...|Jennifer Grayson| ...
...Sete dias antes...
...do assassinato...
ELA NÃO SABIA COMO SEUS PAIS iriam reagir ao vê-la novamente. Pra ser sincera, Jennifer não sabia se iria ser bem-vinda depois de tudo que havia acontecido. Com certeza seu pai, Wilbur Grayson, não iria aceitá-la. Seu pai era muito rígido em suas decisões e odiava desobediência. E Jennifer o havia desobedecido.
...• • •...
À medida que a camionete de Vincent se aproximava da residência de seus pais, Jennifer se pegou lembrando de seu passado, quando ainda levava uma vida leve e sem as restrições que agora sofria. Antes, ela e a sua melhor amiga, Annya Dumont, sempre iam juntas para as festas noturnas, às quais eram, em sua maioria, organizadas pelos seus ex-colegas do campus. Diferente de Annya - que ia apenas para beber e pegar vários garotos aleatórios em uma só noite -, Jennifer ia apenas por ir. Às vezes nem sabia o porquê estava ali, rodeada de pessoas bêbadas ou drogadas.
Há três meses atrás, ela e a amiga foram novamente convidadas para mais uma festa noturna, organizada por uma conhecida de Annya. Aquela foi a última chance de liberdade que Jennifer Grayson teve. Se tivesse sido menos racional, neste exato momento, Vincent Vantoch nem saberia onde encontrá-la. Mas não. Ela preferiu ficar. Mas, se ao menos, ela conseguisse adivinhar o seu próprio futuro e destino, sem dúvidas nenhuma, ela estaria agora vivendo em Boston, ao lado de Bradley Smith. Mas enfim, como já sabemos, infelizmente nada disso aconteceu, e Jennifer Grayson e Brad estão mortos, com seus corpos sendo conservados em um laboratório da polícia, em L.A.
- Jenny - a voz rouca de Vincent a chamou. A garota havia passado alguns muitos minutos em silêncio, pensativa, e isso havia despertado a curiosidade de seu companheiro. A mão forte e áspera de Vincent descansou sobre a sua coxa. -, está tudo bem?
A garota assente. Alguns flashes de memória passavam em sua mente, atordoando-a.
- Sim. Está tudo bem, sim. - ela diz, incerta. Seu coração seguia em um ritmo frenético em seu peito. Por mais que a mesma dissesse que não, seu corpo a denunciava. E Vincent podia ver a agitação da garota em apenas um olhar.
Com um coração a mil em seu peito, Jennifer tenta evitar o máximo possível em fazer algum contato visual com Vincent. Entretanto ficar calada, sem dar mais nenhuma outra justificativa, seria pior. Muito pior. Vincent sempre fora um tipo insistente; não se contentava até saber a verdade. E agora seus olhos pesavam sobre Jennifer Grayson.
A velocidade da camionete é reduzida, parando então nas encostas da rua.
- Não minta para mim, Jenny. - ele disse, os olhos fixos ao rosto de pele suave da garota. Seus lábios trêmulos, um forte indicativo de nervosismo.
- Talvez...talvez seja a gravidez. - ela disse, a voz trêmula e repleta de incertezas. - O doutor Davies uma vez me disse que...
- Que os meses iniciais de uma gravidez são sempre os mais difíceis para algumas mulheres. Eu sei. Ele também me disse, Jenny. - Vincent a interrompeu, aparentemente desconfortável.
Sem mover sua cabeça ao homem, Jennifer o observou, de soslaio. Vestindo uma camisa azul, quadriculada e de botões, Vincent Vantoch posicionou-se novamente em seu assento. Desviando o foco de sua atenção, o homem levou as mãos ao volante e continuou o percusso de seu caminho até a casa dos Grayson.
- Quando chegarmos lá, você pode me emprestar o seu celular? - ela perguntou, ainda limitando-se a encará-lo. - Preciso ligar para Annya.
- O que você quer falar com ela? - Vincent questionou, a voz neutra e os olhos atentos a cada movimentação nas ruas.
