Parte 17

— Isso tá sendo difícil pra ela, Cait.

— Só pra ela, Jayce? Sabe o que mais está sendo difícil? Lembrar dos momentos de paz com a Vi, que era carinhosa, romântica, gentil e fazia de tudo pra me agradar, mas ver a Jinx do meu lado na cama com aquele temperamento irritante e tão conflitante do meu, fazendo piadas o tempo todo, sem nem perguntar como eu estou. Tenho vontade de iniciar alguma coisa, fazer algum carinho, tocar nos cabelos dela, mas não sei como vai reagir, eu simplesmente não a conheço — a mulher encostou sua testa sobre a mesa, ao lado da xícara quente de café que foi servida, soltando uma suspiro prolongado e desanimado, deixando seus cabelos lisos escorregarem também pela superfície branca — O pior de tudo isso é que sinto uma série de sentimentos e sensações confusos por Jinx — a voz da xerife saiu abafada por ainda estar com o rosto enfiado em um espaço entre os próprios braços sobre a mesa — E tudo é intenso demais, a raiva, ódio, excitação, carinho, medo.

“Paixão...”

A última palavra completou sua frase apenas na mente de Caitlyn, que não admitiria estar apaixonada pela versão da criminosa que conseguia se lembrar, embora admitisse a si mesma naquele momento. Sentiu a mão do amigo em seu ombro em um gesto gentil para confortá-la e ele ficou em silêncio por um tempo, compreendendo que a situação exigia.

— Hoje eu fui levar Diana na escola e encontrei um garoto que roubou um beijo dela — a caçadora abria um sorriso com a lembrança do que contava, deixando o herói curioso — Fui com o uniforme policial e algemas, mas o rifle ficou no carro — a essa altura Jayce já imaginava o que viria a seguir e compartilhava do mesmo sorriso que parecia conter uma risada — Ele ficou apavorado quando eu disse que seria preso, tem seis anos.

— Você não fez isso — o moreno sacudia a cabeça em negação, mas agora rindo com a cena que imaginava.

— Fiz! Disse que seria o nosso segredo e que não iria entregá-lo às autoridades por isso, se não voltasse a acontecer.

— Eu não queria ser seu filho, definitivamente!

— Diana vai ter os momentos de se apaixonar e viver alguma coisa legal, menos confusa e louca do que eu, espero, mas não agora.

— Caitlyn, tem uma coisa que eu preciso te contar. O seu eu com memórias já sabia disso, mas me sinto traindo você, se não voltar a contar agora — a expressão do homem mudou, adquirindo preocupação e até arrependimento — Isso já tá me sufocando há meses.

— Pode falar, eu não creio que exista alguma informação que seja mais impactante do que descobrir estar casada com Jinx sem lembrar de como isso aconteceu — a mão da xerife pousou sobre a do amigo para confortá-lo também como um incentivo para prosseguir.

— Eu e Violet, nós... Tivemos algo depois que vocês terminaram oficialmente.

A sobrancelha arqueou de forma involuntária no rosto de Caitlyn, que tentava absorver o que era contado, mas de forma bem lenta.

— Você e a Vi? Por quê? Quer dizer eu sei que ela tem... Que ela também gosta de homens nesse sentido, mas você? Eu o conheço há muitos anos e ela não faz o seu tipo MESMO — por mais que tentasse soar natural, a morena estava alterada.

— Nem eu sei responder a isso, foi só muito de repente. Começamos falando sobre você e terminamos na cama — o herói passou a mão pelo próprio rosto e depois pelos cabelos.

— Parece mais um pesadelo — as palavras da policial vieram acompanhadas de um sorriso forçado que carregava sua fala de sarcasmo — Só que eu não posso acordar.

— Caitlyn, não é como se o pesadelo fosse só seu. Sua ex namorada dormiu com o seu melhor amigo, mas você dormiu e se casou com a irmã dela, literalmente.

— Não preciso das minhas memórias pra saber que Jinx e Powder não são a mesma pessoa!

— Então por que você, ela, Diana e Vi convivem como uma família — questionou Jayce tendo pela primeira vez o olhar raivoso da amiga sobre ele — Ela pode ter trocado de nome, tido experiências ruins e até mudado bastante, mas ainda é a Powder.

A ideia de ter Vi convivendo com sua família em todas as reuniões causou extrema estranheza e Caitlyn sentiu que embora Jayce fosse seu amigo, não seria capaz de contar tudo como deveria.

Foi com o pensamento de conhecer o lugar onde Diana passava um tempo com frequência, que Kiramman adentrou o escritório particular de Fortune em um enorme navio, mas ela sabia que o motivo ia além disso.

A ruiva distraída mexendo em seus papéis era provavelmente a única depois de Jayce a ter a mesma aparência que conseguia lembrar com roupas de couro marrom e seus longos cabelos presos em uma trança de lado.

