Um enterro digno e um alento a alma dos familiares.

...|Saul Harris|...

COM A RAIVA CONSUMINDO-O POR INTEIRO, Saul encerrou o breve momento de conversa que teve com Vincent e ordenou para que os seguranças o levassem de volta à sua cela. Neste exato momento, o oficial estava em seu carro, refazendo seu trajeto de volta ao Departamento. Durante alguns dos poucos momentos passados frente a frente com Vantoch, Saul tentou manter firme e intacto sua calma, paciência e profissionalismo. Vincent não levava nada a serio, era ardiloso, brincalhão, e isso, sem dúvidas, provocava a fúria do detetive-inspetor.

...• • •...

Sentindo os primeiros sinais de uma possível enxaqueca, Saul seguiu pelos corredores do Departamento, indo ao seu escritório. A única coisa que o oficial mais necessitava era de um pouco de paz e descanso. Entretanto, não existia paz ou tranquilidade quando se estava encarregado de algo muito importante. E este era exatamente o seu caso. Faltava menos de um mês para o julgamento de Vincent Vantoch, e era uma obrigação de Harris pôr um ponto final nessa situação toda.

— Senhor Harris! – chamou o jovem agente, seu auxiliar.

A conta gosto, o detetive parou e direcionou o seu olhar à Graham. Saul o encarou com um olhar azedo.

— Sim? – ele disse, a voz dissimulada.

O jovem agente se aproximou, trazendo consigo uma folha de papel, que, na verdade, tratava-se de um documento de extrema importância para os Grayson.

— Como o senhor pediu, os corpos de Jennifer Grayson e Bradley Smith serão liberados do laboratório, mas para que aconteça o sepultamento, o senhor precisa assinar este documento.

Sem responder mais nada, Saul apenas fez um sinal com a cabeça, indicando para que o jovem agente adentrasse o seu escritório. O detetive pegou o documento e assinou seu nome sobre a linha pontilhada. E a partir daquele momento, os Grayson e os Smith tinham a permissão para levar e enterrar os corpos de seus filhos.

Enquanto assinava o termo de liberação dos corpos, Saul se pegou pensando na possibilidade em acompanhar o velório e estar ao lado de Margareth Grayson e Joane Smith quando fosse feito o sepultamento dos filhos. Ele não estava nada bem, já que o mesmo sofria com os primeiros sintomas de uma enxaqueca violenta, porém quis estar ao lado de ambas as mulheres. Sabia que não seria fácil, mas ele iria.

— Eu irei acompanhar ambos os velórios. Diga isso às senhoras Margareth Grayson e Joane Smith. – Saul disse.

Em silêncio, John Graham assentiu ao pedido do oficial, deu meia-volta e saiu. Saul o observou caminhar pelo corredor até perdê-lo de vista.

...• • •...

Minutos após a autorização de Harris, alguns funcionários especiais do laboratório foram ao local onde mantinham os corpos sob um rígido congelamento. O primeiro corpo a ser retirado foi, obviamente, o de Jennifer Grayson. Todos os cuidados foram tomados, e, em questão mínima de minutos, o corpo já havia sido, devidamente, colocado dentro de um grande saco preto, o mais ideal usado para o transporte de cadáveres. Enquanto o mesmo procedimento era repetido, mas desta vez com o corpo de Bradley Smith, os outros funcionários encaminharam o grande saco preto contendo o corpo de Jennifer Grayson para uma pequena sala, a qual ficava bem próxima.

Lá, uma outra equipe já os esperava. O saco preto foi retirado da maca e colocado sobre uma mesa de aço. A equipe da funerária estaria agora responsável pelos cuidados finais aos corpos. Quando o saco preto fora aberto, uma visão deveras aterradora pôde ser contempladas por todos que estavam em volta da mesa de aço. Por mais que seu corpo estivesse sendo conservado por cinco meses, sua aparência era horrível. Seus cabelos haviam perdido um pouco de sua tonalidade natural e sua pele alva assumiu um tom azulado ou algo cinzento.

Sua região abdominal estava funda, o que para aquela equipe não fora nada de anormal este pequeno detalhe. A maioria de seus órgãos foram retirados durante a necrópsia. Seu couro cabeludo fora retirado e seu crânio havia sido serrado com um grande serrote. E em seu peito, um grande corte – o qual começava um pouco abaixo de sua garganta e ia até a altura de seu umbigo – estava costurado de uma forma bastante desleixada, a qual fora deixada pelo próprio médico legista.

Deitada sobre a mesa, o corpo morto de Jennifer teve sua mandíbula, seus braços e tornozelos amarrados com ataduras, a fim de mantê-la na posição ideal dentro do caixão.

A maquiagem mortuária teve início. Havia apenas duas mulheres na equipe, e estas mesmas foram as responsáveis por ter manter, por dar novamente toda a intensidade e o mesmo vigor que antes havia na garota. Uma grossa camada de maquiagem fora capaz de esconder a pele cinzenta e também conseguiu lhe dar um bom aspecto. Um aspecto bem mais vívido. Seus cabelos foram penteados, e após isso, o corpo fora, enfim, colocado dentro de um caixão.

E quando tudo e todos os procedimentos terminaram, o caixão foi conduzido à capela, vizinha ao cemitério onde a cova que receberia o caixão de Jennifer Grayson já estava sendo cavada. Os corpos de Jennifer e Bradley permaneceram juntos durante longos cinco meses, porém agora a separação de ambos foi definitiva: o corpo de Brad foi transladado à Washington DC, capital americana, e sepultado em uma espécie de mausoléu familiar.

