Parte 3

— A trégua acabou — Jinx sabia pelo olhar da xerife que ela falava sério, por isso deixou que falasse — É sério! Assim que eu levantar daqui, vou levar você comigo, nem que tenha que matá-la. Então é melhor que saia daqui antes disso.

— Sabe que eu prefiro que você se recupere antes de ter que te enfrentar de novo! Não preciso que facilite as coisas pra mim — a mais nova deu uma piscadela junto com o sorriso divertido que exibia — Além disso você é um saco! O melhor que faço é ficar bem longe de toda essa chatice mesmo!

Assim que tocou o pé no chão, a menina ouviu o disparo da pistola de Caitlyn, mas a fez rir o quanto a bala passou longe.

— Espera! Você errou? Fez isso de propósito! Você não quer me matar! Outro beijinho talvez — questionou de forma travessa e provocativa, antes de saltar pela janela ainda rindo.

Mesmo já estando de pé, Kiramman não desfez sua expressão séria e esta apenas deu lugar a um sorriso ao constatar o quão longe Jinx já estava.

É verdade que a mataria facilmente o maior problema de Piltover, que já havia matado centenas, mas tinha uma estranha sensação ao passar mais do que alguns minutos na companhia da garota, podendo assim ver vários estágios diferentes de sua insanidade tão de perto e isso começou a intrigar a xerife mais do que qualquer caso que já tivesse resolvido.

"Não, é claro que não! Da próxima vez que colocar as mãos nela, vai estar atrás de enormes barras de aço de uma cela!"

Foi com esse pensamento que Caitlyn chegou de volta ao trabalho no dia seguinte, mas para a sua surpresa, as buscas por ela eram mínimas, além de ter sido diretamente levada a prestar contas com a lei.

Estando fora por dois dias, seu trabalho já havia sido realizado por outras pessoas e uma foto de seu beijo com Jinx estampava alguns jornais sem a sua autorização, levando a caçadora a levantar muitas outras questões sobre sua realidade.

"Nenhum daqueles porcos estúpidos veio ao seu encontro pra te salvar."

"Ninguém vai vir atrás de você, eles já teriam feito isso antes. Eles querem você morta."

"Nenhum daqueles idiotas tinha intenção de te ajudar!"

As palavras de Jinx atingiram Caitlyn como um forte golpe no estômago e por um momento a xerife se perguntou o quão realmente insana ela era.

— Eu já disse que não sei onde ela está — insistiu a morena, já perdendo a paciência com o que antes era um de seus homens e agora a ameaçava, como se estivesse prestes a usar violência em seu interrogatório, mesmo que estivesse algemada à mesa — Vocês tem os exames e eu estava sob efeito de medicações que causam alucinações. Isso está comprovado no laudo!

— Esse laudo — perguntou o sujeito, tocando uma pasta com vários papéis e logo entregando um deles para Caitlyn, onde se lia facilmente todas as substâncias encontradas em seu sangue, praticamente limpo.

— Eu não entendo. Não tem como ter removido uma barra de ferro que quase atravessou minha coxa sem anestésicos sem que eu tivesse sentido nada — os olhos azuis inquietos percorriam a folha ainda mais confusos.

— Olha, Caitlyn, eu quero muito te ajudar, mas você não está me deixando alternativas pra isso.

Em outros momentos a mulher não teria se incomodado com o barulho das grades da cela se fechando, enquanto as encarava de seu interior, afinal era fácil resolver qualquer mal entendido, mas dessa vez as coisas haviam se complicado muito. Um agente jovem e recém contratado tinha evidências físicas de ter prendido Jinx pouco antes de ela desaparecer, junto de Caitlyn, que logo depois foi vista a beijando nos lábios.

Com a cabeça encostada na parede, a policial encarava a cela escura, já sentindo seus olhos pesarem pela medicação que recebeu pelo seu ferimento, quando a figura da garota pálida se fez no corredor acompanhada de sua risada de deboche que tanto odiava.

"— Eu disse! Eles não ligam muito pra você, fotografaram a gente e nem se deram ao trabalho de te resgatar. Eu quase tenho pena de você!"

Ao ver Jinx desaparecer, Caitlyn já não tinha certeza se era sua própria consciência projetando a imagem da garota, ou só os efeitos da droga que acabava de ingerir.

Nos primeiros dias, o responsável por comandar as forças policiais trouxe à mulher algumas pistas para que tivesse ajuda com os casos ainda em andamento e a morena até ajudou, mas logo a rotina aprisionada tirou toda a paciência que a restava. Tendo seguido a lei rigorosamente por anos, trazendo os culpados à justiça, não era aceitável que estivesse presa em uma situação tão embaraçosa e incomum como aquela, então Caitlyn se recusou a dar qualquer resposta. Não demorou para que, sem que a ex xerife se mostrasse útil, os novos responsáveis agissem com violência para ter as informações que buscavam sobre Jinx.

