Meus olhos foram atingidos pela claridade intensa responsável por inundar a sala, que logo deduzir ser a de um hospital, a julgar pela falta de cores nas paredes e pela presença vigilante de uma enfermeira à distância.
A dor ainda pulsava, tanto em meu nariz, que parecia envolto e sedado em algum tipo de curativo, quanto em minha cabeça. Levei à mão ao topo sentindo uma pontada aguda ao encontrar o curativo que protegia a região machucada.
— Senhora Sinclair, que bom que acordou. Deseja algo? — Perguntou a enfermeira à medida que se aproximava. Ouvir a sua voz foi como ser atingida por pequenas agulhas que perfuravam minha testa.
— Não, estou bem...— Respondi, fechando os olhos com força, almejando diminuir a dor de alguma forma. A tentativa, como esperado, falhou, e eu tentei reorganizar meus pensamentos para entender o que fazia naquela maca.
Engoli em seco, esforçando-me para respirar profundamente e garantir que as lágrimas, pressionando sua saída, permanecessem aprisionadas em meus olhos.
Ele havia me atacado novamente.
A raiva, que deveria estar em seu apogeu, fazia-se ausente no momento em que eu mais precisava dela. Se ao menos conseguisse senti-la, teria um alvo para direcionar minhas emoções tumultuadas. Mas o que fazer com a tristeza, a mágoa intricada em meu ser?
Se permanecesse naquele quarto, imersa em letargia e fragilidade, teria mais do que o tempo suficiente para reviver todas as memórias que não queria e então, me afundar num abismo sem volta. Não podia me dar o luxo de me tornar vulnerável.
Era necessário que os acontecimentos que me trouxeram a essa maldita maca fossem confinados num vácuo dentro de minha mente.
— Na verdade, eu tenho uma pergunta. Meu marido... ele está aqui? — Me obriguei a falar da maneira mais normal o possível, para que não levantasse suspeitas sobre o meu estado.
A enfermeira, que passava seu olhar sobre o caderno de anotações em sua mão, me encarou e sorriu gentilmente, negando com a cabeça.
— No momento, senhora, ele não está, mas pediu que eu a tranquilizasse. Ele teve que atender uma ligação urgente, mas logo estará de volta. No entanto, a senhora Lindsay Sinclair está aqui.
Respirei aliviada ao ouvir o nome de Lindsay.
— Gostaria de um copo de água, se não for incomodo. Sinto minha garganta um pouco ressecada. — Menti com facilidade.
Ao vê-la sair porta afora, rapidamente desviei minha atenção à minha bolsa disposta sobre a pequena cômoda ao lado da maca.
Abri minha bolsa e, entre seus objetos, o primeiro que me prendeu a atenção foi um pequeno espelho redondo com bordas azuis, um item indispensável em minha pequena dispensa móvel. Em um dia qualquer, eu observaria meu reflexo, retocando minha maquiagem se necessário, mas hoje a ideia de encarar meu próprio reflexo era quase intolerável, pois isso evocaria memórias que eu preferia manter adormecidas.
Engoli em seco, reunindo forças para ignorar o item em questão, e coloquei a bolsa sobre meus ombros. Respirei fundo, tentando encontrar dentro de mim o último resquício de disposição para finalmente sair do quarto.
O corredor estaria vazio, não fosse por algumas poucas enfermeiras apressadas e a presença de uma mulher ruiva sentada sobre uma poltrona ao lado. Era Lindsay. Para a minha sorte, estava absorta demais em seu livro para poder prestar atenção em algo ao redor. Aproveitando a chance, me dirigi rapidamente a direção oposta e, lutando contra o cansaço, venci uma caminhada confusa dentro daquele hospital gigantesco, alcançando a saída.
O céu azul-escuro estava escasso de estrelas e a única coisa cintilante que podia observar-se no céu era a lua cheia. Finalmente, eu pude ter noção de tempo e a informação de que fiquei inconsciente por mais de 5 horas me chocou.
Graças à influência do sobrenome Sinclair, foram necessárias poucas ligações até que eu finalmente encontrasse meu destino.
Chamei um táxi, informando o endereço que eu almejava alcançar. Ao me sentar no banco traseiro do carro, pensamentos atordoados ameaçaram sua chegada.
