Confissões

A dor é implacável, capaz de quebrar e despedaçar até os mais fortes e sem sentimentos. Ela queima através do corpo como uma tempestade, varrendo os pensamentos racionais, levando tudo o que é bom e distorcendo contra você.

Ela faz você implorar para não sentir.

Ela faz você se transformar em outra pessoa.

Os olhos se abriram para o teto branco e o brilho distante do fogo. O brilho suave dançava na frente dos seus olhos.

Angelina estava vagando entre a consciência e a inconsciência.

Na primeira vez que acordou, estava em um carro. Estava deitada no banco de trás, sua cabeça apoiada em um abraço quente e forte.

Na segunda vez, tudo estava mais confuso. Havia muitas luzes brancas e vozes misturadas que ela não reconhecia.

Estava sendo levada às pressas para algum lugar, que parecia um hospital e ela conseguia se lembrar claramente de um homem de máscara médica observando ela.

E a terceira vez foi agora. O pânico e a agitação haviam ido embora. Havia apenas o som distante do fogo da lareira no ambiente.

Sua boca estava seca e seu corpo estava rígido.

"O que... aconteceu?" O sussurro rouco escapou de seus lábios ressecados. Ela não tinha certeza se alguém ouviu ou se havia alguém na sala com ela, ela só queria falar com alguém, qualquer pessoa.

Então ouviu um arrastar de pés do outro lado da sala, seguido por passos pesados. Atordoada, ela olhou ao redor.

Nikolai se aproximou da cama, seus movimentos estavam um pouco desajeitados, como se o quarto estivesse girando e ele tivesse evitando cair.

"Angel..." Sua voz estava rude, meio arrastada e carregada de sotaque.

Ele cambaleou até ela, seus olhos cinzentos embaçados encarando sua figura fraca deitada na cama.

Nikolai se sentou na cama, tomando cuidado para não cair em cima dela. Uma garrafa vazia de uísque estava em sua mão, restos da bebida girando no fundo.

Ele estava completamente bêbado.

Ela o observou. Essa era a primeira vez que ela via Nikolai, o temido líder da máfia, desmoronado. Angelina o viu beber muitas vezes, mas nunca ficar completamente embriagado, como naquele momento.

"O que aconteceu?" A jovem repetiu, olhando para a figura desgrenhada de Nikolai na sua frente. "Meu... ombro dói."

"Você levou um tiro."

"Tiro?" Sua voz ficou assustada.

“Eu não fui cuidadoso o...suficiente” Nikolai falou arrastado, encarando o rosto pálido dela.

“Era um franco-atirador. A bala era pra mim, mas te atingiu no lugar.” Lentamente, ele estendeu a mão para ajeitar uma mecha solta atrás da orelha dela. Ele estava sendo tão gentil que isso poderia ser um sonho.

“Atingiu seu ombro, por sorte.” Ele explicou, “O médico disse que é só uma ferida superficial.”

“Entendo...” Ela não tinha certeza de como reagir a isso. “Quanto tempo... eu fiquei desacordada?”

“Dois dias.”

Nikolai se aproximou quando ela fez um movimento para se sentar.

“Não.” Ele rosnou.

Mesmo quando estava levemente embriagado, sua voz soava com uma autoridade que não permitia desobediência.

Ela gemeu de dor, levando a mão para acariciar o curativo em volta do seu ombro.

“Você sabe quem fez isso?”

“Ainda não.” Seus olhos ficaram escuros. “Mas quando eu descobrir, é melhor Deus ter misericórdia deles.”

Angelina engoliu em seco.

“Eu preciso...” Antes que ela pudesse terminar a frase, Nikolai já tinha pegado um copo de água na mesa de cabeceira. Sua grande mão ficou em frente ao rosto dela. Com cuidado, ele aproximou o copo de seus lábios. A água suavizou sua garganta seca. Ela a bebeu com vontade.

“Obrigada.” Ela murmurou quando ele recolheu o copo vazio.

“Por que você está aqui?” Angelina disparou a pergunta. Ela a tinha repetido em sua mente várias vezes. “Irina poderia ter me ajudado.”

“Não quero te deixar sozinha até encontrar quem te machucou.” Sua voz era séria, e suas palavras cheias de determinação. Parecia que não importava o que dissessem, ele não mudaria de ideia.

“Tão superprotetor...” O riso silencioso se transformou em uma tosse.

Quem diria que ser baleada é tão terrível?

“Você deveria dormir.” Nikolai acariciou seus cabelos dourados, seus dedos ásperos desfazendo os nós com cuidado. “Eu vou ficar aqui e cuidar de você.”

Ele começou a se levantar, parando de repente, quando ela o segurou pela borda da manga.

“Não.” Angelina estava desesperada por conforto, ao ponto de confundir o limite do bem e do mal.

Talvez fosse o lado vulnerável dele que a fazia querer que ele ficasse, ou talvez fosse por causa dos remédios que deram a ela. Somente naquela vez, ela não queria ficar sozinha, mesmo que a única companhia fosse o próprio diabo.

Nikolai se sentou novamente ao lado dela, em silêncio. Ele não era um homem de fazer piadas sobre as fraquezas das pessoas. Antes, ela poderia ter desejado que ele fosse assim, para facilitar as respostas, mas agora ela estava grata por sua natureza silenciosa e carrancuda.