- Eu estou com saudades. Já faz muitos meses que não nos vemos. - ela respondeu, tentando ser o mais natural e convincente possível.
Depois disso, Vincent não disse mais nada.
A camionete parou no sinal. A luz de indicação ainda estava vermelha. Os pedestres atravessaram a rua, usando a faixa exclusiva para os mesmos. Enquanto esperava a liberação da passagem dos carros, Vincent apalpou os bolsos de sua calça. Jennifer o observou, em silêncio. De um dos bolsos da frente, ele retirou o celular e o entregou à garota.
- Aqui. Pode falar com ela agora. - ele disse, entregando o aparelho celular na mão de Jennifer.
- É um assunto particular, Vincent...
- Não. Não é, não! - sua voz rouca e altiva assustava Jennifer. - Se quiser falar com essa sua amiguinha, terá que falar na minha frente. Ou você está escondendo algum segredo de mim?
Jennifer Grayson engoliu a seco suas palavras. Não ousou em respondê-lo. Decerto, ela não queria falhar em seu posicionamento diante à ele.
O sinal ficou verde. Novamente a camionete de Vincent estava em movimento, faltando apenas alguns poucos metros de distância da residência dos Grayson. Jennifer estava apreensiva, inquieta. Com o celular de Vincent em mãos, ela começou a digitar uma mensagem de texto, endereçada à Annya.
..." Annya, sou eu. Preciso falar com você. É urgente. Venha até a minha casa, mas, por favor, seja discreta. Vincent está comigo. Ele não pode suspeitar de nada. Precisamos conversar sobre aquela festa na casa de Brad."...
O trajeto final se seguiu em silêncio. O vazio predominava o olhar de Jennifer. Quando mais achava que iria viver um verdadeiro conto de fadas, um sonho cor-de-rosa ao lado do homem, que, um dia, lhe fizera e dedicara o mais belo dos poemas. Sem dúvidas, o último poema, o qual era assinado com a seguinte frase: "Com amor, Vincent" , era o mais belo e magnífico de todos. Porém, o seu conto de fadas não aconteceu e a máscara de Vincent caiu por terra em sua primeira crise de ciúmes.
...• • • ...
Ao estacionar a camionete na calçada, ao lado da residência dos Grayson, Vincent foi o primeiro a sair. A garota sentiu uma forte tensão percorrer por todo o seu corpo. Ainda com o celular de seu companheiro, Jennifer checou mais uma vez a caixa de mensagens, e, para a sua felicidade, Annya a havia respondido. Um sorriso aliviado surgiu em seus lábios ao ler a mensagem enviada pela amiga. Annya já estava a esperando.
- Vamos, Jenny! - um baque surdo fez-se presente após Vincent bater com seu punho cerrado contra o vidro.
Surpresa, Jennifer teve um sobressalto. Desde que Vincent desceu do veículo, a garota dava algumas rápidas olhadelas ao retrovisor da camionete. E, na última que olhara, ela pôde vê-lo recostado contra a camionete, fumando um cigarro. Não esperava que ele a fosse surpreender desta maneira tão abrupta.
- Já estou indo. - ela respondeu, recuperando o fôlego. Vincent permaneceu ali. Certamente, ele estava curioso. E muito. Queria saber o que a garota tentava esconder.
Ao abrir a porta do veículo, Jennifer o entregou o celular. Vincent não disse nada, apenas guardou o celular em seu bolso, e, ao lado da garota, ele caminhou em direção aos portões. De fato, Jennifer estava estranha. Vincent já estava cansado em fazer e refazer sempre a mesma pergunta e receber apenas um "sim, estou bem.". Agora ele estava certo de que faria alguma coisa. E sim, ele iria. Vincent Vantoch estava disposto em descobrir tudo.
...• • •...
