Nervos à Flor Da Pele

Talvez fosse pelo excesso de energia gasta com tantas lágrimas ou simplesmente pelo fato de eu estar querendo fugir da realidade, que acabei entrando em um sono profundo no carro de Christopher.

Senti o tranco do carro ao frear. Abri os olhos lentamente, olhando ao redor. Já era noite e, dessa vez, as estrelas brilhavam cintilantes no céu. A brisa gélida causou arrepios sobre a minha pele, fazendo com que os pelos dos meus braços e pescoço se eriçassem. Enquanto passava o olhar sobre toda aquela paisagem belíssima, reconheci onde estávamos: Daytona Beach, a mais de 200 quilômetros de São Petersburgo. Observei sobre a janela do motorista, um pequeno trailer adorável de cachorro-quente que mantinha distância da margem do bar, encostado perto de grandes pedras firmes. Christopher fazia um pedido para o atendente que usava um característico chapéu vermelho. 

As dúvidas pairavam sobre a minha mente, ligadas ao fato de estarmos tão longe de casa, mas, apesar do sentimento ser um tanto estranho, eu não sentia medo. 

O frio atingiu cada célula de meu corpo e foi nesse momento que olhei para meus ombros nus e percebi que eu ainda continuava de toalha, o tecido estava muito bem preso sobre o meu corpo, mas ainda fazia com que eu me sentisse exposta. 

Fechar as janelas do carro era a maneira mais eficaz de cortar o frio, mas eu não queria. Todo aquele ar puro e levemente salgado adentrando minhas narinas causava uma certa leveza. 

Assisti Christopher pegar uma nota e entregar para o atendente, agradecendo com seu sorriso avassalador. O sorriso de um homem que não parecia esconder tantos segredos sombrios.

Ele veio na direção do carro, sentando-se no banco do motorista enquanto colocava os dois cachorros quente e algumas garrafas de água mineral sobre a superfície que apoiava o volante. 

Olhando em seus olhos pela primeira, sem estar consumida pela luxúria, reparei nos quão enigmáticos pareciam, carregando dores que eu talvez nunca descobrisse quais eram, mas que pareciam intensas demais. Ele havia me dito que não usava máscaras, mas agora eu conseguia enxergar de fato que, por trás de toda a sua personalidade desinibida, confiante e canalha, havia sombras do seu passado que nunca se dissiparam. 

Eu conseguia enxergar, porque sabia exatamente como era o sentimento. 

Christopher apanhou no banco detrás, duas grandes sacolas estampadas com a logo de uma loja luxuosa e muito conhecida na Flórida. Ele ofereceu-as a mim, e eu, mesmo confusa, aceitei. Quando peguei o conteúdo vindo de dentro das sacolas, sorri em agradecimento. 

Era um suéter azul, aparentemente muito confortável, uma mom jeans e um par de tênis belíssimos. 

— Não se engane, isso não é um presente. Eu só não quero que você morra de hipotermia antes de chegarmos no nosso destino. — Explicou, dando uma mordida em seu cachorro-quente e afastando o outro para perto de mim. 

Coloquei o suéter sobre a toalha, e quando meu busto estava completamente coberto, desci o tecido até meus quadris. Então, segurando a calça em mãos, refleti sobre uma maneira discreta de colocá-la, sem me mexer demais. Quando finalmente consegui, agradeci mentalmente por aquela missão ter terminado. Era algo muito difícil de se fazer em um carro, mesmo se fosse um espaço como aquele. 

Após eu finalmente me trocar, Christopher abriu o teto do carro.

Peguei o meu cachorro-quente e considerei aquilo um jantar estranho. Christopher tinha dinheiro o suficiente para comermos em um restaurante com estrelas Michelin, mas preferiu uma simples refeição de rua. Ele estava com medo de sermos pegos? 

Eu não questionei, é claro, estava faminta e comeria até mesmo pedras, se elas não fossem tão rígidas. 

— O que está acontecendo, Christopher? — Questionei séria, evitando contato visual e focando minha atenção na água, que se estendia em uma escuridão profunda, iluminada apenas pela escassa luz natural. As ondas do mar sussurravam sua ameaça de avançar, mas recuavam antes mesmo de tentar seguir adiante.

Pude ouvir seus suspiros ao relaxar as costas no estofado do banco. Eu não o conhecia direito, mas sabia que ele não estava realmente relaxado. 

— Não é tão difícil de adivinhar. Você é uma mulher morta, Sara.

