|Vincent Vantoch|
Ala de isolamento
PRESO NOVAMENTE EM SUA CELA INDIVIDUAL, Vincent tinha o seu olhar fixo ao chão. O antebraço estava envolvido por ataduras, entretanto alguns poucos sinais de sangue poderiam ser vistos. Enquanto os outros insanos gritavam ou recebiam algum tratamento de choque em suas celas, Vincent Vantoch estava recostado contra a parede, pensativo.
Talvez, naquela manhã, em especial, ele tivesse lembrado de tudo. Lembrado do que realmente aconteceu consigo dias antes de cometer o pior e maior erro de sua vida. Tudo seria diferente. Aliás. Tudo poderia ter sido diferente se não houvesse escutado o que não deveria. Ele vivia feliz, mesmo que afogado em suas ilusões. Um choque de realidade como aquele foi doloroso demais. No primeiro momento, Vincent não conseguiu digerir a verdade, porém, quando enfim conseguiu, as coisas haviam mudado. Ele havia mudado. Sua vida fantasiosa ao lado de Jennifer Grayson acabou exatamente no 13 de Fevereiro, sete dias antes do fim. Desde o primeiro momento em que conhecera Jennifer, a garota de longos cabelos castanhos e olhos tão infantis quanto aos de uma criança, ele sentiu, pela primeira vez, o medo lhe invadir e percorrer inteiramente o seu ser.
A simples cogitação de um possível abandono lhe consumia, dado que o mesmo não se imaginava longe de Jennifer Grayson; não suportava a ideia em ter que perdê-la. Porém, agora ela estava morta. Ele mesmo a matou.
As lembranças retornavam cada vez mais aos seus pensamentos, fazendo-o sofrer com o mais amargo arrependimento. Sete dias antes da fatídica noite do dia 20 de Fevereiro, ele estava caminhando pelos corredores da tão luxuosa residência dos Grayson. Vincent não tinha nenhum propósito com isso, queria apenas relembrar os seus dias de glória, porém logo parou ao ouvir sussurros, vindos de um cômodo próximo. Ouvir atrás das portas ou das paredes não era algo bem visto pelas pessoas, quanto mais quando se tratava de um homem como Vincent. Entretanto, foi através dessa atitude que ele descobriu o que realmente aconteceria nos próximos dias.
Annya Dumont e uma outra pessoa haviam traçado um perfeito plano de fuga, e Jennifer Grayson havia concordado em segui-lo. Jennifer e sua amiga mostravam-se estar muito felizes, porém, o que elas não esperavam era que tudo o que haviam planejado tornou-se algo completamente em vão. E que Vincent era bem mais ardiloso e dissimulado do que imaginavam.
• • •
Depois de algumas longas horas, um barulho incomum ressoou por todo o corredor de celas da ala de isolamento intensivo. Quatro homens – dois seguranças armados, o diretor-geral do hospital psiquiátrico e um oficial superior do Departamento Policial – estavam diante da porta de aço da cela individual de Vincent quando esta mesma fora aberta. Enquanto um segurança permanecia do lado de fora, o outro adentrou o interior da cela. Ordens foram dadas, e Vincent as obedeceu, sem esboçar ou ter alguma reação contrária.
Assim quando soube que Vantoch havia saído da ala solitária e retornado à sua cela individual, Saul Harris apressou-se em ir ao hospital psiquiátrico. O detetive-inspetor estava cheio de perguntas, e, por certo, faria qualquer coisa para ter as suas respostas. Desde que assumira o caso, ele apenas havia lido os arquivos policiais e conversado com algumas pessoas da lista de contatos da polícia sobre ambos os casos. Nunca havia estado antes na presença de Vincent Vantoch, nunca havia parado para ouvi-lo, interrogá-lo como bem deveria.
— Para onde vão levá-lo? – perguntou Saul enquanto observava o segurança guiar Vincent por todo o extenso corredor, indo em direção à porta que dava acesso à ala de isolamento.
— Talvez seja melhor que o interrogue em um lugar calmo; bem longe deste lugar perturbador. – Louis Miligan diz, a voz rouca e envelhecida.
Saul não disse mais nada. Seus olhos estavam fixos à imagem de Vincent. Com as mãos algemadas e a cabeça baixa, o segurança o guiou para fora da ala. Lá fora, enquanto o interno "mais ilustre" do hospital psiquiátrico era guiado à uma outra sala para o seu interrogatório, Saul Harris e Louis Miligan os seguiam, um pouco mais atrás. Atravessando todo o corredor, Saul não desgrudou seus olhos do segurança, tampouco de seu alvo.