— Que moral a xerife de Piltover tem por aqui, eu sequer ouvi um alvoroço dos meus homens com a sua presença — foi Sarah quem iniciou o diálogo — A Vi me contou o que aconteceu com você e tenho que admitir, não gostaria nem um pouco de estar no seu lugar.

A morena se aproximou com certo receio, estranhando a fala de Fortune a seu favor, o que era inédito, já que todos pareciam estar do lado de Jinx, ou Vi.

— Estranho ouvir isso de você, já que nunca gostou de mim.

A cadeira a frente foi oferecida com um gesto, que Caitlyn rapidamente aceitou e se acomodou no móvel a frente da mesa de madeira. As duas mulheres se encararam por um tempo em silêncio, o rosto tomado por sardas quase imperceptíveis de Sarah que tinha um sorriso e a expressão séria e calculista da policial.

— Você está mesmo mal com isso, eu posso ver todas as dúvidas nos seus olhos — a voz da ruiva soava sexy até mesmo em uma conversa natural, mas Caitlyn ainda via sua imagem como a de uma rival por dentro.

— Sim, as guardiãs estelares, eu soube, mas ainda é um mistério, como muitas outras coisas — confessou a morena desviando o olhar para uma foto sem moldura na parede.

— O poder da estrela que convocou nobres guerreiros de Runeterra de coração puro para lutar contra o mal — a capitã girou a cadeira, colocando suas botas sobre o canto da mesa e soltou uma risada alta — Não tão puros assim, não é mesmo?

— Eu quero saber de você o que aconteceu na minha “ausência” nesses anos e quero sua opinião — Caitlyn levantou, colocando uma das mãos com força sobre a mesa e se inclinando para encarar os olhos verdes mais de perto — Fortune, você não vale nada, mas sei que é a única que vai me dizer o mais próximo da verdade!

Sarah soltou um suspiro cansado, soltando o ar pelo nariz com uma postura de quem havia sido vencida pela própria consciência.

— Jinx foi capturada por mafiosos que odiavam o Silco, torturada e violentada por quase dois anos. Você enlouqueceu nesse tempo, se afastou de todos, não parou até encontrá-la. Eles te contaram isso, não é?

A xerife congelou no lugar onde estava com uma expressão de espanto, o que indicou a resposta que Fortune procurava para prosseguir.

— Algum tempo depois ela descobriu estar grávida de Diana, chamou por Vi, tudo o que aconteceu antes disso foi esquecido porque você foi a heroína, a única que não desistiu e fez de tudo para trazê-la de volta.

O corpo de Kiramman desabou na cadeira novamente aos poucos, enquanto seu olhar se mantinha ainda mais perdido em algum lugar no vazio e Sarah continuava sua narrativa dos fatos.

— Vi não queria perder a irmã mais uma vez e honestamente, prefere muito mais a vida que tem comigo, muito mais cheia de... Ação!

Nada era como antes e a xerife já não sentia a alfinetada dada pela capitã.

— Honestamente eu também acho que vocês combinam muito mais e estou satisfeita com o rumo que essa parte da história tomou, lembrando de tudo, ou não. — Caitlyn travou o maxilar, mas tinha sinceridade em tudo o que dizia — Eu só não entendo por que não me contaram os fatos mais importantes! Nem Jinx...

— Talvez ela mesma queira apagar qualquer lembrança dos pesadelos vividos nesses anos e por isso não disse nada, mas quanto aos outros, realmente não entendo.

— Se houver algo que a polícia de Piltover puder fazer para ajudá-la, não hesite em dizer, Sarah. Você me ajudou mais do que qualquer um com essas informações e eu ficaria satisfeita em retribuir de alguma forma.

— Hmmmmm, na verdade tem sim — o sorriso moldou o rosto da ruiva mais uma vez de forma sugestiva, mas para Caitlyn, ela era dessa maneira o tempo todo ao que o tom de malícia passou despercebido.

— O quê?

— Eu quero saber o que você tem que faz com que gostem tanto assim de você — enquanto falava, o bico da bota da capitã subia lentamente pela saia da xerife, subindo o tecido em uma provocação ousada.

Caitlyn se afastou e fechou a cara imediatamente, provocando risos na ruiva, que se divertia bastante com a recusa.

— Pelo que vejo você ainda é a xerife certinha, com ou sem memórias.

— Sobre Diana...

— Não se preocupe, apesar de não ter filhos, nos damos muito bem. Eu até dei a ela um chapéu de capitã pirata e nos divertimos muito. Vi a traz sempre que pode aos finais de semana. Sabe como é, questões mal resolvidas com a pequena Powder — Fortune cruzou os braços, encostando mais na cadeira em sua postura relaxada — Nossas vidas são agitadas demais, não é? Mas parece que tudo corre bem quando nos damos uma mãozinha.