Arqueei as sobrancelhas, absorta no som calmo vindo do mar. A frase deveria ter me causado medo ou ao menos arrepios, mas nada disso aconteceu. Eu não sabia da situação, não sabia quem eram aqueles homens, ou o que era o maldito império Volkov, no entanto, desde o momento em que aquele homem, agora morto, me viu sobre a escada, eu sabia que um grande alvo estava estampado sobre a minha testa. O cansaço dominava tudo em mim, impedindo que qualquer indício de desespero invadisse. 

— Eles estão mortos agora, não estão? Pensei que eles eram o perigo, a menos que esse seja você. 

Senti a risada fraca de Christopher flutuar sobre o ar e se dissipar lentamente. 

— Estão mortos, mas cada passo que deram foi monitorado por uma equipe gigantesca de caras como eles. Agora, você é um alvo. — A voz do homem carregava uma seriedade assustadora, imune de qualquer pingo de ironia. Essa observação foi como um arrepio percorrendo minha espinha, agora eu podia perceber que toda aquela situação de fato preocupava Christopher.

A curiosidade de desvendar mais sobre o que estava acontecendo atingiu-me agressivamente. Quem sabe, informada, eu pudesse encontrar uma maneira de sair da bagunça em que me meti graças a Christopher.

Me virei para ele, fixando meu olhar no seu e cruzando os braços, deixando com que minhas sobrancelhas de encontrassem no vinco que se formou no meio da minha testa.

— E você, mesmo matando os três, não é. Isso tem ligação com o fato de ser herdeiro do império Volkov? 

Christopher franziu o cenho. 

— Não é da sua conta. 

— É claro que é. Estou com um alvo sobre as minhas costas, devo ao menos saber exatamente quais circunstâncias me levaram a isso! — Giro meu corpo, apoiando meu braço no topo do banco. Assisto o corpo de Christopher enrijecer, mas isso pouco me importava. — A única coisa que eu sei é que não deveria ter acesso à informação de que você é um Volkov, mas por qual motivo? 

Minha voz se mantém equilibrada e eu tenho a sensação de que isso foi o que mais irritou Christopher, o fato de ele não entender a minha postura diante dos acontecimentos.

Ignorando brutalmente as minhas perguntas, ele sai do carro, causando um estrondo ao bater a porta. Recusando-me a aceitar seu silêncio e determinada a obter respostas, sigo atrás dele. 

O vento forte ataca meus cabelos, que agora voltavam a sua ondulação natural. Com os fios esvoaçando sobre meu rosto, mantenho minha pisada firme sobre a areia fina enquanto sigo o homem a alguns passos de mim. Christopher parecia não ser nem um pouco afetado pela ventania, andando com sua postura impecável. 

— Eu mereço saber, Christopher! — Exclamo, meus tênis novos sendo soterrados na areia fina. 

Ele se vira para mim e continua andando de costas, abrindo os braços e esboçando um sorriso claramente irritado. 

— Você não tem opção! 

Meus dentes são pressionados de maneira dolorida um contra o outro, uma maneira tola de controlar os sentimentos para que eles não sejam expostos de uma maneira violenta. 

Apresso o passo, cada vez mais perto do Harrington, ou Volkov... Sinceramente, não faço ideia se seu verdadeiro nome é de fato Christopher. 

— Foi você quem me meteu nessa situação, você me deve isso!

De repente, Christopher abaixa os braços e para, seu semblante contendo uma fúria perigosa. Seus olhos verdes, normalmente tão brilhosos e profundos, agora parecem queimar como brasas de fogo, prestes a incendiar tudo ao redor. 

Eu acompanho seu passo, parando segundos depois. Nossos corpos mantêm certa distância, e eu sinto que é melhor assim. 

— Não tente jogar a culpa de seus próprios atos sobre mim, Sara. Foi você que meteu seu nariz onde não foi chamada. 

Agora, é ele quem se aproxima, me fitando com asco. 

Mantenho minha postura ereta e levanto mais o queixo para que pudesse encarar diretamente em seus olhos. 

Ele estava enganado se achava que ela o único capaz de ser ameaçador.

— Você queria o quê? Que eu ficasse a manhã inteira no seu quarto? — Exponho, irritada e com o tom de voz desafiador. 

— Deus do céu, não faça com que eu me arrependa de ter te salvado! 

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Comments

Maria Luísa de Almeida franca Almeida franca

Maria Luísa de Almeida franca Almeida franca

acho que o avô dele deve ser um mafioso

2024-12-10

0

Alessandra Almeida

Alessandra Almeida

nananinanão, quem mandou ser curiosa e ficar escutando a conversa alheia 😒🤔

2024-11-12

1

Fernanda Marins

Fernanda Marins

😃😃😃

2024-03-07

3

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