempre que meus pais voltam eles estão cansados demais até para piscar os olhos, acho que quando crescermos as coisas não irão mudar muito. — Continua ele, mas em seus pensamentos se pergunta quantos anos esse lustre está ai? Ou, será que deram de presente? Talvez, ele esteja perto de cair no sono.

— Os bailes não parecem mais tão interessantes assim.

— Eles não são..., na verdade são apenas cansativos e chatos.

 "É parece que o lustre foi um presente." Concluí ele, vendo ali marcado algo que parece a marca de uma das casas, mas ele não está com vontade de chegar mais perto para saber o que é.

— O príncipe estará lá?

—… não sei..., talvez? — Todo o corpo dele se torna um pesado demais mesmo estando deitado no chão, o nervosismo que passou parece estar querendo cobrar o seu preço agora.

— Está com sono? — A voz do garoto se torna mais distante, como se estivesse escutando tudo debaixo d'água.

— Hm, parece que sim...

— Bons sonhos, estarei esperando você acordar.

 Com essa última frase Allexander cai profundamente no sono, sem ter nenhum sonho o acompanhando por esse tempo, apenas o frio do chão duro e a escuridão sem fim.

Capítulos
1 Prólogo
2 Capítulo 01 - Um dia comum, mas cheio de sentimentos estranhos
3 Capítulo 02 - Primeiras impressões são fáceis, até você sair correndo
4 Capítulo 03 - Conversas podem fluir no jantar se você ter ajuda pra conversar
5 Capítulo 04 - Tudo é um aviso, só não aguento mais recebê-los.
6 Capítulo 05 - Um dois pra lá, um dois pra cá
7 Capítulo 06 — Um dia que pode ser resumido em monótono...
8 Capítulo 07 — Sonhos são estranhos, tudo tem significado, mas muitas vezes não
9 Capítulo 08 — Pássaros podem ser cobras se tiverem o disfarce perfeito
10 Capítulo 09 - Cantam como caixinhas de música e tremem como trovões.
11 Capítulo 10 - A chuva pode fazer até pássaros diferentes se divertirem
12 Capítulo 11 - Um dia de folga, um novo problema, um dos dois terá um fim rápido
13 Capítulo 12 - Como um jarro pode ser usado como instrumento?
14 Capítulo 13 - Antigas casas não podem ser sempre chamadas de lares
15 Capítulo 14 - Visitas não muito tranquilas e conversas superficiais
16 Capítulo 15 - Traidor
17 Capítulo 16 - Um canto esquecido conta suas próprias histórias
18 Capítulo 17 - Um buraco escondido contra suas próprias lendas
19 Capítulo 18 - Saindo de um esconderijo e entrando em uma farsa
20 Capítulo 19 - Roubar coisas e conversar sobre outras
21 Capítulo 20 - Pesadelos que enlouquecem aos poucos
22 Capítulo 21- Fatos sobre assassinato e cansaço sem fim
23 Capítulo 22 - Um sentimento de culpa que não deveria existir
24 Capítulo 23 - Pássaros mortos não podem cantar
25 Capítulo 24 - A ilusão da segurança
26 Capítulo 25 - Conversar com um urubu e o mesmo que falar com uma porta
27 Capítulo 26 - Conversas atrás de conversas, talvez um plano saía daí
Capítulos

Atualizado até capítulo 27

1
Prólogo
2
Capítulo 01 - Um dia comum, mas cheio de sentimentos estranhos
3
Capítulo 02 - Primeiras impressões são fáceis, até você sair correndo
4
Capítulo 03 - Conversas podem fluir no jantar se você ter ajuda pra conversar
5
Capítulo 04 - Tudo é um aviso, só não aguento mais recebê-los.
6
Capítulo 05 - Um dois pra lá, um dois pra cá
7
Capítulo 06 — Um dia que pode ser resumido em monótono...
8
Capítulo 07 — Sonhos são estranhos, tudo tem significado, mas muitas vezes não
9
Capítulo 08 — Pássaros podem ser cobras se tiverem o disfarce perfeito
10
Capítulo 09 - Cantam como caixinhas de música e tremem como trovões.
11
Capítulo 10 - A chuva pode fazer até pássaros diferentes se divertirem
12
Capítulo 11 - Um dia de folga, um novo problema, um dos dois terá um fim rápido
13
Capítulo 12 - Como um jarro pode ser usado como instrumento?
14
Capítulo 13 - Antigas casas não podem ser sempre chamadas de lares
15
Capítulo 14 - Visitas não muito tranquilas e conversas superficiais
16
Capítulo 15 - Traidor
17
Capítulo 16 - Um canto esquecido conta suas próprias histórias
18
Capítulo 17 - Um buraco escondido contra suas próprias lendas
19
Capítulo 18 - Saindo de um esconderijo e entrando em uma farsa
20
Capítulo 19 - Roubar coisas e conversar sobre outras
21
Capítulo 20 - Pesadelos que enlouquecem aos poucos
22
Capítulo 21- Fatos sobre assassinato e cansaço sem fim
23
Capítulo 22 - Um sentimento de culpa que não deveria existir
24
Capítulo 23 - Pássaros mortos não podem cantar
25
Capítulo 24 - A ilusão da segurança
26
Capítulo 25 - Conversar com um urubu e o mesmo que falar com uma porta
27
Capítulo 26 - Conversas atrás de conversas, talvez um plano saía daí

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