...Hospital psiquiátrico...
...Ala de isolamento...
O PAVILHÃO DE CELAS SOLITÁRIAS era o mais complexo de todos os outros pavilhões existentes no instituto. Em um extenso corredor, quinze celas estavam disponíveis. E como já mencionado antes, o pavilhão solitário era o mais complexo e, consequentemente, o mais temido pela maioria dos internos. O sistema de segurança ali era muito alto, bem mais elevado do que o exigido para hospitais psiquiátricos. Ou melhor, "um manicômio de loucos", como eram reconhecidas as instituições que ofereciam esse tipo de tratamento mais severo aos seus pacientes rebeldes.
Não só nesta ala, mas também em todas as outras, as celas eram feitas com os mesmos materiais, os quais eram poderosíssimos no quesito de segurança. As celas comuns e as celas especiais – solitárias – possuíam portas de aço à prova de fogo, forros internos fixados e paredes reforçadas com três centímetros de placa de metal. E sem contar com as grandiosas e altivas muralhas resistentes que circundavam toda a instituição. Escapar de uma fortaleza dessas era quase impossível.
...• • • ...
Trancado em uma cela solitária, Vincent agora encontrava-se sentado sobre o chão frio. Suas costas estavam parcialmente recostadas contra a parede reforçada enquanto sua cabeça pendia para frente. Seus olhos estavam fixos ao chão. Sua respiração permanecera lenta e tranquila por alguns momentos. Por conta da péssima posição, o mesmo já começava sentir leves dores em sua coluna e que rapidamente espalharam-se por toda a extensão de suas costas. Incomodado pelas dores, ele elevou sua cabeça. Seu pescoço estava dolorido e seus olhos estavam cansados.
Não se ouvia mais nada. Nenhum barulho externo. Tudo estava em silêncio. Fazendo um pequeno esforço, Vincent conseguiu se reerguer. Ainda sentia seu corpo pesado e dolorido. Ele resmungou de dor algumas vezes ao dar os seus primeiros passos. Seu olhar astuto analisaram minimamente cada detalhe. Entretanto logo sentiu a frustração eminente lhe atingir, o sufocando por dentro.
Ele estava, definitivamente, presso em um cubículo.
E se uma vez Vincent reclamara da comodidade decadente de sua cela individual, esta estava duas vezes pior. Ali, havia apenas uma cama – nem um pouco atrativa aos seus olhos –, uma pia de aço inoxidável, e um vaso sanitário com a descarga quebrada. No suposto lugar onde estaria reservado apenas para o descanso do interno, era bem pior do que Vincent esperava ser. Não havia nem sequer um colchão, apenas uma laje de cimento. Um pouco mais ao lado, havia uma pequena abertura na parede, em um formato retangular, que funcionava como uma entrada de ar, já que a cela por inteiro era desprovida de janelas ou qualquer outra coisa que pudesse dar à Vincent uma visão para fora dalí ou um pouco mais de ar fresco aos seus pulmões. Bem, além da pequena entrada de ar, havia também uma portinhola na porta de aço reforçado, porém esta mesma apenas poderia ser aberta pelo lado de fora da cela solitária. E sempre que a abriam, ele ouvia um rangido terrível ecoar por toda a cela.
Caminhando de um lado para o outro, Vincent analisou tudo minimamente. O seu olhar astuto deslizou por todo o ambiente que lhe cercava, e, a imediata conclusão havia chegado: não havia câmeras. E se não teria ninguém para vê-lo através das câmeras, o seu plano poderia ser facilmente executado.
...• • • ...
Muitas horas depois de ter sido jogado como um animal naquela cela, Vincent Vantoch encontrava-se novamente sentado no chão, encolhido bem no canto da parede. Quando se está em um isolamento rígido como punição, o interno não deveria receber as dosagens de seus medicamentos. E este foi o caso de Vincent. Encolhendo-se cada vez mais no canto da parede gélida, ele sentiu seu coração disparar em seu peito enquanto as lembranças de seu passado retornavam à sua mente. Lembrava-se de como, no início, sua vida era bem mais leve e alegre ao lado de Jennifer Grayson. Mesmo sendo um relacionamento bastante julgado por muitas pessoas – inclusive pelo pai da garota –, eles tinham a felicidade que precisavam. Ao menos, ele pensou que fosse um relacionamento repleto de felicidades.
Ou, talvez, fosse tudo fruto de sua imaginação e que Jennifer Grayson não estivesse feliz ao seu lado.
— Merda! – ele praguejou.
As repetitivas lembranças de Jennifer Grayson retornaram, impiedosamente, aos seus pensamentos. Seu coração entrou em descontrole e a adrenalina corria solta em suas veias. Um grito estridente beirou seus lábios.
