Olhos Famintos

Pum Pum Pum

 

O coração dela batia nos ouvidos mais alto do que o motor do Mercedes preto. Os vidros eram escuros e o couro fino parecia gelado contra a pele dela. Mas isso não era nada comparado ao desconforto que ela sentiu quando Dog ordenou que ela colocasse uma venda nos olhos.

“Precaução” ele disse. Para onde quer que estivessem indo, ela não deveria ver o caminho.

Essa foi a pior viagem de carro que ela já fez, incluindo a vez em que o pai dela bateu em uma árvore quando ela tinha cinco anos.

Sem rádio, sem conversas, sem visão, apenas suspense.

Sua respiração parou quando sentiu o veículo parar suavemente. Ele tinha dirigido em uma estrada por cerca de quinze minutos. A viagem foi longa. Onde quer que estivessem, não estavam mais na mesma cidade.

A porta ao lado se abriu.

“Você pode tirar isso agora.” Dog falou, já se afastando do carro.

Quando Angelina removeu o pano preto dos olhos, ela ficou de boca aberta. O carro estava estacionado em frente a uma mansão enorme. Daquelas que só se vê em filmes. Pintada de branco polar, a fachada intimidadora pairava sobre a paisagem desértica.

Tinha uma beleza perigosa. Mesmo que ela não soubesse o que havia lá dentro, ainda tinha a atmosfera de um lugar de onde você não saía facilmente. Câmeras de vigilância estavam posicionadas em cada canto, e o latido distante de cães guardando o perímetro ecoava no ar noturno.

“Vai entrar ou não vai?” A voz do Dog a trouxe de volta à realidade. Angelina acenou apressadamente.

“S-sim.” Ela subiu apressadamente as escadas em direção a duas portas grandes que levavam a um saguão luxuoso.

“Fique aqui. Não toque em nada e não saia daqui. Eu não preciso explicar o que acontece se você fizer isso.”

Ela balançou a cabeça. “Entendi.”

E assim, Dog se afastou, deixando-a parada no meio da sala gigantesca e sozinha. Não demorou mais do que quinze minutos e ele voltou com a mesma expressão sem emoção no rosto e ordenou que ela o seguisse. Se não fosse o estresse borbulhando no fundo de seu estômago, ela poderia ter prestado mais atenção na casa lindamente decorada.

A mansão era tão grande que ela rapidamente perdeu todo o senso de direção.

Quando chegaram à porta certa, ela já não se lembrava mais de como encontrar a saída. Se bem que isso não ia ajudar muito se as coisas desandassem.

Dog bateu, e momentos depois uma voz profunda veio do outro lado. "Entre."

Seus nervos paralisaram. A porta se abriu lentamente, revelando um amplo escritório com uma grande mesa de carvalho envernizado no meio.

Olhos prateados familiares se fixaram nela no momento em que ela deu um passo para dentro. Nikolai estava inclinado em uma cadeira de couro, a fumaça do cigarro pairando sobre seu rosto.

Ele a examinou como um predador faria com sua inocente vítima.

"Que surpresa. Não estava esperando um anjo no meu escritório." Ele não parecia muito surpreso em vê-la, como se já soubesse que ela viria até ele mais cedo ou mais tarde. O olhar sombrio em seus olhos era perturbador. Ele nem piscava enquanto a observava através da fumaça que desaparecia lentamente.

Angelina engoliu o nó que se formou em sua garganta.

"Eu vim falar com você sobre... a proposta." Suas mãos se fecharam ao lado do corpo, os nós dos dedos ficando brancos. "Ainda está de pé?"

Nikolai aproveitou mais um momento para saborear a jovem trêmula e indefesa à sua frente e, em seguida, se levantou lentamente mostrando toda a sua altura.

O caro paletó do terno estava ajeitado com firmeza em seu corpo. Ele caia perfeitamente sobre seus músculos definidos, curvando levemente sobre os bíceps delineados.

De forma provocante e lenta, ele se aproximou, dando uma tragada em seu cigarro. Os olhos prateados nunca se desviavam de Angelina, a deixando ainda mais desconfortável.

Ele parou bem em frente a ela. A fumaça foi soprada na direção do seu rosto, fazendo ela tossir um pouco.

O cheiro do cigarro a fez querer se afastar, mas ele a prendeu apenas com o olhar. Seus dedos subiram para brincar com uma mecha solta dos cabelos dela. Ele enrolou suavemente a mecha em seu dedo antes de se inclinar um pouco para inalar o cheiro.

Um grunhido baixo ecoou em seu peito, seus olhos frios fixos nos dela.

“Está de pé.” Ele finalmente respondeu, soltando seu cabelo, como se tivesse saído de um transe. Sua voz, de repente, ficou ameaçadora. Deu arrepios.

“Se eu... aceitar... você limpará a dívida do meu pai? Você vai nos deixar, a mim e à minha família, em paz para sempre?” Angelina se forçou a falar com uma voz firme.

“Sim. Se você vender sua virgindade para mim, eu farei isso.”

“Como posso ter certeza?”

De repente, Nikolai segurou o queixo dela, inclinando sua cabeça para cima, mais próxima de seu rosto.

“Se eu prometo algo, eu cumpro minha palavra, Angel.”

Angelina engoliu em seco, olhando para seus belos traços endurecidos.

“Então, eu aceito.” A luta para dizer essas palavras foi mais do que ela esperava. Ela não queria se vender. Apenas alguns dias atrás, ela estava certa de que nunca tomaria uma decisão assim. E agora... lá estava ela.

