• Momento presente •
As leves batidas na porta não foram suficientes para tirar Jinx de seu estado reflexivo, mas a xerife entrou mesmo assim. Seu peso moveu o colchão extremamente macio assim que se sentou ao lado da mais nova, mas não fez nenhum outro movimento pelos próximos vários segundos que se seguiram.
— Eu quero que saiba que não deixei você antes e não vou deixar agora, por mais que não consiga me lembrar.
— Você não é a minha esposa, não é a mulher com quem eu me casei — Jinx respondeu sem desviar o olhar do chão.
— Jinx, por favor...
— É sério! Quando você se lembrava, eu podia só transar com você e esquecer de tudo, mas agora não dá!
— Eu não acho que esquecer seja uma boa ideia, por experiência própria.
Jinx bufou, se levantando de uma vez.
— Virou a porra de uma terapeuta agora, ou o quê?
• Águas de Sentina •
— O quê? Não, eu tenho muita coisa pra fazer hoje e não posso resolver os problemas de relacionamentos alheios — Sarah mexia em uma pilha enorme de papéis procurando algo.
— Eu disse que não era uma boa ideia, mas a Cait insistiu que você ajudou ela com... Conselhos!? Tem certeza de que não teve um pesadelo? Veio pedir conselhos pra ela — Jinx estava de braços cruzados e com a cara fechada.
— Bem, não são conselhos, só uma conversa acho que já seria bem proveitoso — admitiu Caitlyn.
— Uma conversa? Vai falar pra ela que a gente não transa mais ou o quê — a mais nova revirou os olhos.
Fortune pela primeira vez colocou seu olhar na direção das duas visitantes e respondeu sussurrando em um tom que se assemelhava a um sermão.
— A Vi tá lá embaixo! Querem que ela escute sobre a vida sexual de vocês duas? Eu não acho que isso seja uma boa ideia.
— Eu não acho que seja esse o problema — a xerife finalmente se sentou, mesmo sem um convite — Mas sim o fato de que ela foge dos problemas com o sexo. E não é como se eu não tivesse vontade de transar, mas falta muita coisa pra complementar isso.
— Será que não é por que você esqueceu 100% de todos os momentos carinhosos e românticos que tivemos na vida? Grrrr...
Sarah deixou o queixo cair em cima dos papéis, totalmente desanimada com sua falta de sucesso tanto em encontrar o que procurava quanto em expulsar as companhias indesejadas.
— GRAVEEEEES — a ruiva levantou animada ao ver o homem entrar em sua sala — Por favor, eu preciso muito que você ajude Caitlyn e Jinx com conselhos de relacionamento. Eu tô... Cheia de coisas pra fazer! Mas você é perfeito pra isso!
— Claro, Capitã! Tava mesmo pensando em descansar por aqui. Tem uma bebida? Acho que eu vou precisar. Digo... A gente — o mais novo visitante encarou as outras duas mulheres com um sorriso — Qual é o problema?
— É ela — responderam em uníssono, fazendo Graves encarar Sarah mais uma vez desconfiado.
— Pagamento adiantado — ele sussurrou apenas para a ruiva.
— O que quiser, amigo — antes de sair, Fortune respondeu com uma piscadinha e um sorriso.
• Horas mais tarde •
— É, foi uma péssima ideia, eu admito — Caitlyn deixou escapar ao jogar seu corpo no sofá.
— Você tem razão, eu foquei totalmente no sexo pra esquecer tudo e nunca falei sobre o que aconteceu e funcionou muito bem porque você sabia disso — Jinx forçou um sorriso antes de passar novamente pela mesma porta por onde havia entrado — Eu só vou... Ficar um tempo fora pra pensar.
A resposta veio com um aceno positivo da xerife, que não se moveu de onde estava. Ambas sentiram o peito doer em uma sensação estranha, um aperto inexplicável de um animal encurralado.
Caitlyn não fazia ideia de que passaria os próximos dois dias sozinhas mais uma vez, sem reação e com muito tempo para refletir.
Na madrugada, foi Diana quem acordou primeiro e ouviu o barulho do carro acelerando com os faróis acesos em fortes luzes que invadiam a janela do quarto. Levantou com o cabelo bagunçado e foi até a janela.