...• • •...

Na capela, ao lado do cemitério, todos estiveram em silêncio absoluto. Um grande quadro com a imagem sorridente de Jennifer Grayson fora posta ao lado de seu caixão. Faltava apenas alguns minutos para a hora marcada do sepultamento, e agora os familiares mais próximos estavam fazendo suas últimas homenagens à garota que descansava, pacífica, naquele caixão. Wilbur não ousou em comparecer ao velório da filha. Ele não estava lá consolar sua esposa, que chorava e sofria com fervor diante o cadáver de sua filha. Sua única filha.

Saul se levantou de seu lugar. Assim como todos os outros, ele vestia preto, simbolizando o luto. O oficial superior da polícia, que, agora havia deixado o distintivo de lado e cumpria o seu papel de civil, caminhou na direção de Margareth.

— Eu sinto muito, senhora Grayson. – Saul disse, aproximando-se.

Os olhos da mulher estavam vermelhos, marejados, ao fitá-lo. Antes mesmo que pudesse falar algo, ela comprimiu os lábios. Diante ao oficial, ela engoliu a seco seu choro.

— Eu apenas quero que a justiça seja feita! – ela disse, a voz falha.

—Sim. Eu estou trabalhando para que tudo acabe bem e que a justiça seja feita, senhora Grayson. – ele explicou.

— Nada mais pode trazer a minha filha de volta. – ela disse, e não demorou muito para que novas lágrimas brotassem em seus olhos e deslizassem sobre sua face. — Vincent irá pagar por tudo isso!

— Bem, nós ainda não temos a resposta do juiz, mas creio que sua pena não será algo simples. – ele explica, afim de acalmar um pouco o coração e a alma atordoada daquela mãe. — Por conta da forma brutal presente em ambos os assassinatos, os anos de sentença serão bem maiores do que estamos ser. Mas se for considerado a vida da criança que sua filha trazia no ventre, os números poderão dobrar, chegando até mesmo a uma sentença perpétua.

Enxugando suas lágrimas, Margareth olha mais uma vez para o cadáver de sua filha.

— Seja como for, eu apenas quero justiça... – ela disse, não mais aguentando segurar o choro e suas lágrimas.

...• • • ...

O caixão foi lacrado e conduzido ao cemitério. Houve uma lenta caminhada fúnebre até a cova, cuja a lápide de mármore já ostentava o nome completo de Jennifer Grayson. Afastando-se um pouco, Saul preferiu por assistir, ao longe, o sepultamento de Jennifer Grayson. Ele sabia quão dolorido aquele momento era os familiares e principalmente para a mãe da garota. Margareth estava dopada de remédios, o que a deixou muito fragilizada.

— Senhor Harris? – uma voz feminina aproximou-se, incerta.

Lançando um breve olhar sobre seu ombro, Saul percebeu a aproximação de Annya Dumont. Ao voltar-se na direção da garota, ele se manteve em silêncio, impassível. Seus olhos estavam tão inchados e avermelhados quanto aos de Margareth.

— Pensei que você estivesse lá com os outros, acompanhando o sepultamento. – Saul disse, rompendo, então, o seu silêncio.

O olhar entristecido de Annya fixou-se ao rosto do oficial à paisana. Ela tinha algo em suas mãos. Era uma carta, disso Saul tinha certeza. A garota caminhou em sua direção e lhe entregou o papel que trazia consigo.

— Toma. Essa é uma das muitas cartas que Vincent escreveu para Jennifer. – ela disse, estendendo a carta ao detetive-inspetor.

Sem proferir nenhuma palavra sequer, Saul recebeu a tal carta. Após entregá-lo a carta, Annya Dumont se retirou, sem dizer mais nada. Pensativo, ele encarou o papel dobrado em suas mãos. Naquele momento, mil pensamentos invadiram, literalmente, sua mente.

Por conta da temporada fria que assombrara, repentinamente, o estado da Califórnia, Saul sentia sua pele arder no frio. E antes mesmo que pudesse ir embora, ele lançou um último olhar às pessoas enlutadas que acompanharam o caixão de Jennifer Grayson até o seu destino final. A senhora Margareth estava inconsolável, o que não era pra menos, afinal ela havia perdido a única filha que a vida lhe deu.

Saul ainda tinha a carta de Vincent em suas mãos quando observara o desespero de Margareth Grayson ao ver o caixão da filha ser coberto pela areia. Ele sabia perfeitamente sobre como era a dor em haver perdido alguém tão especial. Com mais alguns minutos, ele continuou observando. Estava atento a cada mínima movimentação durante todo o sepultamento. Agora, recostado em uma grande árvore, em frente ao cemitério, ele abriu, cuidadosamente, a dita carta de Vantoch à Jennifer Grayson. O detetive-inspetor não tinha em si grandes esperanças; não esperava encontrar ali algo útil, decerto. Mas, mesmo assim, ela a leu, atencioso.

...Seu pai nos descobriu, Jenny. Ele ficou muito furioso, me jurando morte caso me aproximasse novamente de você. Ele, assim como todos os outros, não aprovou nossa relação, mas você não vai ouvir ele, não vai? Eu sei que ele planeja te mandar para bem longe daqui, mas sei muito bem que você não vai. Sem mim, você não vai. E é exatamente por isso que quero que você venha morar comigo, Jenny. Longe dessas pessoas, o nossa relacionamento será cheio de alegrias e felicidades! ...

^^^Com amor, Vincent.^^^

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