Entre a Hipocrisia e a Sedução

No dia seguinte, acordei com uma dor de cabeça intensa. Ethan não estava ao meu lado na cama, e perceber isso me aliviou.

Até o momento, me sentia apática, como se estivesse andando, comendo e realizando tarefas monótonas no modo automático. Não podia pensar, ou melhor, não queria.

Eu estava sozinha naquela mansão gigantesca, sentindo-me como uma formiga solitária num milharal. Sem família, amigos ou amor.

O mordomo da casa, Gilliard, veio até meu quarto para me informar sobre uma ligação da Sinclair Properties Company, e repassou a seguinte mensagem:

— O senhor Sinclair pediu para relembra-la do baile de gala beneficente que ocorrerá hoje, na empresa. Ele solicitou sua presença às 18:00, senhora. — Disse Gilliam, gentilmente. Estava sentada na poltrona de meu quarto, passando o olho sobre palavras de um livro qualquer, tentando me distrair. Concordei com a cabeça, não tinha forças o suficiente para responder de maneira adequada.

Como poderia ter esquecido desse maldito baile? Havia me preparado antecipadamente apenas para que, quando de fato chegasse o dia, me esquecesse. A ideia de caminhar ao lado de Ethan como sua esposa-troféu, esbanjando sorrisos falsos e contando mentiras exacerbadas para os futuros investidores sobre meu marido, como se ele não tivesse me agredido um dia antes, me causava náuseas.

— Está tudo bem, senhora?

Me esforcei para sorrir, assentindo com a cabeça.

— Estou, não se preocupe. Você pode entrar em contato com aquele salão que sempre vou e conseguir uma vaga urgente para mim, por gentileza?

Gilliard, na casa dos 60 anos, sorriu gentilmente. Era o único ali que me tratava com pura e verdadeira gentileza.

— Sim, senhora, o farei. — Ele se dirigiu até a porta, mas antes de sair, virou-se para mim, observando minha face. Tentei cobrir meu olho, envergonhada. — Senhora, não quero ser inconveniente, mas... Não acredito que esteja bem. Sei que sou apenas um servente nessa casa, mas saiba que se precisar de um ombro amigo, o meu sempre estará disponível. — Sua expressão era triste, mas um sorriso empático brilhava sobre seu rosto.

Engoli seco, sentindo lágrimas forçaram saída sobre meus olhos. Agradeci com a voz embargada e o dispensei antes que ele me visse desabar.

Chorei como uma criança por alguns minutos, sentindo meu peito corroer a cada lembrança sobre a noite anterior. Não sobre meu caso, mas sim sobre Ethan. A dor física causada por seu punho, a humilhação sentida por mim, a maneira como não ele se desculpou depois do que fez... tudo isso, todas essas malditas coisas estavam me destruindo.

......................

Depois de algumas horas, eu estava pronta. Senti-me renovada depois de ir no salão e finalmente retocar a cor preta de meus cabelos, cortar algumas camadas e dar a ele um ar mais saudável. Vesti a peça que comprei especialmente para o baile: um vestido preto ombro a ombro, elegantemente cinturado por um corset, com uma cauda esvoaçante contrastando com o ajuste perfeito da peça em meu corpo. Como complemento: um colar e brincos de rubi, luvas sutis de renda e um par de saltos Saint Laurent.

Me olhei no grande espelho do banheiro, minha maquiagem impecável e lá, atrás de tanto corretivo e algumas camadas de base, estava a marca de um casamento arruinado. Toquei abaixo do meu olho, e senti uma dor aguda. Mesmo embaixo de tanta maquiagem, ainda era perceptível o olho inchado.

......................

Fui levada para o salão de festas da Sinclair Properties, uma casa gigantesca com estrutura grega alugada especialmente para a ocasião. Haviam alguns gatos pingados pelo salão, mas logo chegariam os grandes sócios e os potenciais investidores. Ao ver Charlotte, a secretária de meu marido, sorri. Ela estava magnífica, mas não tanto quanto eu.

— Senhora Sara, é uma grande surpresa vê-la aqui.

— Surpresa? Bastante interessante sua escolha de palavras. Pensou que meu marido não precisaria de mim em um evento como esse, tendo como acompanhante a sua fiel assistente? — Falei, tão fria quanto uma geleira. Charlotte olhou-me perplexa e forçou também um sorriso.

