cap_20

— Está na hora de aceitarem que estou saindo das suas vidas. Falam que é família, mas lembro de cada vez que fui deixada de lado. Tratada como uma babá ou empregada, atrapalhando os meus planos e acabando sozinha até no aniversário de casamento. Abrem a boca cheia de orgulho para me pressionar a voltar, pois não tenho ninguém. Por quê? Por que exatamente querem que volte? Sei bem que não é por compaixão, dado o modo como sempre me trataram.

Todos olham espantados.

— Sinto muito o modo que lhe tratamos todo este tempo... — Começa a falar Gabriel, mas o interrompi.

— Me poupe! Quantas vezes lhe pedi para mandar sua amante embora? Quantas vezes me machucou por causa dela? Quantas vezes sua família me tratou como uma idiota e você assistiu calado? Agora vem dizer que lamenta? Sério?! Realmente lamenta, Gabriel? — Grito colocando tudo para fora, virando para seus pais. — E vocês, por que realmente estão aqui? Acham mesmo que vou voltar para casa e continuar sendo a empregada de vocês? São tão idiotas para cogitar que doente vou cuidar dos seus netos? Mesmo à beira da morte, nenhum de vocês realmente se importa comigo.

— Não é verdade! Lógico que me importo! É minha esposa! — Grita Gabriel.

— Se realmente importa, deixe-me morrer em paz, longe da sua família e de você que me fazem tão mal. — Digo caindo lágrimas. — Parem de me perturbar! — Grito chorando. — Tenham misericórdia de uma moribunda! Pelo menos uma vez na vida deixe ser feliz! Estou morrendo, não veem?! Estou morrendo...! — Cai em prantos.

Gabriel tenta se aproximar e me abraçar, mas saio correndo farta de tanto sofrer. Ouço Felipe vir atrás, porém quero sumir de todos.

Após meus gritos e choro, caminho pelas ruas debaixo da chuva fina que cai do céu. Como louca todos olham, vendo caminhar lentamente enquanto todos estão fugindo da chuva.

É difícil enfrentar a vergonha que sinto recebendo seus olhares de julgamentos. Estou cansada demais para ligar, atravesso a rua sem olhar para os lados, uma parte de mim está morta. Carros buzinam, motoristas saem irritados para brigar, mas ao notarem que meu estado pedem desculpas e seguem seu caminho.

Queria poder contar como superei tudo, dizer que a vida é como nos livros de conto de fadas, onde todos tem um final feliz. A realidade é dura, sobrevivendo de um longo caminho cheio de espinhos na escuridão.

Há pessoas que nascem e conseguem se adaptar à vida, vencem as tribulações que aparecem ao longo da sua jornada, porém há aqueles como eu, nascem num caminho onde do começo ao fim foram abandonados à própria sorte.

Sinceramente não sei o que ando fazendo, tudo o que tenho feito é ouvir e mendigar um pouco de afeto. Dói o peito, dói a alma, não seria melhor morrer?

Mas, eu quero viver! Quero ser feliz! Quero uma família, filhos, amigos e amor! Eu quero ser feliz! Quero muito ser feliz! Quero ser feliz! Eu... Quero ... Ser ... Feliz...!

Acabo parando num beco qualquer encolhendo na chuva e chorando. Prantos e lamentos cobrem meu rosto molhado, sufocando em meio à solidão.

Coloco minha cabeça entre as pernas cobrindo com os braços escondendo minhas lágrimas, quando sinto puxar meu corpo para um abraço. Felipe estava sentado ao meu lado, não disse uma palavra deixando chorar a vontade. Seus homens também ficaram por perto com o guarda-chuva nos cobrindo.

— Chore o quanto precisar, mas temos de voltar para casa, é perigoso ficar na rua até tarde. — Disse suavemente.

— Que casa? Não tenho lugar para voltar! — Disse ofendida em raiva.

— Não... — Se cala ao ver meu rosto contorcendo de ódio.

— Vá embora! Não é diferente deles! — Grito enfurecido.

— Está sendo irracional! Sempre estive do seu lado, foi você quem me deixou! — Retruca aos gritos.

Levantei furiosa, batendo contra o guarda-chuva indo embora, mas fui impedida pelas mãos de Felipe que me arrastou contra a vontade. Bati nele com toda a força, meu sangue ferveu numa raiva intensa.

De volta a casa, ele deu ordens para ficarem de olho em mim, proibindo de fugir. Também mandou prepararem um banho quente e comida para esquentar meu corpo frio. Continuei amaldiçoando/xingando sem parar, nada sendo ouvido por ele.

Agora sou eu quem lhe evito, como no passado, nos meus tempos de criança fico a maior parte do tempo escondida dentro do quarto. Olho sempre pela janela, o jardim e a beleza do mundo, pois é tudo que tenho direito.

A família do Gabriel mandou algumas cartas que queimei sem ler. Basta de tudo isso, na consulta Felipe sempre estava por perto por mais ocupado que estivesse. Numa das consultas deixei claro que não farei a operação para o desgosto dele.

— Está é minha decisão, não sua! — Grito.

— Jamais vou permitir que pare o tratamento! — Grita de volta.

— Não podem me obrigar! — Retruco.

O médico responsável explicou que sem meu consentimento eles não podem continuar com o procedimento. Discutimos muito na frente de toda equipe, Felipe queria obrigar de todas as maneiras, mas já desisti há muito tempo de tentar.

Fomos para casa em silêncio, pois nenhum hospital vai fazer o procedimento que pode causar minha morte sem minha assinatura.

— Sabe que se não fizer vai morrer!?

— De qualquer maneira posso morrer, então é melhor ter alguns dias para realizar meus sonhos.

— Sempre se colocando em primeiro lugar.

— Não sabe nada de mim!

— Sei o suficiente para saber que nunca foi me procurar! Nenhuma carta em meses, nem depois de sair do orfanato foi me buscar! Jurou que iria me encontrar e eu esperei! Esperei muito! Mas, descobri que foi para a universidade, depois se casou e nunca foi atrás de mim! Mesmo assim... Mesmo assim precisava de respostas, foi quando entrou num dos meus estabelecimentos procurando emprego. Sabe como me senti? Pensei que finalmente tinha ido me buscar! Mas, nem se lembrou do rosto do seu irmão!

— Realmente não sabe nada de mim. — Digo de cabeça baixa.

— Pare de agir como vítima! Deveria... — Ele para de falar ao notar o pouco que restava de brilho nos meus olhos.

Finalmente perdi a última gota de esperança, continuamos o restante do trajeto em silêncio. Dentro da mansão, a empregada perguntou sobre o jantar, mas não tive vontade para comer.

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Comments

Eloi Silva

Eloi Silva

tá vendo a mulher debilitada ainda cobra coisa do passdo

2025-01-15

0

galega manhosa

galega manhosa

que reviravolta

2025-03-18

0

Fatima Vieira

Fatima Vieira

caramba já q se refez na vida pq não procurou por ela? só ela teria essa obrigação muito idiota

2024-07-14

3

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