Angelina aproveitou aquele momento tranquilo, antes que ele pudesse ser destruído.

Ela podia estar confusa por causa do ferimento, mas sua mente ainda estava afiada e curiosa.

“Você já me disse uma vez que todas as mulheres são sujas. Por que você pensa assim?” Ela perguntou, olhando para ele através de longos cílios.

“Porque elas são.” Nikolai olhou fixamente para o vazio a sua frente. “Elas são como a minha mãe. Todas elas, exceto você.” Talvez fosse o álcool falando. Certamente, ele não estaria dizendo isso se não estivesse bêbado.

Angelina permaneceu em silêncio, esperando que ele continuasse.

Mas ele não fez isso.

“O que me faz diferente?” Ela insistiu.

Uma parte persistente dela queria – não, precisava – saber mais sobre ele. O que o tornava do jeito que ele era? O que desencadeava todas as coisas cruéis que ele fazia? Por que ele odiava as mulheres? Tantas perguntas e tão poucas respostas. Essa era sua chance. De jeito nenhum ela a deixaria escapar.

“Você pensa que não sei o que está fazendo, Angel?” Seu olhar duro se concentrou nela. “Eu não estou tão bêbado assim.”

“Eu quero saber mais sobre você.” Ela não queria desistir.

O silêncio se instalou entre eles e então, ele suspirou. Os olhos dela se arregalaram quando ele subitamente começou a tirar a camisa.

"O que você está fazendo?”

"Você não queria saber?" Ele disse simplesmente, jogando a camisa de lado.

"Minha mãe era uma mulher patética e nojenta, presa em um casamento arranjado com meu pai, que também não era alguém bom." Ele começou, "Ela me odiava porque eu era filho dele. Parte dele." Com cuidado, ele pegou a mão dela, levando-a até seu peito musculoso.

Sob camadas de tatuagens havia profundas cicatrizes de feridas já curadas.

"Ele só precisava dela para ter um herdeiro. Quando eu nasci, ele não se incomodou mais em esconder seus casos, o que a fez me odiar ainda mais."

Queimaduras de cigarro. Inúmeras delas espalhadas em seu peito e abdômen tenso.

"Ela fez isso com você..."

"Fez." Ele confirmou. "E pior. Quanto mais velho eu ficava, mais abusos ela sentia obrigação de fazer comigo." Seu tom era sombrio.

Ele guiou a mão de Angelina para as cicatrizes em suas costelas. Angelina engoliu em seco. Ela nunca esperava sentir pena do homem que tirou sua liberdade e matou seu amigo. E, no entanto, sentiu.

"Ela ria quando eu chorava."

Nikolai tinha um olhar distante nos olhos, um ódio enraizado. Ele apertou a mão dela quase a ponto de machucar antes de se controlar e soltar sua mão.

"Eu a matei quando tinha dezesseis anos."

Ela prendeu a respiração. Ele disse isso sem emoção, como se fosse uma coisa natural de se fazer. Mas ela não o culpava, não depois do que essa mulher fez com ele...

"Você acha que eu sou um monstro pior agora, não é?" Seu sorriso foi arrepiante até os ossos. Isso fez o sangue dela gelar nas veias.

"Não." Ela disse após uma pausa. "Você é um monstro, mas eu não acho que isso te faça pior. Eu nunca poderia entender o que você passou. O que foi feito com você é horrível. E eu não te culpo pelo que você fez..."

Ele estudou a expressão dela, procurando por mentiras. Ele não encontrou nenhuma. O rosto de Nikolai relaxou em algo que ela nunca tinha visto antes. Ele sorriu genuinamente.

"Você é boa demais pra esse mundo, Angel. Boa demais pra mim..." Ele disse em tom baixo.

Nikolai se aproximou dela até que ela pudesse sentir o cheiro de álcool em sua respiração. Ela não se importou.

Quando ele a olhava assim, como um cachorro abandonado, ficava mais difícil vê-lo de forma ruim.

As rachaduras em sua máscara se partiram e ela caiu, revelando um homem quebrado por baixo. Eles se olharam nos olhos, suas respirações se misturando.

Seus lábios se separaram. Nenhuma palavra foi dita. Nenhuma palavra precisava ser dita. Em vez disso, ela levantou a cabeça e seus lábios se encontraram.

O mundo desapareceu ao redor deles. Para ela, não importava se tudo deixasse de existir. Pela primeira vez, ela o beijou com paixão. Talvez ela viesse a se arrepender disso, mas isso era um problema para o amanhã, não agora.

Sua mão pequena acariciou seu rosto definido, fazendo ele sentir a pele macia mover-se delicadamente sobre ele. Nikolai gemeu com seu toque, aprofundando o beijo.

Nenhum dos dois se afastou, e ambos queriam mais.

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Comments

Fátima Alfiery

Fátima Alfiery

Tão sem vergonha e monstro como ele. parei de me importar. quero que os 2 se danem.

2025-02-26

0

Maria Sena

Maria Sena

Tomara que ela não se torne uma pessoa fria e cruel igual a ele e que não amoleça o coração e perdoe ele fácil.

2024-11-09

0

Maryan Carla Matos Pinto

Maryan Carla Matos Pinto

eita
a coisa vai ficar boa

2024-10-09

1

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