Já era madrugada quando um sujeito grande adentrou a cela sem muitas perguntas, esperando encontrar Kiramman sonolenta pelo horário para surpreendê-la com sua intervenção física, mas ao contrário do que pensava, os olhos da atiradora o encararam furiosos ao ser colocada contra a parede. Ela já estava preparada para o golpe que receberia no abdômen e tencionou os músculos, cerrando os dentes até que o homem a largasse para aplicar a arma de choque na lateral de sua cintura. A adrenalina sentida por Caitlyn era ainda maior que a descarga elétrica, que mesmo tendo queimado sua pele e a desorientado um pouco, não foi suficiente para a derrubar.

— A arma dela é mais potente que as suas — disparou a mulher, falando entre os dentes antes de acertar entre as pernas do grandão, que caiu na hora — Amadores!

A policial precisou agir rápido ao roubar as roupas do agente para que pudesse escapar, mas seu plano funcionou perfeitamente, já que conhecia cada canto, não só da delegacia, como da cidade.

Não tinha muitos lugares que pudesse ir para escapar das viaturas que logo estariam a sua procura, mas desejava mais do que qualquer coisa encontrar a garota dos olhos violeta em um desses lugares, entrar em sua mente tão inusitada e compreender melhor o que a fazia tão distante da realidade, que agora também parecia distante para Caitlyn.

Com esse pensamento que a caçadora seguiu direto para a fábrica abandonada onde havia estado da última vez, carregando apenas seu rifle.

Como já era esperado, o lugar estava vazio e ainda mais empoeirado, mas a energia ainda funcionava e tudo era exatamente da forma que conseguia se lembrar. Também não era seguro ficar muito tempo por ali, onde tinha sido tirada a foto que a trouxe tanta encrenca.

Jinx sentiu a enorme onda de excitação a invadir ao se aproximar da janela, contemplando o desenho gigantesco feito em azul neon no alto de um reservatório de água em meio aos prédios de Zaun. Aquilo não tinha sido feito por ela, mas era sua identidade ali e mais do que isso, ao ver de perto, tinha certeza de que era um chamado.

Embora Caitlyn estivesse atenta no alto da estrutura com seu rifle de alta precisão, as lentes não puderam captar a forma silenciosa com que a menina se aproximou, atirando uma armadilha que a prendeu facilmente em uma rede de metal equipada com um sistema de choque, ainda inativo. As tranças longas caíram quase nos pés da morena, quando Jinx sentou próximo a ela com uma postura despreocupada, chupando um doce que segurava por um palito, segurando com a outra mão uma de suas armas.

— Quer saber, antes de matar você, vou ter que confessar que gostei muito do que disse nessas imagens ridículas que estão rodando por todo o canto em Piltover de quando você espancou o grandão pra escapar da delegacia. Como era mesmo — a garota balançava os pés, que não tocavam o chão — "A arma dela é mais potente que as suas, amadores!" Ok, eu adorei e você tem razão! Eles não chegam perto dessas belezinha aqui — A zaunita se aproximou um pouco, sem encostar na policial — Que estranho, você não tem mais aquele cheiro bom, tá até fedendo a suor, os dias na prisão devem ter sido difíceis, mas até a porra do suor é um pouco cheiroso. Seu cabelo também tá horrível!

Apesar de estar imobilizada, Caitlyn sorriu com o pensamento de que seus planos tinham dado certo e Jinx estava agora bem na sua frente. Seria fácil escapar também, ainda que mais difícil do que escapar da prisão.

— Você pode me matar depois, mas primeiro tem uma coisa que quero saber.

— Ei, chapeleira doida, você não tá nem um pouco em posição de fazer as perguntas aqui — a de cabelos claros se movia de um lado a outro, movendo também os braços ao falar, até parar novamente em frente à mulher e acertar seu rosto com o cano da arma que segurava.

A policial inclinou a cabeça pra trás com o impacto e fechou os olhos com força, sentindo a ardência atingir o seu ápice, mas em seguida se dissipar gradativamente. Quando baixou o rosto, sentiu o líquido quente deixar seu nariz com velocidade, escorrendo pelo queixo, mas já não doía tanto. Respirou pesadamente por entre os dentes, encarando a mais nova com a mesma raiva que Jinx conseguia trazer tão fácil. Por trás de suas costas, Caitlyn já usava um pequeno canivete para cortar as redes de metal, mesmo que demoradamente, por isso precisava manter a atenção de sua adversária.

