Para a minha surpresa, Camila veio ao hospital, exigindo entrar para me ver. Os seguranças do próprio hospital tiveram que conter a fúria da mulher. Gritava pelos corredores fazendo um escândalo para todos ouvirem.
— Piranha! Maldita! Morre logo sua desgraçada! Deve morrer, piranha! Isso é tudo culpa sua! Tudo culpa sua! Piranha! — Arrastada para fora.
Vi a cena ao passar pelos corredores para ir para a sessão de terapia. Ela estava descontrolada, arrastada por três homens, totalmente desequilibrado. Imagino, qual motivo dessa vez para ser xingada?!
Meus sogros no outro dia vieram ao hospital, ambos exigindo entrar. Lógico que não permitiram a cena do outro dia com Camila, contribuíram na melhora da segurança, a minha recusa em deixá-los passar foi a decisão final.
Todavia, se quero vencer a doença preciso estar bem emocionalmente.
Para proteger minha saúde mental, não por ódio. Nem sei o que sentir por eles, afinal nunca fui bem tratada, então não há nada para odiar, nem para esperar deles.
Fico analisando a situação, viver é um fardo enorme, quando me recuperar terei de arrumar três a quatro empregos para pagar as dívidas do hospital. Saí de casa sem um centavo no bolso, sem pedir nada do divórcio.
Sem casa para voltar, sem emprego, sem família. Para onde vou? Todos os dias sofro com essa ansiedade no peito, medo de recuperar e ter de sair do hospital. O local que aluguei foi ocupado, após Gabriel pagar dizendo que nunca mais voltaria para lá.
Minhas poucas economias estavam no aluguel adiantado por seis meses, fiquei apenas dois meses perdendo meu dinheiro e as poucas coisas que tinha.
Sou uma mendiga, órfã sob os cuidados do hospital, somente aqui tenho a segurança de nenhum deles me tocar. Talvez seja melhor morrer nessa cama do hospital, do que sair pela porta sem ter onde morar.
— Como está minha paciente? — Doutor diz sorrindo.
— Me sinto muito melhor, doutor.
— Os resultados dos seus exames também são satisfatórios, estou esperando o exame de sangue para lhe dar alta.
— Alta?
— Uma notícia maravilhosa, está reagindo bem aos medicamentos, não precisa mais ficar em observação, mas o tratamento vai continuar.
Mordi os lábios pelo meu temor ter chegado mais rápido do que posso processar. O médico continuou contando em detalhes de como a reação do corpo está diminuindo, entretanto, minha mente vaga pensando no que farei ao receber alta.
Pedir ajuda pra Gabriel? Implorar para ficar com Felipe? Exigir meu quarto de volta ou o meu dinheiro? Aquele sujeito, não parece alguém disposto a devolver dinheiro, um tanto perigoso.
Minha cabeça deu várias voltas e ao invés de implorar para Deus melhorar, rezei para que os exames de
sangue ocorre alguma alteração. O dia todo implorei para Deus pra ficar doente, sangrasse ou ocorresse qualquer coisa para continuar no hospital.
Esse é o tamanho do meu desespero, implorar para ficar doente por não querer ficar na rua ou ter que me humilhar e voltar para Gabriel.
Felipe entrou correndo no quarto contente pelos resultados, fiquei mal por sua alegria enquanto estou desejando continuar aqui. Conversando com o médico notou o meu rosto desconfortável, iniciando uma breve discussão.
— O que foi? — Sentou na beirada da cama.
— Não é nada. — Viro o rosto.
— Está melhorando, isso é motivo para estar contente. Mas, não está.
— Quero descansar. — Me deito cobrindo o rosto.
Magoei Felipe com a reação, entretanto sou covarde demais para lhe dizer sobre os meus medos. Ele suspira e senta na poltrona do lado, ouvi suas rezas ficando pior. Talvez se contar para ele que não tenho um lar... Não.
Seria pedir demais para alguém desconhecido. Tudo que posso fazer agora e me agarrar nessa falsa esperança para dar errado o exame. Assim, permaneci quieta nas próximas horas, onde todos torcem para sair daqui.
Quando o médico veio com os exames, senti um peso pressionando o peito. Seus gestos rápidos na minha visão pareciam lentos e a voz de decepção foi meu alívio.
— Infelizmente deu alteração no exame, mas em pouco tempo ela poderá ir para casa.
Felipe foi o que mais ficou decepcionado, balançando a cabeça visivelmente cansado. Meu alívio se misturou com o sentimento de culpa, deveria estar querendo melhorar, porém sinceramente estou morrendo de medo do que terei de enfrentar ao sair daqui. Este medo é tão grande que prefiro continuar morrendo do que ter de enfrentar o mundo lá fora.
Nos outros dias recusei seguir com o tratamento, Felipe teve de intervir várias vezes. O que levou suas idas aumentarem ao hospital, atrapalhando suas atividades do trabalho.
Passamos a discutir por horas, gritos ecoados por todos os lados.
— É estúpida?! Por que se recusa tratar? Qual é o seu maldito problema?
— Não quero e pronto!
— É criança? Tenho trabalho para fazer, não dá para vir correndo toda vez que você dar seus chiliques! Pare de dar trabalho! Por que está fazendo isso?
— O tratamento é ruim, me sinto fraca o tempo todo...
— Devo ser muito idiota para achar que esse papo funciona em mim! Merda! Abre a boca de uma vez ! Que Merda aconteceu para evitar o tratamento?!
— Para de xingar! Para de gritar!
Felipe perdeu a cabeça numa dessas discussões, acertando um soco no vidro da janela acabando cortando sua mão, nesse dia saiu e não voltou mais.
Percebi a burrada que fiz sendo tarde demais para voltar atrás. Implorei para ligar para ele, voltei a fazer o tratamento, mas nada fez voltar ao hospital. Sentia sua falta o tempo todo, queria pedir perdão, contar meus medos.
E assim ganhei a alta após os resultados dos exames, enfermeiros e médicos tentaram contatar Felipe para me buscar. Nenhuma das ligações foram atendidas, pedi para sair sozinha, eles se recusaram.
— Tem algum parente que possa te buscar?
— Nenhum.
— Seu corpo está debilitado, não podemos deixar que saia sozinha, é preciso alguém pra te buscar.
Sem escolhas entreguei o número de Gabriel, quem atendeu foi minha cunhada. Foi explicada a situação para ela, no entanto, sua resposta foi a que esperava.
— Meu irmão não tem nada haver com essa mulher.
— Senhora, por favor... — Ligação cortada.
A enfermeira olhou para mim com pena, balançou a cabeça e tiveram de me liberar mesmo sem ninguém para me acompanhar.
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Atualizado até capítulo 68
Comments
Sonia Bezerra
já sofreu tanto,e agora não a palavra gratidão???
2025-03-30
0
Elisete Protazio
quantas vozes elas entrou na fila da burrice
2025-03-25
0
Fatima Vieira
ela é muito burra
2024-07-14
3