...|Departamento Policial| ...
...|Cinco meses após o assassinato|...
...|Saul Harris|...
DEPOIS DE LONGAS HORAS DE TRABALHO, Saul Harris adormeceu. O homem encontrava-se em uma péssima posição, debruçado sobre a mesa de seu escritório. Os documentos retirados do dossiê estavam todos espalhados. Minutos antes de sentir seus olhos pesados, ele havia conversado com Nadia, sua esposa. Insistiu de todas as formas em lhe pedir desculpas, já que o mesmo havia rompido com a promessa que fizera quando ainda estavam em suas férias no Havaí. Do outro lado da linha telefônica, a mulher estava bastante desapontada com o marido. Saul prometeu que, depois das longas férias tiradas de seu trabalho, ele e a esposa iriam passar mais tempo juntos. E melhor. Iriam passar mais tempo ao lado do filho, o pequeno Nolan Harris.
Mas enfim...nada acontece como bem queremos, e novamente Saul Harris estava acorrentado ao seu trabalho.
— Senhor Harris! – uma voz gritou, adentrando subitamente o interior do escritório do detetive-inspetor.
Com a agitação e a voz estridente do agente, Saul Harris despertou, sobressaltado, de seu sono. De imediato, seus batimentos cardíacos irromperam em pulsações fortes e irregulares em seu peito. O olhar atordoado do homem fitou todo o ambiente ao seu redor e parou ao avistar John Graham diante de si.
— Porra! Mas que merda, garoto! – esbravejou ele, furioso. Por conta de seus batimentos irregulares, Saul sentiu leves pontadas em seu peito. — O que você quer? Me matar?!
O jovem rapaz comprimiu seus lábios e seus olhos arregalaram-se de maneira sutil. Ele estava apreensivo. Estar na presença do detetive não era como estar na presença dos outros oficiais, agentes ou subordinados de baixo escalão do Departamento Policial. Saul Harris o assustava. E, por alguma ironia, o jovem Graham trabalhava justamente como sendo o ajudante de Harris em suas investigações – embora o homem mais velho não aceitasse sua ajuda por ser jovem demais.
— Não, senhor. Jamais eu faria uma coisa dessas! – Graham respondeu, a voz trêmula e apavorada. — Eu vim lhe dizer que nós acabamos de receber uma ligação do hospital psiquiátrico de segurança máxima.
O olhar atento de Saul elevou-se novamente ao rosto do jovem agente.
— Ah, é? – ele disse, segurando uma caneta entre os dedos. — E o que eles queriam?
— Eles disseram que o paciente Vincent Ambrose Vantoch saiu do controle e agrediu um outro paciente da ala de isolamento, cravando um caco de vidro pontiagudo bem abaixo da clavícula de um interno da ala chamado John Elis Pollock.
Um suspiro pesaroso escapou dos lábios finos e ressecados de Saul. Suas mãos foram em direção a cabeça, os dedos deslizando por entre seus fios escuros.
— Ótimo. – ele diz, baixinho. — Eu conheço muito bem esse camarada. Já até perdi as contas sobre quantas eu o levei sob custódia. – as mãos ásperas e pesadas deslizam sobre sua face. Toda a frustração que antes sentia, agora havia se convertido em uma dor de cabeça insuportável. — Talvez eu deva voltar lá e conversar com o diretor-geral.
Erguendo-se de sua cadeira, Harris ouviu seus ossos estalarem e sentiu dores percorrer por toda a sua coluna. Um fato indiscutível: ele estava ficando velho. Em meios aos seus gemidos de dor, ele podia sentir a nítida consequência que lhe havia sido causada após a chegada dos 40.
Suas roupas estavam amassadas e seu corpo inteiro exalava um odor sutilmente desagradável de suor e perfume.
— Espere, senhor. – Graham tentou pará-lo. Havia mais dois avisos que o mesmo queria lhe dar. — Thierry MacCain está aqui para uma audiência.
Recolhendo e organizando alguns documentos, Saul perguntou:
— O caçador que entrou na palafita dos Smith e encontrou o corpo apodrecido de Bradley? – detetive indagou.
John Graham assentiu, em silêncio. Saul o encarou por alguns instantes, e, quando enfim estava pronto para sair de seu escritório, o jovem agente apressou-se em tentar lhe falar algo novamente.
— Margareth Grayson, mãe de Jennifer, e a melhor amiga da garota, Annya Dumont, também estão aqui.
De costas para o agente, o detetive-inspetor novamente questionou:
— E quem as pediu para que viessem até aqui? Eu solicitei apenas a presença de Thierry MacCain.
A voz autoritária do detetive-inspetor fez com que uma inevitável onda de arrepios atingissem o corpo do jovem agente. John Graham umedeceu seus lábios, e então continuou:
— A mãe de Jennifer disse que descobriu algo interessante no computador da filha. Já a outra garota, Annya Dumont, diz que pode repassar alguns fatos à polícia.
