• Momento presente •
Voltar ao trabalho o mais breve possível era a única saída que Caitlyn via para sua mente conturbada e seu problema de memória. Na delegacia, a morena constatou que tudo estava muito diferente, até os agentes da força policial de Piltover tinham outros rostos com muitos muito mais jovens, o que a recordou de quanto começou.
Sem dar muita atenção às mudanças daquela nova realidade, a xerife seguiu para a cena do crime a ser investigada. Ao se aproximar, seus olhos passaram pelo ambiente, como os de uma águia e ao longe, Kiramman ouviu um sussurro:
— Fique aqui, não se aproxime. Vai ver como é impressionante ver ela trabalhando — um dos muitos rostos desconhecidos atrás da faixa de segurança alertava outro agente.
Na enorme sala que era a recepção do local de armazenamento atacado, já era possível ver as marcas de bala. Caitlyn caminhou devagar, mirando em cada uma das marcas, atenta também a cada lugar que pisava.
— Jinx — disparou em um tom cansado, como se a garota a perseguisse de alguma forma até em seu trabalho investigativo, AINDA.
— Desculpe a pergunta, xerife, mas como a senhora sabe?
A palavra "senhora" lhe causara um enorme desconforto, mas era fato de que estava nos seus trinta e oito anos e tinha que se acostumar com isso.
— O golpe veio de trás, bem ali — apontou a morena — a pressão indica que se equilibrou nos calcanhares pelo peso de algo grande e o sangue pingou dessa mesma altura, bem no ombro — a caçadora se abaixou, enquanto a cena se refazia em sua mente — o atirador é canhoto e os projéteis combinam com a arma que ela usa na mão esquerda. Foram cinco tiros, sem erros, acertando cada uma das caixas — levantou, seguindo as marcas de sangue pelo piso de madeira — Mesmo depois do ferimento, acertou três deles. Qualquer outra pessoa com essa mesma estatura teria no mínimo se inclinado de dor com o golpe, mas Jinx continuou atirando com seu ombro na exata altura de antes, ela não sente dor quando está em ação, ela só vem depois.
— Então quer dizer que sua esposa causou tudo isso e você não ficou sabendo e só fez todas essas suposições olhando a cena do crime sem nenhum teste — o homem tinha um olhar não só desconfiado, como cheio de sarcasmo.
— Eu já estava em meu departamento, agente Carter. O que você pensa? Que planejamos juntas? Ou que eu recebo mensagens de texto informando desvios de cargas ilegais — questionou a mais velha, elevando o queixo para encontrar o olhar do agente — Continue com suas deduções e não poderei garantir, mesmo sendo a "esposa", que a próxima cena de crime não será a da sua morte.
— E os desenhos?
A última pergunta fez com que Caitlyn parasse de andar e precisou de certo esforço para não acertar um soco bem no meio do rosto do rapaz bem atrás de si. Baixou o olhar para a própria coxa coberta pelo tecido do uniforme e por um instante pensou em levantar parte do vestido para deixar à mostra os hematomas em sua pele, deixados por Jinx como uma resposta atrevida e que indicaria sua falta de paciência, mas o fato de estar casada com a garota não a agradava nem um pouco.
— Por que ela faria desenhos executando algo em favor da polícia de Piltover? Destruiu os tóxicos que seriam vendidos ilegalmente, fez o SEU trabalho com muito mais eficiência e não precisa deixar marcas porque eu saberia de olhos fechados quem foi responsável por isso.
— Por que ela executaria algo em favor da polícia de Piltover sem avisar você, que é a própria polícia?
Incomum para pessoas normais e Caitlyn sabia disso, mas vindo de Jinx e dada a situação em que se encontravam, um aviso seria a última coisa a esperar.
— Não estamos juntas, não no momento. Eu não devo explicações da minha vida pessoal, agente. Espero que essa atitude não se repita.
• Nove anos antes •
— Você tem uma nota de esclarecimento ao vivo com a mídia local para explicar a aliança com Jinx, o interrogatório com os demais agentes e esse vai ser extenso e cansativo — a mulher, agora secretária da xerife, a atualizava sobre todas as tarefas diárias, enquanto tentava acompanhá-la com pequenos passos rápidos, já que sua altura não facilitava andar ao lado de Caitlyn — Ah, a Vi tem relatórios sobre a missão em Águas de Sentina — por um momento, a caçadora parou de andar e soltou um suspiro desanimado ao ouvir o nome da namorada, já que não últimas semanas, como uma fugitiva, parecia estar em outra dimensão em suas aventuras com Jinx — Ela e a Capitã Fortune a aguardam, deve ser importante.
Ciente de que não poderia mais adiar aquele encontro, seguiu para o banheiro na intenção de que a água fria em seu rosto aliviasse a tensão que sentia. Aproveitando-se do momento sozinha, Caitlyn finalmente fechou os olhos e respirou fundo, sem que a sua nova secretária estivesse junto.
