Caminho Sem Saída

Meus olhos se arregalaram e tentei equilibrar minha respiração, que dobrou de velocidade quando Christopher verificou se o que o homem falou era verdade. Ele negou com a cabeça, esfregando sua própria testa, irritado. 

— Mesmo se eu matá-la, vocês vão continuar enchendo a porra do meu saco. — Minha boca se entreabriu pela confusão. Ele não estava falando sério, estava? Não, não podia. Provavelmente era só uma pegadinha de mal gosto para me assustar. 

Não! Nem mesmo eu acreditava nas mentiras que tentava mentalizar para que meu peito se acalmasse um pouco. 

— Tem razão, mas não se esqueça, senhor Volkov, da ordem que nos deu sobre exterminar qualquer um que descobrisse sua identidade. — O homem apontou para mim, os olhos dele eram como livros que contavam histórias sobre os atos cruéis que era obviamente capaz de fazer. 

Christopher me olhou de relance, mordendo o lábio inferior e passando os dedos por entre seus fios de cabelo negros. Os seus nervos pulsavam sobre a testa. 

Nada em seu rosto indicava que ele sentia empatia por mim, ou que tentaria me proteger. 

Tentei me mover, mas meus pés estavam grudados no chão. 

Isso não podia estar acontecendo de novo. 

Olhei para trás, o quarto de Christopher agora estava mais claro pelos raios solares que aumentaram de intensidade. A janela era grande o bastante para que eu conseguisse passar com facilidade, e a altura não parecia tanta. Mesmo se fosse, se estes homens estivessem falando sério, eu preferia quebrar alguns ossos a morrer. Voltei minha atenção aos 4 homens e me assustei ao perceber que dois deles vinham correndo em minha direção, com passos fortes e amedrontadores. Obriguei meus pés a reagirem e corri até a porta do quarto. 

Estava tão perto, apenas poucos metros de mim, mas parecia que a cena corria em câmera lenta e isso atrasava completamente meus passos. Olhei para trás, os dois homens já estavam nos últimos degraus, me forcei a ir mais rápido, alcançando finalmente a porta e, no mesmo instante, fechando-a. Continuei minha fuga, tentando abrir a janela a todo custo e até mesmo quebrando uma unha na quina, fazendo com que sangue escorresse de meu dedo. Meu coração pulsava tão rápido que senti por um momento que ele sairia do meu corpo. Com um último esforço, consegui abrir a janela, coloquei as pernas sobre o batente e o vento soprou agressivo sobre meu rosto, desafiando-me a olhar para baixo, mas antes que pudesse me lançar para fora, fui brutalmente arrancada do parapeito e lançada de volta ao piso gélido do quarto.

A toalha, agora sem o seu precário suporte, deslizou pelo meu corpo, expondo um seio. Os homens demonstraram frieza e sequer se importaram com isso, levantando-me e fincando seus dedos sobre meus braços, matando qualquer chance que eu pudesse ter de me desvencilhar deles. 

Eu não gritei, sequer chorei ou supliquei por ajuda, afinal ninguém podia me ajudar. Seja lá o que fosse esse tal império Volkov, Christopher estava envolvido e eu sabia muito bem que ele não me ajudaria. 

Os homenzarrões desceram as escadas comigo, pressionando-me para que eu fosse mais rápido, mas eles eram tolos se achavam que eu iria simplesmente adiantar minha morte.

Eles me puseram à frente de Christopher, que me encarava. Mesmo que tudo o que menos quisesse fazer agora era encará-lo de volta, o fiz, em um ato quase automático. Nossos olhos se cruzaram e, por um instante, eu pensei ter visto um sorriso fugaz em seus lábios. 

Pediu a arma do homem ao seu lado com um gesto e o babaca cedeu prontamente a pistola diretamente na mão de Christopher, que era tão grande a ponto de fazer aquela arma parecer uma de brinquedo. Engoli em seco, olhando para o teto. Minhas mãos escorriam um suor frio, tão gélido quanto todo o meu corpo naquele momento.

Eu não podia aceitar um destino tão cruel. Não estava disposta a partir, deixando o mundo lembrando de mim como uma mulher fraca, sem nenhum tipo de influência e dona de uma covardia vergonhosa.

Soltei uma risada fria. Não sabia exatamente o motivo, mas ela saiu e como um sopro. Uma súplica disfarçada de um ato sarcástico. 

— Suas últimas palavras, amor? — O Harrington questionou, a frase carregada de um desdém inacreditável. Carregou a arma, apontando-a para o exato centro da minha testa. 

— Te vejo no inferno, Christopher. 

Por favor, não me mate, Christopher. 

