cap_13

Algumas vezes, sou levada na cadeira de rodas para fora, ver o belo jardim que tem para os pacientes no mesmo estado. Alguns brincam de xadrez para passar o tempo, outros leem livros e outros apenas está quieto no canto observando o dia passar.

Respiro fundo, vindo imagens que esqueci da infância, a diretora do orfanato onde passei a metade da vida caminhando no meu rumo com expressão feia.

— Onde estava? Já disse para não sair do quarto!

— Por quê? Todas as outras crianças estão brincando aqui fora.

— Não retruca! Obedeça mal criada!

A maior parte da infância havia esquecido , mas nunca vou conseguir esquecer os primeiros dias, enviado para o orfanato. Tive de passar quase um ano no quarto, nem as refeições tive permissão para comer com todas as outras.

Acabei sendo excluída das outras crianças, seguindo fielmente as ordens dos adultos para enfim ter algumas horas de sol.

Diferente das outras, quando aparecia alguém querendo adotar, fui enviada para o sótão.

— Por que eu não posso ir? Também quero uma família!

— Não desobedeça!

Nunca tive uma explicação da parte deles, ficando no escuro até às pessoas irem embora. Odiava casa minuto naquele lugar, tentei fugir várias vezes e encontrar pais para me adotar.

Sempre quis saber o que levou eles me tratarem dessa forma. À medida que fui crescendo parei de tentar fugir, comecei a ajudar cuidar das outras crianças pequenas, voluntariamente, sempre que aparecia um casal para adotar, entrei no sótão e lá permanecia lendo livros.

Um dia pedi para mudar meu quarto para o sótão, o rosto da diretora foi estranho. Ela parecia está machucada e me abraçou tristemente. Na época não pensei muito sobre isso, reformando o meu novo quarto.

A diretora não era mais dura comigo como no começo, recebi até alguns mimos da sua parte, conquistei a sua confiança e pude me inscrever para a universidade graças ao seu apoio.

Quando sai pelo portão do orfanato todos os funcionários e a diretora estavam tristes, cada um entregaram um envelope numa fila que pareceu interminável.

— Boa sorte, menina. — Disse o jardineiro.

— Tome cuidado com estranhos — Disse a cozinheira.

— Não fica até tarde acordada. — Fala a porteira.

Por último, em se despedir foi a diretora que me abraçou em prantos.

— Oh, minha doce menina! Se pudesse te manter aqui! Queria tanto ter tido coragem pra te adotar.

Foi confuso a despedida.

Por muito tempo antes daquele dia, tive certeza que todos me odiavam. Porém, quando fui embora, recebi um amor que nunca imaginei.

Meu coração sempre esteve confuso em relação há aquele lugar, tanto que mesmo após casar nunca retornei.

Essa doença trouxe à tona todos os momentos que passei, como se jogasse na minha cara que fui lamentável. Por mais que tento não pensar nessas coisas, marteladas continuam batendo fortemente.

Por que meus pais me abandonaram? O que aconteceu com eles? Estão vivos? São perguntas que vem como flechadas atingindo meu peito.

Ver a família dos outros pacientes segurando suas mãos, nessa hora tão difícil. Suas preocupações, o carinho que demonstram, marido acompanhando suas esposas, machuca demais.

Sei que estou sendo rancorosa e amarga por sentir inveja, quando muitas dessas pessoas acabam morrendo. Mas, não consigo evitar ver como choram por suas mortes.

Será que alguém vai chorar por mim se morrer? Alguma pessoa vai abraçar meu corpo como vejo a mãe abraçando seu filho após a morte? Estou sendo egoísta por desejar que alguém chore por mim? Isso me faz uma pessoa ruim?

Nesses momentos que tomo ar, só consigo pensar em coisas inúteis. Estampado no rosto toda a dor que carrego na alma. Por sorte, raras vezes Felipe está comigo e sempre dá um jeito de beliscar a minha bochecha.

— Pensando em bobagens de novo?

— Se morrer promete que vai chorar?

— Que pergunta é essa? Não vou chorar se morrer.

— Imaginei que diria isso. — Abaixo a cabeça.

Felipe fica na minha frente, olhando meu rosto quase sem fio de esperança.

— Não vou chorar, pois não vai morrer. Sabe o quanto sou teimoso.

Ri da maneira que seu rosto está sério, ele sorriu de volta passando a mão no meu cabelo que acabou caindo aos montes.

Vi o tufo no olhar de pavor de Felipe, o médico sempre disse para se preparar para a queda do cabelo. Também já havia notado a queda e em alguns lugares ficar careca.

— Parece que está na hora de cortar. — Diz olhando para o cabelo com carinho.

— Fica comigo até o final. — Diz em voz apertada em choro.

— Até o final. — Beija minha testa com carinho.

Felipe empurrou a cadeira de volta para dentro, deixou sentada perto da janela e saiu para fazer um telefone. Minutos depois entrou no quarto e ficou do meu lado segurando minha mão. Reconheci o cabeleireiro de longe, pois é o mesmo que contratei para fazer os cortes do Gabriel.

— Olá, Elisa. — Diz sorrindo Fernando.

— Já faz um tempo.

— Continua linda como sempre.

— Pare de mentir, sei que estou horrível.

— Para nada. Sempre fui apaixonado por você.

— Por favor, não minta.

Fernando se abaixou ajoelhando perto dos meus pés, pegou minha mão e beijou docemente.

— Sempre fui apaixonado, mas não tive coragem de confessar meus sentimentos.

Felipe se irritou com Fernando lhe dando um murro na cabeça.

— Vai embora! — Grita Felipe.

— Larga de ser idiota! Essa é minha chance! — Retruca gritando Fernando.

— Acha que vou permitir se aproveitar da minha... — Para de falar no meio da frase. — De qualquer maneira, se mantenha longe.

— Nunca! Eu a amo de verdade! Tenho mantido esse segredo, por muito tempo! Agora está solteira, finalmente chegou a minha vez.

— Está disposto a morrer por esse sentimento?

— Se for necessário!

O clima entre eles ficou pesado, sendo necessário a intervenção do médico que brigou com ambos. Até os enfermeiros deram broncas neles, eles pareciam duas crianças ouvindo. Não resisti e comecei a rir da situação contagiando todos em volta.

Na presença de várias pessoas dentro do hospital que vieram me dar apoio, meu cabelo foi cortada. Pacientes, enfermeiros, médicos, faxineiras, todos do meu lado nesse grande momento.

Foi um momento de alegria para mim, saber que tantas pessoas estão torcendo pela minha melhora, querendo dar seu apoio.

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Comments

galega manhosa

galega manhosa

o título devia ser as desgraça de Elisa

2025-03-18

1

Eloi Silva

Eloi Silva

coitada sofreu a vida toda nunca foi feliz e agora essa doença

2025-01-15

1

Maria Luísa de Almeida franca Almeida franca

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Estou chorando sem Pará

2024-09-14

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