Puxou o ar com dificuldade entre os dentes antes de sua tentativa de se levantar, no começo, totalmente falha, mas Caitlyn insistiu.
Assim que sua perna machucada tocou o chão e o peso de seu corpo foi colocado sobre o músculo danificado, soltou um grito contido, mas não seria suficiente para pará-la. Andou até uma mesa que havia por perto, verificando as medicações ali, assim como um bisturi, agulha e um vidro de álcool.
"Desde quando aquela maluca tem algum conhecimento sobre medicina? Bem, parece útil com todos os buracos de bala que já deixei no seu corpo."
Os passos que deu até a janela pareceram durar uma eternidade, que a cada vez que seu pé tocava o chão, fazia a dor se espalhar por todo o corpo de forma quase insuportável, provocando sons involuntários, gritos, urros, rosnados desesperados.
Embora a policial pensasse estar sozinha, a outra garota a encarava de cima no escuro, permanecendo sentada nas estruturas metálicas do teto alto.
Seus olhos acompanhavam a morena e estavam atentos para o quanto a xerife parecia destruída. Machucada, dopada, com fome, com frio pela sua nudez de forma que sua pele ganhava uma leve coloração azulada, mas ainda assim ela tentava escapar com determinação.
"Talvez não seja assim tão inútil."
Jinx deitou o rosto para o lado, admirando as ações, mesmo que inúteis da mulher de cabelos escuros até que viu a xerife se jogar na saída de lixo intencionalmente, o que dava para muitos andares abaixo do lado de fora, segurando apenas um pano onde se enrolou no momento da queda.
— CAITLYN!!!
O grito de Jinx pareceu até desesperado, enquanto segurava nas barras de metal para pular no piso. Era a primeira vez que pronunciava aquele nome, mas havia saído sem que pensasse a respeito.
Do lado de fora, a mais velha já estava um pouco distante de onde havia caído com os lixos da fábrica, que por sorte, eram mais tecido empoeirado. Caitlyn andava com a mesma determinação, mesmo que não conseguisse correr. A mais nova a seguiu, gritando em sussurros e gesticulando a sua frente, enquanto andava de costas.
— Você enlouqueceu? Aquele chapéu pressionou seu crânio por tempo demais? Mais da metade dessa cidade quer a sua cabeça e a outra metade usaria com prazer o seu corpinho rico e cheiroso, sua maldita imbecil! Por que acha que vai conseguir qualquer coisa saindo nesse estado?
Kiramman se apoiou na parede por um momento, recuperando o fôlego que sua respiração ofegante acusava entregando seu esforço físico, mas os olhos azuis ainda encaravam a figura esguia da jovem com uma fúria quase palpável.
— Quer saber? Senti como se fôssemos iguais dentro daquele maldito buraco de ratos onde ficamos presas porque nenhum daqueles porcos estúpidos vieram ao seu encontro pra te salvar e não é como se alguém também fosse procurar por mim lá dentro — a de cabelos azul claro colocou as mãos na própria cintura e se inclinou, aproximando do rosto da xerife — Ninguém vai vir atrás de você, eles já teriam feito isso antes, não é como se você tivesse sido sequestrada, o prédio apenas desabou onde você tinha acabado de ser vista. Eles querem você morta, sei lá por qual motivo, mas nenhum daqueles idiotas tinha intenção de te ajudar!
— Eu preciso encontrar os desaparecidos — Caitlyn se limitou a dizer com certa dificuldade.
— Olha só pra você, faraó depois de enterrado! Não consegue dar um passo sem gemer!
Sem esperar uma resposta, a garota se aproximou, tentando levantar Caitlyn ao colocar um braço por trás de suas coxas, mas a tentativa de levantar a mulher foi totalmente frustrada, arrancando até uma risada da policial. Jinx a largou e encarou séria o riso fácil que agora a xerife tentava controlar.
— O que foi? Eu sou forte! Você é que anda comendo muitos doces naquela delegacia! Talvez eu esteja só um pouco cansada, sem dormir e sem comer quase nada, mas meu lança mísseis pesa mais do que você!
A resposta só fez a policial rir mais, mas logo parou e voltou para uma expressão leve de dor.
— Muito engraçado! Fica aí então, vai se foder!
Sem dizer mais nada, a jovem deu as costas, pegando um caminho diferente que a deixava cada vez mais distante da fábrica.
Não demorou muito para que os arruaceiros de Zaun encontrassem Caitlyn quase desnuda e machucada, como um alvo fácil. Os três sujeitos cercaram a mulher, a fitando dos pés a cabeça em meio a risadas cheias de malícia.
— Olha só se não é a xerife de Piltover em uma situação bastante conveniente — o primeiro disparou, mas sem se mover.
Já era noite e o perigo era quase tangível nas ruas escuras, mas nem estando cercada, a policial se intimidou, mostrando um olhar concentrado e ao mesmo tempo esnobe.