Três batidas na porta principal foram dadas. Jennifer estava nervosa, e, enquanto a ansiedade ameaçava lhe consumir por inteira, Vincent estava calmo. Bem mais calmo do que o esperado. Talvez não estivesse com medo em ser expulso da casa pelo pai da garota. Antes, Wilbur Grayson confiava muito em Vincent Vantoch, já que o mesmo lhe passou altos níveis de confiança logo no primeiro encontro, e mostrou-se ser um homem ajuizado e dono de uma conduta ímpar. E sim, tais descrições eram comumente atribuídas ao "antigo" Vincent. Agora ele estava irreconhecível aos olhos de qualquer um que o conhecera há alguns meses atrás.
O antigo Vincent Vantoch era amável, simpático, um marido exemplar e um pai dedicado, entretanto suas realidades viraram ao reverso após encontrá-la. Com apenas um olhar, um sorriso largo e repleto de doçura, Jennifer Grayson havia conseguido desviar a mente de um homem centrado e torná-lo em sua maior perdição.
Com mais um par de batidas desferidas contra a porta, uma voz abafada soou no interior da casa. Era uma mulher, e, mesmo sem ao menos vê-la, Jennifer jamais se esqueceria de May, a fiel diarista da família. Sua voz suave e tranquilizadora sempre a acalmava em seus dias ruins. Quando a porta foi aberta, uma expressão de puro assombro surgiu na face de May. Jennifer sorriu, amável, porém a mulher recusou-se em acreditar no que realmente estava vendo diante de si.
Os olhos da mulher encheram-se de lágrimas, e, de pronto, seus braços fortes envolveram Jennifer em um longo e caloroso abraço.
- Onde você esteve durante todo esse tempo, menina?! - questionou a mulher, entre lágrimas e soluços.
- Desde que fugi, estive morando com Vincent... - ela disse; lágrimas também brotaram em seus olhos. - Você se lembra dele?
Separando-se dos abraços da garota, a mulher faz um gesto negativo com a cabeça.
- Ele já veio aqui várias vezes. Era advogado, amigo do meu pai. - ela diz, e então a mulher lhe encara com um olhar surpreso.
- O senhor Vantoch? - ela indagou, surpresa.
No exato momento em que seu sobrenome é pronunciado, Vincent se coloca ao lado de Jennifer, seu braço direito envolvendo-a pela cintura. A diarista ainda estava muito surpresa. Não o conhecia pelo primeiro nome, mas sim pelo seu segundo nome. E como o conhecia! Em seus dias livres, Wilbur Grayson convidava os seus amigos para uma reunião em sua casa, à qual tinha o laser como ponto principal. Foram-se muitos domingos ensolarados que o velho Grayson teve ao lado de seus amigos. E Vincent Vantoch era um deles.
- Onde está meu pai? - perguntou Jennifer, deslizando o seu olhar por toda a espaçosa sala de estar.
- Há que dias que seu pai viajou para a capital. Disse que tinha sérios problemas para resolver. - disse a diarista. Dito isso, Jennifer conseguiu um alívio a mais.
Passos apressados são ouvidos. Mantendo a sua educação, May pediu para que Jennifer e Vincent entrassem. Os passos tornaram-se cada vez mais próximos, e, quando a garota menos se deu conta, uma segunda figura feminina surge diante de si. Aparentando ter uns 42 anos de idade, a mulher de traços elegantes ficou ali, parada. Ela estava tão incrédula quanto a diarista.
Aquela era Margareth Grayson, mãe de Jennifer Grayson.
- Oi, mamãe. - a garota proferiu, de maneira lenta e trêmula.
Sem dizer absolutamente nada, a mulher avançou em sua direção e a abraçou. Jennifer correspondeu ao abraço. Naquele momento ela não saberia explicar com a mais perfeição exatidão o que sentira em seu coração ao poder abraçar a mãe novamente.
Se ela soubesse que aquela seria a última vez que veria sua mãe, com certeza ela não teria saído do conforto de seus braços.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 20
Comments
Maria Alves
que situação incrédula cheia de extrema .
2023-12-28
1