As imagens da garota estavam cada vez mais vívidas em sua mente, e isso o estava enlouquecendo. Já estava beirando mais um de seus recorrentes surtos esquizofrênicos. E em um impulso, Vincent levantou-se de onde estava. Suas pernas estavam vacilantes e seus passos já não estavam firmes como antes. Mas mesmo assim, ele tentou caminhar até a porta de aço. Queria pedir ajuda, mas antes mesmo que pudesse fazer isso, uma voz estridente em sua cabeça passara a agir, o influenciando de várias formas. A voz que ouvia ecoar, estrondosa, em sua mente era o seu principal indicativo que algo ruim estava prestes a acontecer. Na maioria das vezes, esta mesma se aproveitava de seu ponto mais vulnerável para torturá-lo e influenciá-lo da pior possível. Ele poderia facilmente ultrapassar isso, mas a verdade não era essa. Depois da morte de Jennifer e tudo que aconteceu nos últimos meses o haviam deixado com um emocional fragilizado. E, segundo os psiquiatras, o seu emocional abalado teve como resultado uma grande e perigosa tendência suicida.
As palavras doces da garota o atormentavam, assim como a imagem de seu corpo morto sobre o chão da sala de estar. Em momentos de agitação como este, as imagens aterradoras dos últimos segundos de vida de Jennifer Grayson o perseguiam. Agora, a voz em sua cabeça não mais falava, gritava. E talvez você esteja, neste exato momento, se perguntando acerca da tal voz mencionada um pouco mais acima. Então, a resposta para isso é a mais simples possível: em seus estágios avançados de sua esquizofrenia aguda, Vincent ouvia a sua própria voz, a qual berrava contra ele palavras de ódio e exigia, feroz, que mesmo colocasse um ponto final em tudo.
Há exatamente dois meses que Vincent vivia nessa condição. E cada vez mais ele estava convencido de que não conseguiria mais viver sem Jennifer Grayson. Conseguindo burlar as normas do hospital psiquiátrico, Vincent guardava consigo alguns pequenos e médios cacos de vidro. Inquieto, o homem berrou. Por mais que as celas abafassem os barulhos de seus gritos estridentes, ele sabia que alguém lá fora o havia escutado. Sabia também que alguém viria para vê-lo, conferir se tudo estava em ordem.
Vincent tentou, mas a sua primeira tentativa havia indo por água abaixo. Segurando um dos cacos de vidro, ele fincou a ponta contra a sua pele. No início, a dor era mínima, porém, ao deslizar a ponta afiada por toda a extensão de seu ante-braço, ele sentiu a dor aguda que se tinha ao ter sua pele rasgada. A quantidade de sangue que conseguira arrancar ao ferir o seu próprio ante-braço não fora nada em comparação a quantidade exorbitante de sangue que jorrara de seu pulso.
O corte era superficial, então não fora suficiente para matá-lo.
Em medida que o sangue escorria, mais e mais lembranças do passado retornavam à sua mente. De uma certa forma, ele queria esquecer. Porém, estava completamente incapacitado para isso. Mais dois ou três cortes foram feitos sobre sua pele. Ao estar indo cada vez mais fundo em sua mutilação inconsciente, seu sangue gotejava sobre o chão gélido da cela. O sangue de Vincent escorria mais e mais. No auge de seu surto esquizofrênico, o seu objetivo era único. E então, se continuasse ali, o seu passado nunca o deixaria em paz.
Passos apressados foram ouvidos no corredor. Outros seguranças estavam a caminho. Talvez tenham escutado os gritos de Vincent. Seu coração estava cada vez mais irregular e a ponta do caco de vidro ensanguentado fincou-se mais uma vez sobre sua pele. Vincent comprimiu seus lábios. Seu corpo estava fraco e sua visão estava turva. O último golpe fora o mais abrupto, fazendo-o gemer em dor.
O sangue vívido escorreu mais e mais. À cada novo pingo avermelhado sobre o chão, alguns poucos flashes de seu passado retornavam a sua mente. Seus lábios estavam pálidos e seu corpo já perdia as forças. O caco de vidro ensanguentado escorregou de sua mão, caindo em uma poça formada pelo seu próprio sangue. Vincent sentia todas as dores percorrer todo o seu corpo, porém nenhuma delas era tão forte e dolorosa quanto as lembranças de Jennifer Grayson. E em seus últimos minutos de consciência, ele lembrou de algo. Ele sentiu seu coração disparar uma outra vez em seu peito. As cartas românticas e os poemas improvisados que fazia para a garota. Jennifer amava suas poesias.
"Com amor, Vincent", era assim que ele sempre assinava suas cartas ou os seus poemas.
Os passos no corredor tornavam-se cada vez mais próximos. E esta foi a última lembrança de Vincent antes de sentir seu corpo cair e se chocar contra o chão manchado com o seu sangue.
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Atualizado até capítulo 20
Comments
corrinha
tomara que ele consiga fugir 👏👏👏
2023-11-01
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