Sem Controle

“Você me traiu.”

Ela conhecia aquele tom. E conhecia aquele olhar também. Seus olhos brilhavam de crueldade. Frios. Implacáveis.

Da última vez que ele a olhou assim, ela estava implorando para que ele poupasse Amanda.

“Angel, Angel...” Ele balançou a cabeça de uma maneira assustadora. “Estou desapontado. Será que fui ingênuo em pensar que você aprendeu sua lição?” Ele falou, pegando duas luvas de couro de seu casaco preto. Ele as colocou, movendo os dedos longos como se estivesse verificando o ajuste.

Sua respiração engasgou em sua garganta. Dog e outros dois homens entraram no camarim. O clique da fechadura sendo girada fez o sangue gelar em seus ossos.

“Angelina, o que está acontecendo? Você os conhece?” A confiança tinha desaparecido da voz de Dário. Seu rosto estava pálido como cal, e o aperto em sua cintura desapareceu.

“Nikolai... eu posso explicar. Não machuque ele, por favor.”

Ela deu um passo para trás, lutando para manter a voz firme.

“Ele não fez nada. Eu juro-“

Angelina parou de falar, quando um dos homens chutou de repente, Dário com força suficiente para fazê-lo tombar no chão.

“Não!”

Outro chute.

“Pare!”

Um estrondo ensurdecedor seguido por um gemido dolorido, o som terrível de ossos quebrando.

“Eu disse para parar.” Angelina se lançou contra um dos homens. Ela queria arrancar os olhos deles.

Esses homens machucavam pessoas inocentes e para quê!? Para agradar um monstro. Para salvar suas peles da ira dele.

Covardes. Todos eles.

Dois braços fortes envolveram sua cintura, o cheiro familiar preencheu seu nariz. Nikolai a segurou por trás, seu peito pressionando-se contra suas costas.

“Shhh. Você só precisa assistir.” Ele sussurrou em tom baixo contra o seu pescoço. Com facilidade, ele a segurou para que não interrompesse a surra impiedosa.

Ela sentiu ele sorrir contra sua pele quando seus lábios traçaram o lado de seu pescoço.

“Aproveite o show, meu Anjinho. Você trouxe isso para si mesma.”

Dário havia se encolhido em uma bola no chão. Seus braços cobriam a cabeça em uma tentativa fraca de se proteger. Ele havia implorado a eles para pararem, mas o mundo estava agora um mar de dor e medo. E ela, impotente, era forçada a assistir a cena brutal.

"pare...”, mas agora tudo o que Dário conseguia fazer eram barulhos estranhos parecidos com um engasgo. Sangue espirrou no chão, enquanto seu corpo estava todo ensanguentado.

Angelina chutou e gritou, mas o aperto de Nikolai não afrouxou. Ele a segurava como um coelhinho, saboreando seu tormento.

"Você é minha, Angel. Somente minha." Ele lembrou, as mãos enluvadas pressionando mais forte contra sua barriga.

Logo todos os ruídos cessaram. Ela se encolheu contra o peito de Nikolai, sem forças. Seus olhos vermelhos de chorar, observavam a figura imóvel de Dário deitado em seu próprio sangue.

As características alegres de Dário agora estavam completamente irreconhecíveis. Inchadas e ensanguentadas. Seu peito já não se erguia para respirar. Seus olhos azuis não tinham o brilho da vida neles. Estavam vazios e distantes.

Ele estava morto.

Dog cutucou o corpo dele com a lateral de sua bota como se o garoto fosse nada além de lixo.

"Livrem-se do corpo." Nikolai ordenou. Seus braços a soltaram, permitindo que ela caísse de joelhos.

Angelina ouviu ele dizer algo, mas não conseguiu entender as palavras. Ela olhou para o cadáver mutilado.

Nenhuma lágrima. Nenhuma súplica.

Algo dentro dela havia se quebrado. Um vazio estranho tomou conta de sua alma.

Ela nem sequer se abalou quando Nikolai se ajoelhou ao seu lado. Sua grande mão segurou seu ombro, mas mesmo assim ela não se virou para olhá-lo.

Ele vai destruir tudo... Matar todos. Eu não posso escapar dele.

De repente, sua cabeça girou. Ela se sentiu mal. Muito mal.

Suas mãos caíram no chão de azulejos onde o sangue estava se acumulando ao redor dela. Ela também não conseguia respirar.

 Como se o ar tivesse sido roubado, o aperto de Nikolai em seu ombro apertou e ela o ouviu falar novamente, mas nada mais importava.

Os homens ao seu redor se moveram, um deles pegando o corpo de Dário pelos braços para arrastá-lo. Um rastro de vermelho profundo ficou marcado no chão.

A náusea piorou. Como se toda a força tivesse sido sugada de seus ossos, ela desabou no sangue. Então ouviu gritos. Nikolai a virou de costas no chão.