Louis Miligan tentou acompanhar o ritmo veloz dos passos do detetive-inspetor, porém logo desistiu, afinal já não era tão jovem como o oficial que lhe acompanhava. Saul praticamente correu ao perceber que facilmente parecia perdê-los de vista, porém a tranquilidade logo veio quando os viu adentrar o interior de uma pequena salinha, ao lado do escritório geral.
Com mais alguns passos adiante, Saul Harris logo parou em frente a porta aberta da sala. Sem nenhuma cerimônia, o detetive-inspetor adentrou a sala. Analisando todo o ambiente ao seu redor, um certo pensamento levou Saul a acreditar que aquela sala, em especial, tinha o seu uso apenas em casos específicos. As paredes não contavam com grossas placas de gesso, o teto era forrado, porém não era o mesmo tipo de material usado para as celas solitárias e as de isolamento intensivo, e as janelas não contavam com um vidro reforçado.
Aquela era apenas uma sala comum, destinada ao uso de pessoas sanas, "normais".
— Senhor Harris – o segurança se aproximou de Saul, fazendo-o sair, de maneira abrupta, de seus devaneios. —, já está tudo pronto. O senhor tem o tempo que precisar para fazer o seu interrogatório.
Ainda um pouco atordoado, Saul assentiu em silêncio às palavras do segurança, que, por sua vez, se retirou da sala, deixando Vincent Vantoch e Saul Harris à sós.
O silêncio reinou por todo o lugar. Saul e Vincent estabeleceram um longo e duradouro contato visual. Ambos os homens mais pareciam estar analisando um ao outro, de maneira mínima, sem deixar escapar nenhum só detalhe. Ao menos isso se aplicava a Saul. Usando de seu silêncio momentâneo, o detetive-inspetor observou em Vincent cada mínimo detalhe, cada micro expressão que surgia em seu rosto.
Os olhos negros de Vincent eram bem mais profundos do que ele imaginou ser. Ou melhor. Tudo nele parecia ser tão profundo, tão inexplicável. Sua encarada séria e fria, sua postura altiva e autoritária conseguira, de fato, fazer com que Saul Harris se sentisse desconfortável em seu lugar.
— Enfim, aqui estamos nós. – Saul disse, caminhando em direção da mesa disposta na sala e sentando-se na cadeira logo em sequência. Finalmente estava cara a cara com Vincent Vantoch. — Como já deve saber, eu sou o detetive-inspetor Harris, oficial responsável pelos dois casos de homicídios, os quais são de sua autoria.
Vincent mexeu-se, desconfortável, sobre a cadeira de aço. Seus punhos continuavam algemados.
— Está perdendo o seu tempo! Eu não vou falar nada! – Vincent disse, decidido.
— Então, já sabendo que iria ouvir exatamente estas palavras, eu utilizei os meus próprios meios para conhecer os casos e me aprofundar um pouco mais. – Saul explica, um sorriso vitorioso surge em seus lábios. — Os arquivos da polícia e os muitos interrogatórios no decorrer dos dias me valeram muito a pena.
Vincent o fitou enquanto mantinha um sorrisinho de deboche em sua face, ele disse, sarcástico:
— Ótimo! Já que você diz que sabe de tudo, por quê estamos tendo esta conversa? – o sarcasmo presente em sua fala fez ferver o sangue de Saul.
— Eu estou aqui porque quero respostas, Vincent! – Saul elevou seu tom de voz.
— Eu não vou falar nada! – ele rebateu.
— Se você não responder as minhas perguntas agora, terá que dar as respostas ao juiz! – Saul disse, recuperando sua postura neutra. — O juiz e eu temos as mesmas dúvidas. Então, o acordo é esse: ou você me responde tudo o que quero saber, ou irá entregar as respostas ao juiz no dia de seu julgamento!
Vincent sorri, irônico.
— Eu não vou à esse julgamento. – ele contestou, o sorriso irônico em seus lábios.
— Você querendo ou não, mas eu mesmo virei buscá-lo e vou levá-lo comigo ao tribunal. – Saul diz. — E até agora a sua condenação é por duplo homicídio, porém vou fazer o juiz considerar uma terceira vida que você tirou!
— Você está enganado, oficial. Não existe essa "terceira vida" como o senhor disse. – o sorriso debochado de Vincent teve uma curta duração após esta duvidosa resposta.
Novamente um sorriso vitorioso delineou-se nos lábios do detetive-inspetor.
— Ah, não?! E o bebê que Jennifer Grayson esperava? – ao ter a criança mencionada, o sorriso de Vincent desapareceu completamente. — Você conhece as leis, Vincent. E terá que cumpri-las!
— Aquela criança não era meu filho! – Vincent irrompeu, esbravejando cada palavra contra o oficial. — Não era!
— Sendo filho seu ou não, as leis continuam as mesmas. Em casos de crimes brutais como estes cometidos por você, a sentença final pode ser perpétua.
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Atualizado até capítulo 20
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