— Então...diga à elas que voltem amanhã. Eu mesmo irei interrogá-las. Mas realmente espero que não seja mais uma perca de tempo.
Saul Harris se retirou de seu escritório antes mesmo que John Graham falasse mais alguma outra coisa. Com seu inseparável bloco de notas e uma caneta desgastada em seu bolso, o detetive-inspetor seguiu em direção à sala reservada apenas para audições policiais. Seu corpo ainda doía en determinadas partes, entretanto Saul optou por ignorá-las. Afinal, ele tinha um trabalho super importante em mãos. E, decerto, não seria uma simples dorzinha que o faria desviar da trilha investigativa já traçada.
• • •
Chegando à sala privada de interrogatórios do Departamento Policial, Saul Harris logo se deparou com um homem velho e de aparência bastante desleixada. De fato, o tal Thierry MacCain não era nem um pouco como ele havia imaginado ser. O caçador era um homem de meia idade; cabelos castanhos, desgrenhados; dentes amarelados e alguns outros ausentes em sua arcada dentária. Seu rosto havia sido completamente marcado pelo tempo impiedoso, o qual deixou-lhe rugas e linhas expressivas bastante profundas. E, por um brevíssimo momento, Saul questionou a si próprio sobre qual seria o filme de horror que aquele senhor havia saído.
— Presumo que você seja Thierry MacCain, um caçador reconhecido e legalmente apto a caçada. Ou eu estou errado? – disse Saul, colocando sobre a mesa de aço todos os documentos que necessitava para guiar aquele interrogatório.
— Sim. Sou eu, sim. – a voz do caçador é rouca, áspera. Um tipo de voz que faria qualquer criança tremer de medo.
Saul puxa a cadeira e se senta de frente para o caçador. Um momentâneo silêncio recai sobre ambos. O detetive retira da pasta de documentos uma foto ampliada do rosto de Bradley e a exibe à Thierry MacCain.
— Bem, o senhor deve estar se perguntando o motivo para estar aqui novamente e dar, mais uma vez, o seu testemunho acerca do cadáver de Bradley Smith Jordan. – Saul diz. — E aliás, eu sou o detetive-inspetor Harris, oficial encarregado do caso.
O caçador pigarreou, e em sequência, seus olhos direcionaram-se a imagem de Bradley. Um sentimento de pena e lamentação instalou-se em seu peito. Era, sem dúvidas, deprimente saber que um rapaz tão jovem como Brad tivesse que acabar dessa maneira.
— Eu conheço os Smith. – o caçador disse, os olhos fixos a imagem sorridente de Bradley. — Conheci Brad há muitos anos atrás, quando ainda era uma criança.
Surpreso, Saul Harris franziu o cenho.
— E como os pais de Bradley era?
— Em geral, eram uma família exemplar. – o caçador responde. — A palafita era uma herança do pai de Bradley. E logo mais pertenceria à Brad.
Convencido, Saul guardou novamente a imagem do rapaz dentro da sua pasta de documentos.
— Conte-me tudo que lembrar do dia em que encontrou o cadáver de Bradley. – pediu Saul Harris, retirando o bloco de notas e a caneta desgastada de seu bolso.
Thierry MacCain suspirou, de maneira lenta e profunda. Saul analisou minimamente cada uma das expressões faciais do caçador. Tudo nele aparentava ser genuíno, emoções verdadeiras.
— Eu estava caçando, como de costume, e, quando menos esperei, senti um cheiro insuportável. Era carne podre. – ele explica. — De início, pensei que fosse algum animal morto na floresta, mas quando segui o rastro deixando pelo mal cheiro, parei em frente a palafita dos Smith.
Em seu lugar, Saul Harris anotou cada mínima palavra que o mesmo julgou ser importante para a investigação.
— Ok. Agora me responda: como ele estava quando o encontrou?
— Horrível. O corpo estava inchado, as moscas pousavam, e em algumas partes de sua pele haviam assumido uma tonalidade roxa. – Thierry disse. — Logo mais os vermes iriam devorá-lo.
Saul Harris fez suas últimas anotações.
— E Jennifer Grayson? – perguntou o detetive. — Sabe alguma coisa a garota?
— Apenas sabia que ela era uma namoradinha de Brad, mas nada mais que isso. – Thierry disse.
O detetive assente, compreensivo.
— A nossa audição acabou por aqui. Fique sempre por perto, e sob hipótese alguma saia da cidade. – Saul adverte. — Caso isso aconteça, eu irei atrás de você com um mandato de prisão em mãos.
— Não se preocupe, detetive. – Thierry o tranquiliza. — Daqui eu não saio.
— Ótimo!
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Atualizado até capítulo 20
Comments
Cecilia geralda Geralda ramos
até o detetive da medo kkkk
2023-09-10
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