Aqueles olhos cinzentos profundos a encararam com uma emoção que ela não conseguiu entender. Ele parecia... Preocupado?

Um homem como ele não sentia empatia ou tristeza. Seus lábios se moveram, mas ela também não conseguiu ouvir sua voz. Os olhos dela estavam pesados e sua visão estava embaçada.

A escuridão, de repente, engoliu sua visão e ela recebeu a sensação como um carinho.

Vazio e paz a preencheu, como se estivesse saindo desse mundo.

Talvez ela pudesse escapar dele afinal...

 

...xxxx...

 

Tudo ao redor deles estava úmido e cheirava a mofo.

Estava frio.

Ela olhava para o garoto deitado em seu colo, passando suavemente os dedos por seus cabelos castanhos claros. Eles eram macios como seda. Ele não tinha mais de quinze anos, mas suas características eram endurecidas como as de um homem mais velho. Seus olhos estavam fechados, como se estivesse dormindo.

"Você está seguro", sussurrou Angelina, com uma voz infantil.

Suas mãos eram pequenas e ligeiramente arredondadas. Ela também era apenas uma criança. Os dois eram, mesmo que ele fosse mais velho. E os dois estavam perdidos.

"Você está seguro agora”, repetiu ela.

O garoto fez uma careta como se estivesse com dor, soltando um suspiro dolorido. E então seus olhos se abriram...

... ...

...xxx...

 

"Ah!" Um grito agudo escapou de seus lábios.

Angelina acordou na cama sobressaltada, todo o seu corpo voltando à vida de uma vez. O teto familiar a encarava de volta.

Mais de uma noite ela tinha passado olhando para ele na escuridão, pensando no que a vida reservava para ela.

Acalmando sua respiração, ela se sentou lentamente. Uma parte dela havia esperado não acordar, mas ali estava ela, de novo, em sua gaiola dourada.

Um tubo de soro estava preso ao seu braço, um líquido transparente fluindo lentamente em suas veias.

Ela não conseguia se lembrar de como chegou nesse estado, mas lembrava do resto. O sangue. Os gritos de agonia quando Dário foi espancado até a morte. E o estalo.

Ela não conseguia ter certeza se foi o estalo dos ossos dele se partindo ou algo dentro de seu próprio corpo. Fisicamente nada doía, mas o buraco rasgado em seu coração estava cheio de dor amarga.

Gotas de sangue pingaram nos lençóis brancos. Ela arrancou a agulha de seu braço, como se não se importasse.

Suas pernas estavam trêmulas, mal capazes de sustentar seu peso quando ela se levantou.

O quarto estava quase completamente escuro, assim como seu coração. Ela se sentia tomada por algo feroz e perigoso. Uma força desconhecida a obrigava a andar, um único pensamento dominando sua mente.

Eu não posso escapar dele.

Não.

Eu tenho que escapar dele.

Eu tenho que... Eu tenho que...

Ela abriu uma gaveta do criado-mudo. Uma faca de cozinha brilhou na escuridão. Há alguns dias, ela tinha a pegado do carrinho de Irina. Era apenas para segurança, mas agora o propósito havia mudado completamente.

Seus dedos acariciaram a lâmina fria e afiada.

Eu tenho que...

Mesmo em sua mente, ela temia aquelas palavras, mas sabia que não podia ter medo.

Ela respirou trêmula. Seus olhos se fecharam e ela apertou o cabo da faca com força. Seu olhar estava determinado.  

Como se suas pernas tivessem vontade própria, ela caminhou para fora de seu quarto em direção ao quarto de Nikolai.

Ela só esteve lá uma ou duas vezes. A maioria das noites que passava com ele, nunca era no seu quarto. Ele era um homem muito reservado e cheio de segredos, nunca permitia que ela ficasse por mais tempo do que ele precisava dela.

Ele era estranho. Um monstro estranho.

Mas, talvez depois daquela noite, Angelina se tornasse pior que ele.

Seus passos pararam na frente da porta dele. A luz se infiltrava pelas frestas. Ele não estava dormindo.

Angelina testou o peso da faca em sua mão.

Eu tenho que...

Ela engoliu em seco.

Eu tenho que...

Seu coração batia mais rápido em seu peito enquanto ela empurrava lentamente a porta aberta.

Eu tenho que matá-lo.

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Comments

Fátima Alfiery

Fátima Alfiery

inacreditável, autora, depois dele assassinar o Dario na frente dela ela ainda vai ficar com ele????????

2025-02-26

0

Ariane Sales Gerber

Ariane Sales Gerber

Que susto, eu pensei que ela ia se matar na frente dele.

2024-12-09

0

Maria Sena

Maria Sena

Nossa, eu não aguento essa aflição, é um tormento sem fim, acho que esse homem é um psicopata, louco, lunático, ou melhor, um assassino.

2024-11-09

1

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