Vi e Sara aguardavam em um espaço que servia para descanso de sua equipe, uma pequena sala com sofá e rádio que era bastante confortável. Ao parar na porta e encarar a garota de cabelos rosa pela primeira vez, sentiu um misto de sentimentos estranhos. Conhecendo Jinx um pouco melhor, era questionável seu estado mental, mas a mais velha a perseguiu sem se importar, mesmo sendo sua irmã e o motivo para ter desistido de tudo parecia ser uma xerife certinha que tinha acabado de conhecer, o que pareceu extremamente errado para Kiramman, depois de analisar de forma quase inconsciente em seus pensamentos.
Jinx não merecia ser inocentada de seus crimes, mas era fato que as pessoas em Zaun eram bem menos privilegiadas, o que abria espaço para várias ações ilícitas talvez até justificáveis. Violet estava sentada e Sara tinha os pés sobre suas pernas, deitando confortavelmente no sofá. Conversavam sobre algo que a xerife não fez questão de ouvir, já que lidava com todas as suas dúvidas dentro da própria cabeça.
Teria algo que pudesse fazer pelas pessoas que passavam fome na cidade baixa? O quanto a garota, agora morando em Piltover e com um bom emprego na polícia, realmente se importava? Passou a morar na cidade do progresso para que assim pudesse lutar por suas causas, mas quanto disso ela realmente fazia, depois de saber que não havia ajudado nem quem um dia foi a pessoa mais importante para ela, a própria irmã?
• Momento presente •
Sozinha em casa outra vez, Caitlyn andava pela sala com certa cautela, como se fosse o espaço de outra pessoa, ainda que se esforçasse para reconhecer cada objeto ali como sendo seu.
— Boa tarde, Caitlyn. Gostaria que eu acionasse a máquina de chá, como de costume — questionou a voz feminina e robótica que parecia vir do teto.
— Como?
— O relógio marca 17:00, uma das suas horas favoritas nos dias em que está em casa e pode desfrutar do seu chá. Devo prepará-lo?
— Não, na verdade eu tenho algumas perguntas sobre a sua base de dados — a morena sentou em um dos enormes sofás macios e prendeu seu cabelo em um rabo de cavalo antes de continuar — Quem é você e quando foi instalada?
— Eu me chamo Tai e estou trabalhando há 7 anos, 4 meses, 63 dias, 9 horas e 14 segundos. Meu nome foi dado por Diana. Meu objetivo é auxiliar em suas investigações, assim como nos experimentos de Jinx e Diana.
— Certo! Vamos montar uma situação hipotética onde eu perdi minhas memórias dos últimos nove anos. O que você me diria?
— Minha primeira recomendação é que procure médicos especializados para avaliar sua condição física e as possíveis causas de seu trauma para um tratamento adequado. Em seguida, seria interessante descer até o andar subterrâneo onde estão as instalações secretas as quais meu código impede mencionar, exceto para os meus criadores. Lá estão informações de casos difíceis, mas também fotos que não são encontradas em nenhuma outra parte da residência. Devo informá-la também que Jinx tem uma probabilidade de 97,8% de tentar reverter sua perda de memória com alguma espécie de trauma físico e psicológico, o que tem 85,2% de chance de sucesso.
— O quê? Você também calcula as probabilidades com base nos registros comportamentais? O que eu vou fazer agora?
O rosto da xerife encarava o nada, olhando pra cima como se realmente conversasse com a voz presente ali, estava inquieta e indecisa sobre tudo o que ouvia.
— Eu diria que tem 99,9% de chance de sua situação não ser hipotética e que você pode vir a me desligar por não gostar das informações reveladas. Você tem 89,9% de chance de quebrar coisas e 67% de sair e fazer algo extremamente imprudente lá fora. Devo acionar o sistema de segurança?
Um longo suspiro deixou os lábios da mulher, que passou a encarar o chão com irritação.
— Eu acho que o chá é uma excelente ideia! Por que você acha que não é uma situação hipotética?
— Sua rotina ao chegar em casa é completamente diferente, parecendo com a de outro indivíduo. É habitual que você peça por atualizações de notícias recentes e em seguida atualizações sobre Diana, já que eu a monitoro à distância.
— No momento, Tai, você me conhece melhor do que eu mesma. Já procurei pelo médico e estou 100% saudável. O que acha que eu deveria fazer?
— Sentimentos são coisas que vão além do que fui programada para entender. Como me foi dito, inexplicáveis, inconsistentes e muito duradouros, às vezes, mas se pudesse ter sentimentos, nesse momento estaria triste por você. Os humanos buscam muito por sentimentos, a vida toda, que é bastante curta e muitas vezes não encontram o que procuram. Parece que você encontrou estes sentimentos, que são mais importantes do que qualquer outra coisa e não consegue se lembrar, então não sabe que encontrou.