Para afastar esses pensamentos, eu batucava minhas unhas de forma inquieta na janela do carro, contemplando a paisagem cinzenta que se estendia além dos vidros foscos.
— A senhora está bem? — indagou o motorista de táxi, interrompendo o silêncio que parecia ensurdecedor demais. Ao tentar encará-lo, acabei me deparando com o meu próprio reflexo no espelho do carro. Meu nariz exibia um curativo que parecia grande demais para sua área, que mostrava uma transição do roxo para um esverdeado doente. Eu estava horrenda, meus olhos transpareciam o cansaço mental e físico que sentia, minhas bochechas pareciam mais fundas do que o normal, atenuando as maçãs do meu rosto. A cor corada que acompanhava toda a extensão do meu rosto fora substituída por um tom amarelado.
Mesmo que eu quisesse, ou melhor, mesmo que precisasse desviar de meu reflexo, era como se eu estivesse me perdendo naquele "eu" tão desconhecido e desconcertante. A dor no nariz e na cabeça se fizeram ainda mais presentes e as lágrimas forçaram saída.
— Senhora? — A voz preocupada do motorista me tirou do transe, permitindo que eu finalmente desviasse o rosto da extensão do espelho.
— Está tudo bem, obrigada. — Apesar das palavras, o tom de voz vacilante expunha exatamente o contrário. Continuei batucando as unhas na janela, mas dessa vez a intensidade dos batuques dobrou. — Você pode ligar o rádio, por gentileza?
Ele o fez rapidamente e eu fechei os olhos, buscando deixar que apenas a melodia da música envolvesse meus pensamentos.
Eu estava sendo impulsiva mais uma vez, fazendo algo que poderia ter como consequências o arrependimento, fosse ele instantâneo ou a longo prazo, mas nada importava para mim.
Eu precisava esquecer toda aquela dor.
E só uma pessoa seria capaz de me distrair.
O carro amarelo estacionou na frente de uma mansão muito rústica. Aquele móvel era tão característico que eu não precisei nem pensar duas vezes para ter certeza de que aquela era a casa de Christopher. O ambiente exalava um mistério intrigante, com suas paredes de cimento robusto e os detalhes em madeira escura. Cada elemento parecia ecoar a personalidade desinibida e sensual de seu dono.
A cada passo relutante que dava em direção à grande porta, questionava minha decisão tão imprudente.
Apertei, vacilante, a campainha. Arqueei minhas costas, bati levemente em minhas roupas na tentativa de extinguir qualquer amasso e lutei contra a vontade de verificar minha aparência no pequeno espelho dentro da bolsa.
Eu não podia fingir não estar ciente da minha aparência deplorável, mas a única consolação era a esperança de que ele não notasse. No entanto, eu sabia que era algo impossível, a julgar pelo proeminente curativo no meu nariz e todos os outros sinais evidentes da minha horrenda condição.
A porta foi aberta, tirando meu fôlego por alguns segundos.
Christopher não vestia nada além de uma calça social preta que combinava tão bem com a sua imagem. Um membro tão perfeitamente marcado naquele tecido fino...
Neguei com a cabeça, tentando parecer muitíssimo confiante diante daquele homem magnífico.
As sobrancelhas grossas que enfeitavam seu olhar estavam franzidas no meio de sua testa, formando algumas rugas de confusão em sua face. Os lábios carnudos estavam contraídos em uma fina linha, expressando a dúvida que pairava sobre sua mente ao me ver ali, como uma louca. Além de tudo, era visível as diversas marcas de batom espalhadas por seu abdômen tão perfeitamente definido.
Alguém havia chegado antes de mim, mas isso era irrelevante, eu precisava de Christopher agora mais do que qualquer outra.
— O que faz aqui? — Seu tom de voz expondo o tamanho ponto de interrogação sobre sua cabeça.
Deus, está tudo errado. Eu não devia estar aqui... Mas eu não quero voltar.
— Preciso de você.
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Atualizado até capítulo 43
Comments
Mary Lima
Ela deveria ter indo direto parabólica e jornais
2024-04-17
1
Simone Silva
meu Deus, até qnd ela vai aceitar essa vida??? agora por td ele já enfia a mão na cara dela
2024-04-16
1
Jeanne Brandes
?????
2024-03-15
0