Do lado de fora, a investigadora recebeu Jinx com suas roupas de trabalho, incluindo os coldres e cintos, indicando que não tinha tomado banho, ou dormido. Jogou seu rifle no chão, demonstrando a impaciência e falta de controle, fazendo a mais nova se questionar sobre ter sido uma boa ideia retornar para casa.
Foi só quando Jinx chegou mais perto, que Caitlyn pode notar o hematoma em seu pescoço, fazendo uma fraca trilha até chegar no ombro. O semblante da xerife mudou de imediato, sem dar tempo para a mais nova evitar a rasteira que a fez cair com as costas na areia. O rifle, que antes estava no chão, agora pressionava o pescoço da atiradora com Caitlyn o segurando com ambas as mãos contra a sua traqueia.
— Então é assim que você reage a um momento difícil no casamento maravilhoso que descreveu ter comigo? Saindo com outras pessoas? O que elas tem que eu não?
Jinx apenas engoliu a seco, encarando o olhar furioso da mulher em cima de seu corpo, enquanto ela continuava falando.
— O que elas fazem, que eu não? Ah, eu me lembro! Espera! Dizia que eu era certinha e careta demais pra você, mesmo tendo salvo sua vida inúmeras vezes, assim como salvou a minha! O que elas têm é mais forte do que isso?
A policial falava mostrando os dentes, em um tom muito mais alto do que a garota lembrava de ter ouvido em uma discussão, já que quase nunca perdia a classe.
— FALA, JINX!!! ESSAS PESSOAS RESGATARIAM VOCÊ DAQUELE BURACO ONDE PASSOU DOIS ANOS E TEVE A DIANA? ELAS MATARIAM POR VOCÊ, COMO EU MATEI??
Involuntariamente, Caitlyn bateu com seu punho no chão com força, desviando o olhar dos olhos assustados da menina embaixo de si. Jinx estava completamente imóvel, observando o descontrole da detetive.
Depois de respirar fundo, Kiramman encostou a testa no ombro da jovem, deixando sua arma de lado, parecendo exausta pelo breve surto repentino. As lágrimas vieram sem que pudesse controlar e sua voz se desfez com o choro compulsivo.
— Eu matei mais do que deveria para proteger vocês duas e é horrível saber que não bastou — dessa vez a xerife deixou escapar quase em um sussurro rouco.
A mais nova colocou os braços em volta da cintura de Caitlyn em um abraço, não sabia o que dizer, mas depois de um tempo as palavras vieram em outro sussurro.
— Eu sempre estrago tudo! Parece a minha habilidade especial.
— Fui eu que estraguei tudo por não lembrar do que você passou, do que nós passamos juntas — se colocando sentada, a morena segurou o rosto de Jinx com as duas mãos e se inclinou para um beijo breve, mas carinhoso — Me desculpe! Jurei não te deixar sozinha e fiz isso nos últimos meses!
Ao passar o polegar pela marca arroxeada no pescoço da garota, ela sumiu, deixando a xerife confusa com o que via, embora suas memórias já estivessem lá, como um soco no estômago que a atingira de uma só vez.
— Não foi sua culpa — a de cabelos claros respondeu, com uma de suas mãos subindo pelo braço da mulher em uma carícia.
— EEEEEI, COMO ASSIM VOCÊ MATOU PESSOAS? VOCÊ É POLICIAL E NÃO DEVERIA FAZER ESSAS COISAS! VOCÊ DEVIA PROTEGER AS PESSOAS — o grito veio de cima, levando ambas na direção da janela, onde Diana estava.
— Vai ser uma longa conversa — Caitlyn suspirou e disse apenas para Jinx em um sussurro.
— Ela é igualzinha a você! Arrrgh! DUAS CHATAS — Jinx também se sentou ali mesmo na areia, encarando a garota — Vou dar cintila pra ela também!
• Caitlyn •
Você pode dizer com absoluta certeza que está vivo nesse momento? Quer dizer, seu coração bate, bombeando o sangue e levando oxigênio para todos os seus órgãos, mas o que te permitia viver, o sentido da sua vida ainda existe?