— Quem programou você para ignorar minhas perguntas e responder coisas desse tipo por conta própria?
— Você.
— Hmmmm, agora você responde.
— Sua pergunta já foi respondida anteriormente.
— Ok, descer ao bunker! Lá vamos nós! Me mostre o caminho.
— Basta pressionar o botão no rifle de brinquedo ao lado da estante. Foi projetado por Diana.
— Ela tem 8 anos!
— Correto.
Uma réplica exata de sua arma foi encontrada em tamanho menor ao lado da estante, como indicado, onde um botão escondido era quase imperceptível. Caitlyn aproximou o indicador da área que devia pressionar, mas sua mão tremia muito.
— Sabe qual é o problema, Tai? Eu não quero me lembrar, eu não quero essa vida que tenho e que todos dizem que é perfeita. Nunca quis!
— Eu compreendo. É como se deletassem os últimos 5 anos do meu banco de dados e ainda assim quisessem todas as informações que obtive neste tempo.
— É, é exatamente isso!
— Caitlyn, acredito que para decidir se você quer alguma coisa, precisa ver primeiro. O seu conhecimento sobre os últimos nove anos é de aproximadamente 0,2%.
— Tem certeza que eu programei você? Porque pra mim parece óbvio de que lado você está!
Uma alavanca acionava o elevador até o andar de baixo, onde uma porta com sistema de leitura ocular recebia a visitante. Sua íris foi reconhecida de imediato e as portas que davam para um enorme salão foram abertas. Primeiro um enorme espaço que parecia servir para treinamento com vários tipos de armas à disposição, em seguida algumas salas mais reservadas e com isolamento acústico indicavam suas respectivas funções. O escritório de Caitlyn foi rapidamente reconhecido com um enorme quadro negro, uma biblioteca, móveis de design antigo, porém requintados. Estar ali a agradou, ainda que não reconhecesse nada naquela sala, sabia que sua mente automaticamente aprovava a escolha de todos os objetos em seus lugares.
A próxima sala estava mais bagunçada com várias peças espalhadas, embora uma estante guardasse muitos objetos organizados perfeitamente e uma cama feita de forma impecável em um dos lados indicasse o cuidado da dona da sala, a xerife não soube dizer exatamente a quem pertencia até ler um pequeno aviso na porta: proibida a entrada de mães. Uma pequena geladeira com produtos químicos, outra com suco e alguns doces. Era difícil acreditar que uma criança era responsável pelo que estava ali e embora já tivesse estado no quarto de Diana na parte de cima, aquilo era bastante inusitado. Sobre a mesa, além da bagunça de peças, Caitlyn reconheceu uma arma desmontada e algumas anotações sobre o objeto.
Era hora de passar para a última sala. Para a surpresa de Kiramman, estava completamente vazia, mas quase podia sentir a presença de Jinx naquele lugar. A luz era levemente azulada deixava à mostra desenhos fluorescentes e alguns relevos nas paredes e no piso indicavam que havia algo ali além do que podia ver. A morena pressionou onde sua intuição mandou e logo compartimentos se abriram revelando mesas de trabalho suspensas, uma estante cheia de armas, um sofá de couro e máquinas pesadas. Na estante, vários produtos que reconheceu como itens de criação de bombas. Se sentia em um laboratório da hextec com invenções tão ou mais interessantes ainda.
— Eu sou a única aqui que não tem um arsenal mortífero na sala secreta?
— Receio que não tenha procurado bem. Das três você foi a que melhor escondeu os seus segredos.
Voltando em sua sala com as coordenadas deixadas por Tai, Caitlyn agora conseguiu revelar o compartimento atrás da estante, onde eram mantidas as imagens das câmeras de segurança em monitores enormes. Algumas armas estavam dispostas nas paredes, mas em menor quantidade.
— É, eu admito que só preciso de UMA arma. Mas e o que tem lá fora? Vi arcos, pistolas, espingardas.
— O salão de treino permite aprimorar a pontaria com diferentes dispositivos, não que você precise disso, é claro.
— Taxa de acerto?
— Caitlyn 97%. Jinx 96%, Diana 100%.
— Isso só pode ser brincadeira. Todo mundo sabe que eu atiro melhor.
— A maior taxa de acertos registrada pertence à Diana com 100% do total.
— Tá, deixa eu ver se entendi, então um gnomo de um metro de altura tem uma pontaria melhor do que a minha?
— Desculpe, isso é uma piada. Posso imitar um som de risada, se você quiser. Diana possui 125cm de altura. Ela acaba de deixar uma mensagem de voz. Gostaria de reproduzir agora?