— O pior de toda essa confusão é que estão falando que você se aproveitou de mim, só porque é mais velha, como se eu fosse algum tipo de garota inocente — a voz de Jinx se tornou estridente e raivosa — E que VOCÊ me ajudou a escapar, como se não tivesse sido bem o contrário! Arrrrrgh! Eu odeio você! ODEIO!!! Acabar com a reputação que construí durante anos!

Imaginando que dizer algo enquanto estivesse presa apenas iria piorar tudo, Caitlyn ouviu em silêncio, mas ainda encarava a criminosa diante de si com uma mistura de raiva e concentração, movendo os olhos para acompanhá-la, enquanto ela continuava falando sem parar.

— E ainda foi um beijo horrível, credo! Que nojo! Você foi... — os olhos ainda mais raivosos que os da mulher presa procuravam as palavras — Foi gentil... Quem beija assim — Jinx aproximou ainda mais seu rosto, admirando o sangue que escorria do nariz da xerife e sorriu — Mas com o gosto do seu sangue me parece muito mais atraente agora, como a cadela obediente que você é — a língua da mais nova deslizou devagar do queixo de Caitlyn até seu nariz, sorvendo o líquido avermelhado em uma única lambida demorada.

Caitlyn já tinha as mãos livres em um enorme buraco na rede quando sentiu a língua quente contra seu rosto, mas só conteve a respiração e esperou que Jinx se afastasse para jogar longe a armadilha que a manteve presa. Rapidamente pegou o rifle e saltou tendo apoio nos próprios ombros da garota a sua frente, colocando-se atrás dela, enquanto pressionava o cano de sua arma na garganta da menor, puxando-o pra trás na intenção de a sufocar ainda mais.

— E agora? Estou em posição de perguntar algo?

— Deus! Eu odeio como você tem uma voz estupidamente sexy, mas ainda é nojenta e patética demais! Me larga! Grrrr... !!!

— Devia ter trazido mais alguém — pontuou Caitlyn se referindo ao fato de ter escapado facilmente sem que Jinx notasse.

— NÃO GOSTO DE SURUBA, SUA PERVERTIDA! ME SOLTA, PORRA!

A policial sorriu com a vontade de rir do que a mais nova havia dito, mas o fez apenas porque ela não podia ver. O sorriso durou pouco, logo a caçadora foi surpreendida com a arma de choque na cintura em um golpe certeiro. Sua mente constatou que era mesmo mais forte, enquanto perdia o equilíbrio e por pouco não a consciência, mesmo assim sentiu seu peso por cima das costas da garota, afrouxando o cano de seu rifle no pescoço de Jinx, enquanto caía sobre o corpo pequeno debaixo do seu. A de cabelos claros já contava sua vitória, imaginando o peso da xerife inconsciente sobre ela, mas antes de atingirem o chão, a bota de Caitlyn apoiou em uma coluna de metal bem a frente delas.

— Essa droga ainda dói — sussurrou a mais velha, virando o rosto pro lado e fechando os olhos por um momento — Mas as tiras de borracha fizeram seu trabalho e agora você vai me dizer porque me querem morta!

— Arrrgh! Então a policial certinha que não fala palavrão e nem beija direito agora se vê traída pelo seu pessoal imbecil e a culpa é minha? Dá um tempo — Jinx respirou fundo com certo esforço para manter Caitlyn sobre seu corpo, estando ainda totalmente inclinada pra frente, mesmo que de pé com a xerife nas suas costas — É muito bom te ver assim desesperada, mas não foi nada além de um palpite, um palpite óbvio, que você como detetive não foi capaz de enxergar de tão idiota!

Não podia estar mais certa a última frase da jovem e por isso o rifle foi puxado com mais força ainda por Kiramman, que ainda o segurava com determinação contra o pescoço da garota, que a golpeava incessantemente nas costelas e coxas, tentando sair. Chegou a sentir as unhas afiadas rasgarem sua pele onde pôde alcançar em seu tronco, mas não recuou.

— Eu juro que se não me soltar, vai ter uma morte muito lenta e dolorosa, chapeleira com nome de campainha de armazém!

Dessa vez a mais velha, que a encarava de lado por cima de seu ombro ganhou uma expressão confusa, deixando claro que não tinha entendido a piada, o que Jinx rapidamente compreendeu e explicou.

— Caitlyn... tlyn... tlynnnn....

O tédio veio sem demora na face da policial, embora a garota risse sem se importar, a de cabelos escuros lançou um sorriso completamente forçado e irônico, antes de empurrar a menor com força, irritada por não ter respostas.

Mais populares

Comments

Cleidiane Silva dos Santos

Cleidiane Silva dos Santos

amando 😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍😍

2025-01-18

0

Jinxed

Jinxed

Incrível demais 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

2023-09-07

2

Ver todos

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!