Inicialmente Jinx, que o tempo todo a acompanhava por cima dos telhados, achou a cena curiosa e engraçada, recebendo a situação com um sorriso travesso.
Os homens tentaram golpear Caitlyn, mas ela acertou de forma habilidosa o cano de sua pistola por baixo do queixo do primeiro, acertando sem dificuldade uma cotovelada no que tinha tentado se aproximar por trás. Mesmo que não os tivesse derrubado de forma definitiva, isso os havia deixado furiosos e Jinx ainda mais curiosa.
O terceiro homem, em vez de tentar golpeá-la, levou a mão até o tecido que permanecia em volta de seu corpo nu na intenção de revelar sua nudez ali mesmo. Os olhos da de cabelos claros estavam arregalados, misturados em sua expressão com um sorriso doentio outra vez.
"Isso seria tão incrível! Esses porcos colocando suas mãos na xerife bem na minha frente! O que será que fariam com ela?"
Os delírios da jovem trouxeram ao ambiente suas risadas altas, que agora eram perceptíveis por todos. A bala perfurou em um tiro muito preciso a mão que se aproximava da morena e só depois a criminosa se revelou das sombras.
— Sinto muito, rapazes, mas esse brinquedinho é meu — disse a garota segurando o queixo de Caitlyn e colando os lábios aos dela por um instante em um selinho bem breve — Tenho certeza que não vão querer encrenca. Não é?
— Eu tenho tudo sobre controle — a xerife respondeu séria.
— Shhhhhh... Cãozinho mau — Jinx disparou as palavras sem olhar diretamente para Caitlyn, mas olhando em sua direção por cima do ombro — Acontece que essa aquisição é minha e me custou bastante, então não pretendo dividir — agora os olhos violeta encaravam os três homens novamente.
Com apenas um dos braços, a mais nova enlaçou a cintura da de cabelos escuros e a colocou deitada em seu ombro, sustentando seu peso sem problemas movida pela raiva.
— Vocês ouviram, seus trastes! Esse traseiro enorme da xerife é todo meu! Caiam fora — Jinx começou a atirar, sem contar que Caitlyn esperaria os outros saírem de cena para atingir sua captora com uma arma de choque.
Teve que admirar mentalmente a resistência da garota, que demorou a perder os sentidos com a descarga elétrica e mesmo assim a encarou e sussurrou enquanto seu corpo caía.
— Você... Você roubou uma das minhas armas... Mas que vagabunda!
Foi inevitável para a mais velha deixar que o sorriso moldasse seu rosto dessa vez, encarando a outra perder os sentidos bem diante de si já no chão.
Ao acordar, foi Jinx que se viu algemada e sentia sua cabeça doer de leve. Encarou a figura de Caitlyn sentada a sua frente e bufou instantaneamente.
— Você escapou das malditas algemas, o que te faz pensar que não consigo — perguntou a mais nova, irritada.
— Não estou pensando que você não consegue escapar. Já vi o quanto você pode ser...
— Posso ser o quê — Jinx insistiu em ter a continuação do que parecia ser um elogio, sentindo até certa ansiedade a dominar — O que você ia dizer?
— Não vale a pena.
— O que era? Diz logo, sua imprestável! Grrrr... Você ia dizer que sou surpreendente? Incrível? Extraordinária? É, eu já sei! Eu posso ser genial! VAI, CONFESSA!
— Eu ia dizer chata, insistente, teimosa, insuportável!
— Mentirosa! Você parou porque estava prestes a me dar um elogio! Eu sei!
— Se você analisar bem, não sou eu que te beijei e falei do seu traseiro na frente de outras pessoas, foi?
Caitlyn lançou um sorriso divertido, apesar de as dores ainda a incomodarem.
— Analisando bem você precisa me mim até pra se alimentar, já que não consegue ir até a esquina sem cair. Já pensou nisso, detetive? Como pretende se livrar disso?
Foi Jinx quem sorriu, sustentando o olhar da mais velha.
— Você tem um bom ponto, eu admito, mas... — a morena deixou seu corpo escorregar até deitar na cama improvisada com os vários tecidos velhos — Eu tenho algo que você quer muito e não direi onde está até estar segura no meu apartamento!
Novamente a xerife dormiu, mas Jinx se encontrava muito longe de conseguir descansar. Em vez disso, encarava a mulher em seu sono tranquilo, tendo pequenos espasmos, que a faziam rir baixinho com a visão que tinha de si mesma passando a lâmina do bisturi pela pele uniforme e pálida daquela que a acompanhava.
Seus olhos continuaram vidrados nos desenhos dos quais o sangue escorria por todo o corpo da xerife, onde depois imaginou pintar com um spray rosa neon, que para Jinx parecia mais bonito e atrativo.
"Agora sim, muito melhor! Você está realmente bonita nesse tom, detetive! Muito melhor mesmo! O rosa combina bem, mas ESSE rosa, não o rosa de manoplas gigantes e bizarras!"