— Claro, vai lá.
O corpo exausto se recostou na poltrona do escritório, que mesmo sem janelas, parecia bastante confortável. Os pés de Caitlyn se livraram das botas e alcançaram a mesa no alto para que pudesse descansar, enquanto a voz infantil surgia no sistema da casa em um som tão claro, como se estivesse diante de quem falava.
"Oi, mamãe. Eu sei que você não tá se sentindo muito bem, mas quando melhorar um pouquinho não esquece que prometeu ir caçar comigo. Quero testar o rifle que você me deu, sabe como esperei tanto por isso! Pode ser só um pouquinho mesmo, eu prometo que nem vamos demorar. Quase fui pra casa hoje porque tenho certeza que se a gente brincasse de resolver mistérios juntas você ficaria bem, isso sempre te deixa bem, mas o tio Jayce não deixou. Ele disse que você precisa se recuperar sozinha dessa vez. Não sei o que aconteceu, já tentei descobrir, mas eles estão difíceis dessa vez! Eu tô com sausade de você e do cheiro do seu cabelo e de mexer escondido nas coisas da mamãe pra deixar ela brava, mas se ficar aqui vai fazer você sarar mais rápido, eu fico. Vou mandar uma cartinha pra mandar embora sua dor de cabeça, sempre funciona. Beijos e é isso. Não coma muitos doces sem mim. E não fique trabalhando demais. E... hmmm... Acho que é isso. A gente te ama, mas você sabe que eu amo mais!"
Silêncio, um silêncio angustiante, enquanto as lágrimas rolavam sem que a caçadora percebesse. A mensagem curta foi suficiente para que Caitlyn montasse a garota em sua mente e parecia muito com sua filha, caso tivesse uma. Até a Caitlyn do passado conseguiu reconhecer ali coisas que sempre pensou em fazer, se o momento de ser mãe um dia chegasse, ainda que não imaginasse realmente buscar por isso.
— Gostaria de enviar uma resposta?
— Eu... Não sei o que dizer, mas me deu uma enorme vontade de vê-la e nem sei o motivo.
A entrada da xerife foi silenciosa, embora sua presença já tivesse sido anunciada. Na cozinha, Jayce tentava equilibrar a panela que segurava, enquanto as duas garotas pareciam escalar seu corpo literalmente até alcançar o ponto mais alto. Caitlyn não fez nada além de admirar a cena ao longe até ter a atenção do amigo voltada para si. Diana demorou mais para perceber sua presença, se concentrando na tarefa de voltar ao chão descendo pelas costas de Jayce.
— MAMÃAAAAE — o som preencheu o ambiente mais alto do que deveria, enquanto a garota corria em sua direção.
A xerife ganhou um abraço em suas coxas e a menina parecia decidida a apertar cada vez mais. A mão de Caitlyn desceu pelos cabelos de cor azul claro, mas foi só quando abaixou e encarou o rosto da menor de perto é que percebeu a assustadora semelhança com Jinx. Diana era uma cópia exata da jovem com a diferença apenas da idade, tendo todos os traços da mãe, assim como a cor do cabelo, que também era presente em seus imensos olhos azuis. O sorriso revelava também o alinhamento perfeito dos dentes tais como os de Jinx, que frequentemente os exibia em sorrisos travessos e debochados.
— Eu sabia que minha mensagem teria algum resultado. Disse pra eles, mas não acreditaram em mim e você veeeeeeeio — mais uma vez Diana se jogou em Caitlyn em outro abraço, gradativamente mais apertado.
As palavras não saíram, mas a xerife retribuiu ao abraço e fechou os olhos, se sentindo confortável com o cheiro bom da garota.
— Só fica aqui mais um pouquinho — sussurrou a mais velha, afundando o rosto nos cabelos claros perfeitamente colocados abaixo dos ombros em um corte reto — Não me solta ainda.
Diana aumentou a pressão no abraço, como se sua força pudesse aumentar o efeito do contato.
— Quando eu vou poder voltar pra casa? Você sabe que tenho meus projetos super importantes e o último tava quaaaaaase dando certo! Vai ser meeeeega irado, você não faz ideia — a empolgação da jovem rapidamente lembrou Jinx com suas explosões e armas, mas Caitlyn ainda tentava afastar tais pensamentos.
— Bem, você pode voltar. Acho que já demos muito trabalho pro "Tio Jayce" — o olhar da mulher subiu para alcançar o rosto do herói, mas ele recebeu a fala com um sorriso.
— E quando a mamãe volta pra casa também?
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Atualizado até capítulo 25
Comments
Maria Andrade
muito boa a história ansiosa por mais
2023-09-19
1
Nilva Vieira Santos
sua história é muito impolgante, pôr favor não demora a postar más capítulo ☺️
2023-09-18
2