A detetive teve que reconhecer que aquela visita de última hora a Águas de Sentina tinha sido a melhor ideia que tivera. Alguém sem pudores e com a língua solta como Fortune era o que ela precisava para se situar melhor. Embora a mulher fosse provocante e difícil de lidar, a conhecia de outras ocasiões e não havia nada de novo.

Diana parecia ter mesmo uma família dentre tantas escolhas erradas de adultos com problemas. Naquela noite, no entanto, Kiramman não fazia ideia de como voltar para casa depois de refletir tanto sobre tudo o que ouvira da capitã.  Teria alguma possibilidade de ela estar mentindo? Quase nula, ao que Caitlyn concluiu.  Tudo se encaixava em seu lado investigativo praticamente infalível.  Também explicava o fato de todos defenderem Jinx até o fim, afinal, sabiam de toda a situação difícil, apesar de a garota não cair bem com o papel de vítima.

Sempre que a xerife chegava sorrateiramente, Jinx estava com Diana em alguma atividade interessante para as duas, que passavam muito tempo juntas além de toda a semelhança física que tinham.

Dessa vez, as duas desenhavam com tinta neon de várias cores, causando uma catástrofe às roupas e suas peles pálidas. Por vezes, faziam com que a morena se questionasse sobre realmente pertencer àquele lugar.

— Diana, eu preciso conversar com Jinx. Você pode ir brincar lá embaixo — questionou a mais velha em um tom carinhoso com a filha, enquanto os dedos deslizavam por entre seus cabelos macios em um cafuné.

A menina ainda não gostava da ideia de haver assuntos os quais não podia participar, mas ainda obedeceu, se despedindo de Caitlyn com um abraço apertado.

Os olhos de Jinx não estavam muito ansiosos, ou animados, como era esperado. Em vez disso, pararam nas folhas com os vários desenhos coloridos.

— Me diga que nós acabamos com eles — a mais alta iniciou o diálogo quase sussurrando — Me diga que você os machucou muito, ou que eu matei um por um e que a nossa vingança foi um espetáculo!

Caitlyn sentou mais uma vez na mesa de centro, encontrando os olhos violeta marejados e estáticos, como se a garota não precisasse piscar. Gentilmente, segurou a mão da mais nova em uma carícia leve com o polegar, exibindo um sorriso suave.

— Fala pra mim que nós destruímos aquele lugar juntas, você por dentro e eu por fora porque é exatamente o que desejei que tivesse acontecido quando soube — a morena prosseguiu esperando paciente por uma resposta.

— Foi incrível! Você foi incrível — foi só o que Jinx conseguiu dizer, trazendo suas lembranças de volta.

— Você foi muito mais! Eu jamais conseguiria — a caçadora encostou sua testa na da jovem, sentindo sua respiração por um longo momento — Não sou forte como você.

— Quem foi?

— Sarah.

— Aquela piranha linguaruda do beijo gostoso! Eu devia costurar a boca dela!

— Você... — Caitlyn se afastou apenas para encarar o rosto da esposa com uma expressão de reprovação cravada em sua face — Não... Você beijou ela? De repente, todo mundo resolveu fazer um sexo grupal entre amigos e eu não sei?

— Não, que nojo! Credo! Foi só um beijinho de nada. Você queria que eu fizesse o quê? Corresse?

— Talvez eu devesse ter prolongado minha viagem e ficado mais tempo por lá — a resposta da morena custou um tapa que sentiu arder em seu rosto junto com o olhar de Jinx como uma lâmina, mas ainda assim acabou rindo — Ela flerta de verdade com todo mundo?

— Todo mundo é meio difícil, mas a gente não é todo mundo! Definitivamente nós não somos todo mundo!

Por mais que a conversa tenha terminado de forma descontraída, deixou a de cabelos claros reflexiva pelo resto da noite. Tocar em suas feridas a fez gritar por dentro, principalmente quando encarava o rosto de Diana, adormecida no enorme sofá macio do escritório de Caitlyn no subterrâneo.

Não era como se a mais velha lembrasse, mas ter seu apoio mais uma vez a confortava de alguma forma. Jinx encarou o anel brilhante em seu dedo, lembrando de como ele havia sido o único suporte para sua sanidade enquanto aprisionada.

Inúmeras vezes teve chance de escapar usando a esfera de energia, mas preferiu guardar o objeto, como se ele fosse sua própria vida.

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Comments

Mzyy

Mzyy

cada cap uma porrada seca

2023-10-07

3

Adriana Gomes

Adriana Gomes

2 anos sofrendo todo tipo de abuso... não tem nem palavras para tal situação, ainda mais uma pessoa como a Jinx que já tem o psicológico perturbado!

2023-10-06

2

Adriana Gomes

Adriana Gomes

a cada novo capítulo a obra está se tornando ainda mais intensa...
esse foi bastante esclarecedor!

2023-10-06

2

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