Um pequeno sorriso apareceu nos lábios dele.

“Boa escolha.” Nikolai se curvou um pouco, seus lábios a centímetros dos dela. “Minha Angel...”

Ela já estava esperando que ele a tocasse, mas em vez disso ele recuou, deixando Angelina confusa.

Nikolai voltou para sua mesa, amassando o resto do cigarro contra a mesa.

“Não faremos isso aqui.” Ele olhou para ela novamente, “A primeira vez tem que ser especial.”

Seu coração batia mais forte em seu peito.

“Encontre-me no Hotel Royale no sábado, às 8 da noite, em ponto.” Ele se sentou novamente à sua mesa. “E não se atrase, senão o acordo está desfeito, e eu dobrarei o dinheiro que seu pai me deve.”

 

...xxxx...

 

“Conta tudo.”

“Conta o quê?”

"O que tá rolando com você?" Amanda tinha passado o dia inteiro tentando manter uma conversa com Angelina, sem ela ficar no mundo da lua de uma hora para outra.

"O que você quer dizer?"

"Ah, não se faça de doida. Você sabe o que eu quero dizer. Você anda deprê ultimamente. Tá com cara de cansada e nem fala comigo como antes. Nem respondeu minhas mensagens ontem." Sua voz mudou rapidinho de irritação para preocupação genuína. "O que tá rolando, amiga? Sabe que pode me contar tudo."

Angelina parou no meio do corredor. Ela não tinha dormido a noite toda e o treino a deixou esgotada. Além disso, ela tinha que encontrar o Nikolai à noite. Parecia que o mundo estava pesando nos ombros dela.

"Você tá só imaginando coisas. Só ando cansada ultimamente. Não sei o porquê." Era uma mentira meio esfarrapada, ela sabia. "Só preciso descansar um pouco."

Não posso simplesmente falar " tô prestes a vender minha virgindade pra um chefão do crime porque meu pai é um jogadorzinho sem-vergonha".

Os olhos da Amanda se estreitaram desconfiados.

“Tá bom." Ela bufou, "Não me conta então."

Dramaticamente, ela cruzou os braços no peito. Havia um toque de tristeza nos olhos dela.

“Achei que a gente podia conversar sobre tudo, mas acho que me enganei. Não tô brava, só quero minha amiga animada de volta."

A mandíbula de Angelina se contraiu. Era quase impossível segurar as lágrimas, mas ela não podia envolver a melhor amiga nisso. Deus sabe do que aquele cara é capaz.

"Ei!" Uma voz masculina doce veio de trás dela, antes que o cérebro dela conseguisse formular uma resposta boa o suficiente. Angelina virou rápido, deparando-se com o rosto alegre do Dário.

"Estava esperando te encontrar. Você não respondeu minha mensagem ontem. Fiquei preocupado." Um sorriso largo, mas meio nervoso, aparecia nos lábios dele. Se existisse um Príncipe Encantado, seria o Dário. Gentil, carinhoso e bonito. Ele tinha todas as qualidades que você pode desejar num cara. Qualquer garota amaria namorar ele.

"Mensagem? Ah- Aquela mensagem!" Angelina gaguejou, sentindo o rosto ficar vermelho. "É, desculpa, estava muito ocupada."

"E então? Qual é a resposta? Talvez a gente possa tomar um café hoje."

Caramba. Por que o sorriso dele faz eu me sentir a pessoa mais cruel do mundo?

"Não posso. Tenho... coisas importantes pra cuidar. Vai levar um tempo." Angelina tentou esconder a amargura na voz.

"Ah." O rosto do Dário caiu em decepção. "Tudo bem então."

"Mas estou livre semana que vem. Segunda-feira, talvez?" Ela acrescentou rapidinho.

Essa noite seria um pesadelo, mas depois disso ela estaria livre novamente. Poderia sair com o cara que ela gostava...

O sorriso voltou rápido no rosto ensolarado dele.

“Ótimo! Segunda-feira então. Vamos nos encontrar depois das aulas." Dário se despediu acenando e dando uma última olhada para Angelina antes de sair.

Ele fica bonito até de costas...

"Bem, bem, bem..." A carranca anterior da Amanda foi substituída por um largo sorriso. "Alguém acabou de marcar um encontro, hein?"

Dessa vez, Angelina deixou escapar um pequeno sorriso. "Não é assim. Só queremos discutir a rotina dos ensaios."

"Claro, claro. Que rotina estamos falando exatamente? Geralmente na cama é uma coisa ruim, mas com ele eu não me importaria." Amanda cutucou o ombro de Angelina com o cotovelo, um olhar sabido estampado no rosto.

"Para com isso. Você tá exagerando." Angelina riu, com as bochechas coradas. Ela sonhava com o Dário desde o primeiro dia. Essa era a primeira vez que ele a chamava pra sair, e ela não queria criar muitas expectativas só pra ser dispensada. Embora, uma parte dela estivesse dando pulinhos de alegria até...

Ping!

Uma mensagem de um número desconhecido lembrou o lado sombrio da sua vida.

Hotel Royale. 20h. Não se atrase.

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Comments

morena

morena

🥹

2024-12-05

0

Maria Sena

Maria Sena

Eita que a ansiedade tá a mil, imaginando inúmeras coisas que pode acontecer. Coitada da Angel.

2024-11-09

1

Cleo Mendes

Cleo Mendes

acho q esse Dario também não me engana kkkkkk

2024-09-01

0

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