Apertei os olhos com firmeza, tentando afastar pensamentos que insistiam em invadir minha mente. Eu me recusava a antecipar o sofrimento que uma bala atravessando meu crânio poderia causar, apenas rogando internamente para que o fim fosse rápido e misericordioso, afinal, Christopher me devia isso.

Houveram dois disparos. 

Talvez o disparo fora tão certeiro que eu já estivesse morta, porque eu não sentia nenhuma dor. 

De repente, o terceiro disparo.

Como eu ainda conseguia escutá-lo mesmo após morta? Um zumbido doloroso se instalou no canal de meu ouvido, me fazendo pressionar as mãos sobre as orelhas, fortemente. Me debrucei, de joelhos, confusa. Quando abri os olhos, vi os três corpos caídos sobre o chão, além do sangue que rapidamente se espalhava pelo piso. O zumbindo caminhava pela minha cabeça e a dor era intensa. Observei os buracos que Christopher havia causado naqueles homens. Em um, a bala atingiu sua boca, no outro, a garganta, e no último, a testa.  Um deles ainda resmungava de dor, engasgando-se em seu próprio sangue.

Eu não conseguia desviar o olhar, observando-o tossir e o sangue espirrar em toda a sua face. Ele tentou levar a mão à sua garganta, mas antes que pudesse alcançar o lugar desejado, a consciência tomou o corpo e seus olhos fecharam-se devagar, em um momento quase interminável.  Senti uma mão puxar-me para cima. Eu ainda estava em choque, petrificada com a cena.  Será que aquele homem, que até poucos segundos atrás tinha vida pulsando em suas veias, tinha uma família? Talvez a filha dele estivesse em casa, assistindo a um programa infantil qualquer na TV enquanto comia feijão enlatado. Será que ela encontraria o cadáver dele, como eu encontrei o do meu? E, assim como eu, se questionaria sobre o que poderia ter feito de diferente? A angústia preencheu todo o espaço vazio de meu coração, enviando para meus olhos lágrimas que não cessariam rapidamente. 

^^^“Papai, acorde!! Papai, não morra, por favor!”^^^

— SARA! VAMOS! 

Me levantei, apática, completamente alheia ao que Christopher falava. Ele me puxou para fora de sua casa, colocando a arma no bolso detrás de sua calça. Seus lábios se movimentaram, falando algo para mim, mas as palavras não alcançaram meus ouvidos. Ele soltou minha mão, e eu permaneci ali, imóvel, enquanto ele se afastava. Quando retornou, estava ao volante de um carro vermelho e luxuoso.

Minhas mãos se agitavam, dedos arranhando a palma com a mesma intensidade das lágrimas que caíam.

— Sara! — Exclamou ele, claramente irritado. Caminhei até o banco do passageiro, adentrando o carro. Contudo, meus olhos permaneciam fixos na mansão, que diminuía à medida que avançávamos pela estrada. Minhas unhas afiadas rasgavam a pele da minha mão e ainda, sim, eu não sentia nada.

...“Papai, sinto muito! Eu não deveria ter fugido, pai. É culpa minha! Abra os olhos, por favor!”...

— Suas mãos, Sara. Voltei minha atenção a Christopher, as lágrimas penduradas sobre meus cílios inferiores. Olhei para baixo e me deparei com alguns filetes de sangue que saiam dos cortes feitos pelas minhas unhas. Suspirei, colocando as duas abertas sobre meus joelhos.

Christopher mantinha seu foco na estrada, mas era óbvio o seu desconforto quando ele engolia em seco e me lançava olhares fugazes, perdidos. Suas mãos pressionavam fortemente o volante a ponto de seus dedos ficarem mais pálidos ainda.

Eu deveria agradecê-lo por salvar a minha vida, mas eu não estava realmente grata. A morte seria melhor do que reviver algumas lembranças.

— Foi a primeira vez que viu pessoas morrerem? — Ele questionou, e vi um alívio instantâneo dar-se sobre o seu peito. Percebi, então, que ele não estava nervoso por matar pessoas, talvez estivesse até mesmo acostumado com isso.

...“Sara... Seja uma boa... Garota, está bem? Não foi sua... Culpa...”...

Engoli em seco, encarando a paisagem através da janela.

— Sim.

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Comments

Maria Luísa de Almeida franca Almeida franca

Maria Luísa de Almeida franca Almeida franca

então será que ela vai continuar sofrendo assim por causa de homens

2024-12-10

1

Joana darc Campanha

Joana darc Campanha

sara e muito sem atitudes credo

2025-04-01

0

Mary Lima

Mary Lima

Poxa está tem o dedo poder para escolher homem. /Toasted//Toasted//Toasted//Toasted/

2024-04-17

1

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