— Ah... não foi isso que quis dizer, senhora. — Seu tom de voz fraco e assustado fez com que eu me sentisse mais confiante, mesmo sabendo que no momento em que meus olhos se encontrassem com o de Ethan, essa confiança murcharia. — Não há acompanhante melhor para ele do que a esposa.

— Claro.

Ao dar uma rápida olhada para o salão, me deparei com meu marido vindo em nossa direção, magnífico e vestindo a capa de um homem perfeitamente tradicional. Senti minhas mãos e minhas costas suarem a medida em que seus passos se aproximavam mais de mim. Minha garganta fechou-se e senti as lágrimas forçando saída, mas engoli em seco todo o meu sofrimento, arqueando minhas costas demonstrando uma falsa frieza.

Normalmente, Ethan olharia para Charlotte primeiro e para mim em seguida, mas naquela noite havia sido diferente.

— Querida, que bom que veio. Espero que me perdoe por não poder recebê-la pessoalmente. — Informou, atencioso, beijando minha mão direita com carinho. Senti náuseas ao te-lo tão perto de mim, aguentando sua maldita hipocrisia.

— Não se preocupe. O lugar está lindo, suponho que tenha dado trabalho para alcançar tal perfeição.

Nossas palavras tão formais exibiam um contraste gigantesco em comparação com a violência da noite anterior.

Ethan deslizou seus dedos por minha bochecha. Um ato que me fez recuar subitamente, mas aceita-lo com desconfiança.

— Você está linda.

Sorri apenas com a boca, agradecendo com um gesto.

— A mais linda de todas.

Fitei a face de Charlotte, vermelha como um tomate maduro. Seu maxilar estava visivelmente contraído, os músculos demonstravam tensão sob a pele, denunciando um sentimento entre desconforto e raiva.

Mesmo sabendo que ela estava longe de ser a culpada pela infidelidade do meu marido, não havia sequer um pingo de empatia vinda de mim pois ela costumava ser um amor de pessoa comigo, escondendo atrás de sua máscara afável uma traição dolorosa.

— Você concorda com meu marido, Charlotte? — Alfinetei-a, sorrindo.

— S-sim. Como não concordar? — Sua voz falhou e ver o triste olhar que exibia me deu um certo tipo de satisfação.

Dei de ombros, afastando delicadamente a mão de Ethan que repousava sobre minha face. Meu sentimento era de repulsa ao vê-lo tão perto de mim, sua presença tornara-se absurda e ofensiva.

— Querido, sugiro que não exagere nos toque ou pode estragar minha maquiagem. Aposto que não quer isso, quer? — Minha fala saiu carregada de uma ironia ameaçadora. Ethan não teve reação a não ser tirar suas mãos nojentas de mim.

Depois de uma hora de evento, fazendo o meu papel de esposa-troféu e tendo que aguentar Ethan e sua hipocrisia, decidi descansar das muitas pessoas que haviam chegado no salão.

Peguei um champanhe, saindo furtivamente do salão e me dirigindo ao exterior da casa. Sentei-me em um dos divãs à frente da piscina enquanto observava a movimentação do baile.

— No momento, estou me perguntando se você está me perseguindo ou se nossos destinos estão entrelaçados. — Ouvi uma voz vinda detrás do divã. Uma voz rouca, irônica e já conhecida por mim.

Me virei rapidamente.

Christopher.

Antes Ethan havia sido tão ultrajante comigo... tão cruel que acabou monopolizando minha mente com a melancolia e a raiva enraizadas em meus neurônios. Mas ver Christopher fez com que as memórias antecedentes às em que Ethan estava envolvido voltassem, causando um certo tipo estranho de frio em minha barriga.

Em sua presença, me via perdida, sem saber ao certo como reagir. Havia um emaranhado de desejos contraditórios. Talvez eu pudesse simplesmente sorrir, ou lançar olhares desdenhosos, ou expulsá-lo antes que descobrissem do nosso caso, ou fugir para seus braços, implorando para que ele me levasse para seu mundo novamente, para que me dominasse e fizesse minha mente mudar o rumo dos pensamentos.

— O que você faz aqui?!

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Comments

Rayane isolina

Rayane isolina

eita eita que o homen é sínico bate e dps finge demência

2024-07-16

1

Fernanda Marins

Fernanda Marins

🤭🤭🤭🤭🤭🤭

2024-03-07

1

Del Arantes

Del Arantes

Estou gostando 👏👏👏 prendeu minha atenção logo no início ( coisa difícil de acontecer )

2024-02-27

4

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