— EU DISSE PRA VOCÊ QUE ERA INÚTIL!
Caitlyn custou a acordar mesmo com os gritos, mas assim que o fez, foi tomada por um choque intenso, que a fez travar os dentes com força.
— EU TE DISSE, SUA VADIA MISERÁVEL!!! DISSE QUE IRIA ME SOLTAR DAQUELE PEDAÇO DE METAL INÚTIL — o sorriso da garota se alargou vendo que a xerife já "dormia" — E agora nós podemos finalmente brincar! Não é, bebezinho — perguntou encarando o bisturi em sua mão com o qual demonstrava cuidado.
Com um breve empurrão usando o pé, a garota de Zaun verificou que o corpo de Caitlyn não respondia e logo aproximou o bisturi de seu rosto. Apesar de ter certeza do que via, sua cobaia não estava desacordada e segurou o pulso de Jinx com força, o torcendo até que largasse a arma.
— Mas que menina má! Eu... Eu... Enchi você de choques! Nem pra desmaiar serve!
Surpresa, mas também irritada, a mais nova caminhou de costas alguns poucos passos. Já Caitlyn levantou cambaleando, completamente desorientada em seus movimentos.
— Eu não vou cair no seu truque... De novo!
A morena queria se manter firme, mas sua visão começou a embaçar de novo. Enxergava as luzes turvas acima de sua cabeça e começava a perceber que não estaria de pé por muito mais tempo.
Não importava mais o que aconteceria, o fato era que a xerife já tivera seu ego ferido o suficiente ao ser superada em muitos aspectos por uma garotinha, pior do que isso, uma garotinha completamente insana, que tinha escapado do buraco que pensou que daria fim a sua vida, mas não era tudo.
Seu treinamento com armas desde a infância, em seguida o treinamento militar que colocara seu corpo a todo o tipo de prova física e mental, tudo o esforço de seus quase 30 anos para no fim, ser vencida por uma menina magrela que não fez mais do que viver nas ruas de uma comunidade pobre, onde o crime se alastra como uma praga.
Isso era demais para o seu raciocínio lento do momento, mas rapidamente se lembrou das mãos da garota sujas com o pó de concreto que desmanchou incansavelmente para que pudesse salvá-la, as unhas pintadas alternadamente de azul e rosa como uma adolescente, embora Jinx já não fosse uma, demonstrando sua determinação em não aceitar uma derrota que ela própria já havia aceitado. Havia algo de admirável na criminosa que perseguiu pelos últimos anos, a encarando de perto e vendo como trabalha.
Caitlyn pensou que perderia o equilíbrio quando apoiou uma das mãos no ombro da mais nova, mas logo escorregou a mão para sua nuca e a puxou para um beijo, colando os lábios aos da garota de uma forma bem mais firme do que ela havia tentado fazer consigo na rua.
Sem demora, a língua molhada deslizou pelos lábios finos e bem desenhados, deixando claras suas intenções com o beijo que não durou muito, ainda que intenso a ponto de fazê-la perder o ar.
— Mas que porra você tá fazendo — perguntou a jovem confusa ainda com a atitude inesperada.
— Obrigada — o agradecimento escapou dos lábios de Caitlyn de forma mansa e completamente sincera, levando a mais nova a ficar com seu olhar ainda mais perdido sobre ela — Eu estaria morta agora, se não fosse por você.
— É agora a parte que você me elogia — perguntou Jinx com um sorriso, deitando a cabeça para o lado, agora muito mais calma do que se mostrava antes — Eu sei que você está louquinha pra me elogiar!
— Não!
— Pode admitir que sou bastante atraente com essas tatuagens estilosas e que você não resistiu, estava querendo me beijar esse tempo todo.
Caitlyn já estava com cara fechada quando se afastou e cruzou os braços, se jogando na pilha de tecidos e encostando as costas na parede.
— Não me atrai nem um pouco interações íntimas com uma maluca, que não faz ideia do que é carinho porque certamente nunca teve isso.
As imagens de Vi invadiram a mente tumultuada da garota de Zaun, mais especificamente de sua infância, quando era cuidada pela irmã mais velha, mas aquela não era mais ela. Jinx soltou um rosnado alto, mostrando os dentes com a terrível sensação de ter a única pessoa que tinha sendo roubada pela mulher na sua frente.
O mesmo olhar insano voltou à face da jovem com tudo o que passava em sua cabeça, aquela era a sua inimiga. Por um momento, a de cabelos claros sacudiu a cabeça, tentando afastar tantos pensamentos inconvenientes.
— Eu sei, mas não preciso! Você é fraca, estúpida! Por isso fica presa em lugares que não consegue sair! Arrrgh... Patético!
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Atualizado até capítulo 25
Comments
Jinxed
Ta maravilhoso 👏🏼
2023-09-07
3
FalconSC99
Espero uma continuação! 🤞
2023-09-05
1