Perdi a memória meses atrás em um acidente quase fatal, no qual bati a cabeça e estive desacordada na piscina por alguns minutos e agora que todas as lembranças voltaram, só uma única questão se faz pertinente nesse amontoado de confusões que minha mente virou: em que momento dos últimos nove anos a Caitlyn do passado se perdeu? Seus sonhos, vontades, crenças, medos, tudo isso se tornou patético, mesmo sendo um dia tão importante.
Casei com a minha principal inimiga, não que antes tivesse algo pessoal contra Jinx, mas era meu dever como xerife proteger a cidade e as pessoas que nela viviam e eu sei perfeitamente o motivo, embora não tivesse pensado no quanto isso me faria deixar partes minhas pelo caminho sem olhar pra trás.
Ela é instável, impulsiva, emocionalmente frágil, uma assassina, criminosa, estrategista e age por seus instintos mais primitivos movida por seus traumas e inseguranças. Então por que, eu, Caitlyn Kiramman, ignorei tudo em que acreditava pra me colocar ao lado de Jinx e contra todo o resto? Não parece plausível pra ninguém, mas não queria salvar Piltover, queria salvar ela e em algum momento isso foi mais importante do que qualquer coisa. Se eu não o fizesse, ninguém poderia.
Jamais pretendi mudá-la de alguma maneira, mas sim ofertar coisas diferentes e que fariam bem e assim, toda a impulsividade e insanidade tomaram um outro rumo um pouco melhor. Silco a ajudou no passado, mas ofereceu a ela, além de ser alguém seguro e invencível, uma prisão, um nome manchado e um sofrimento que só podia ser adiado com uma vida em meio ao crime. Minha oferta foi diferente! Jinx literalmente salvou o mundo ao lado de guerreiros que lutam pelo bem e acredite, só ela poderia fazer o que fez.
Mas eu... Não sei se um dia poderei me encontrar novamente em meio a tudo isso.
— O que você está fazendo? Ela finalmente dormiu, a conversa foi mesmo interminável! Espera, não era pra ser você a falar sobre essa coisa de polícia e blá blá blá... ??
— Eu só estava pensando, acho que me distrai — respondi.
— Ah, as suas memórias! E como tá indo com isso?
— Foi uma experiência exaustiva, mas interessante.
— Não vai querer saber o que disse pra Diana — questionou Jinx, se jogando do meu lado no sofá, me obrigando a colocar o copo de uísque sobre a mesa antes que algum acidente pudesse ocorrer.
— Não. Eu confio em você. É a sua filha, como você mesma disse.
— Você sabe que não é assim — sua voz se tornou manhosa e logo colocou as pernas sobre o meu colo, mexendo no meu cabelo em movimentos ansiosos de suas mãos — Eu fui um pouco dura com você, mas mereceu e merecia ainda mais, girafinha! Mas... Eu definitivamente penso em você como meu marido com um terno e sua cartola enorme!
Já conhecia o tom de piada e acabei rindo mais alto do que esperava, talvez pelo efeito do álcool também, mesmo que fosse um assunto delicado e que realmente me incomodava. Depois de algum silêncio, sussurrei baixinho:
— Me desculpe.
— Ei, Caitlyn, é sério! Você sabe que tem todos os direitos legais, tanto quanto eu! Que droga! Quando foi que eu fiquei tão séria e careta como você?
— Se chama “idade”.
— Nem vem com essa! A velha aqui é você! Todos nós sabemos que já vai fazer cinquenta anos, mas vive numa pele humana com uma bunda maravilhosa e seios enormes, não que o resto não conte. Cof cof... Metade do seu corpo é tecnologia Hextec, a propósito.
Não prestei atenção em uma palavra, apenas meu subconsciente ouviu, mas a parte consciente encarava seu sorriso de canto, sabendo de que se tratava de alguma brincadeira qualquer direcionada a mim, enquanto seus olhos percorriam meu corpo. O tempo parava quando estávamos perto, mesmo depois de tantos anos.
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Atualizado até capítulo 25
Comments
Mzyy
fiquei sem cell por uns dias e voltei com atualização aaaaaa que vida boa
2023-10-29
2
Maria Andrade
que bom que voltou atualizar estava com saudades
2023-10-27
2