20 de julho, 2009 - O último dia.

...|Jennifer Grayson|...

HÁ DIAS QUE VINCENT SAIU DE CASA. Esse tipo de atitude não era comum nele, dado que o mesmo sempre avisava quando iria sair. Trancada na casa, sem nenhuma possibilidade de fuga, Jennifer Grayson passou quatro dias sozinha, andando de um lado para o outro, implorando mentalmente para que Vincent voltasse logo. Aquela foi a primeira vez em que a mesma havia implorado pela presença de Vincent logo depois de sua drástica mudança. Porém, o que ela não sabia era que aquela fosse ser a sua última vontade.

...20 de Julho, 2009....

O quarto dia transcorreu como todos os outros: monótono. Ela comeu o que havia restado na geladeira, releu alguns livros de literatura que havia nas prateleiras, assistiu alguns canais infantis e tirou um longo cochilo da tarde. Ao contemplar o sol poente através das grandes janelas na sala, ela sentiu o desespero despontar em seu peito. Não havia mais comida nem nos armários, tampouco na geladeira. Tudo que tinham armazenado nos armários tornou-se seu único suprimento, o qual havia durado até ali, porém, se Vincent não retornasse, não haveria nada mais na casa que ajudasse Jennifer a se manter.

...• • • ...

Era por volta de nove e vinte da noite quando um barulho indiferente rompeu silêncio e a tranquilidade do local. Jennifer Grayson estava deitada em sua cama, e ao ouvir o barulho que só apenas a velha camionete de Vincent fazia, ela levantou-se em um pulo e seguiu o mais rápido que pôde ao piso térreo. Vincent estava ali. Do lado de fora da casa, a porta da camionete fora fechada com um baque estrondoso, o qual fizera Jennifer sentir uma série de arrepios se espalharem, percorrendo sua espinha.

Parada, de frente para a casa principal, ela esperou, ansiosa, por vê-lo. Um grande sorriso que adornava seu rosto pálido, quase sem vida, surgiu em seus lábios. O molho de chaves que Vincent trazia consigo caiu no chão, fazendo com que o mesmo soltasse um grande e sonoro palavrão ao recolhê-lo. Nesta hora, o sorriso de Jennifer Grayson falhou; uma micro-expressão de medo surgiu em seu rosto.

Ela tentou retroceder seus passos, porém, antes mesmo que pudesse alcançar o corrimão da escada, a porta se abriu e Vincent adentrou o interior da casa, sem demora alguma. E agora, frente a frente com o homem de cabelos negros, Jennifer apenas conseguiu olhar no fundo de seus olhos. Algo estava estranho, aquele não era o mesmo homem, ao qual ela estava habituada em ver e compartilhar seu espaço. Havia algo diferente em Vincent, seu olhar o denunciava de todas as maneiras possíveis.

— Onde você estava? Por quê me deixou aqui sozinha, Vincent? – ela indagou, a voz trêmula e o tom incerto.

Em silêncio, Vincent jogou suas chaves sobre o sofá da sala, e então recostou-se contra a parede. Seus braços estavam cruzados acima de seu peito e seu olhar nitidamente enfurecido era fixo ao rosto de Jennifer Grayson, que, não suportando a indiferença de seu companheiro, aproximou-se do mesmo. Sua mão pequena e macia tocou, suave, a pele de Vincent. Seus dedos deslizaram sobre a barba áspera do homem.

— Onde eu estava? Você quer mesmo saber onde passei esses dias? – seu tom de voz era elevado. Sua voz rouca, cortante, assustava Jennifer, porém a mesma nunca admitira isso.

— Por quê você está assim? – outra pergunta fora feita pela garota, porém Vincent apenas cerrou seus olhos, como se estivesse desfrutando do toque gentil da mesma.

Jennifer sempre conseguia ganhá-lo facilmente em suas discussões, porém desta vez seria diferente.

— O que você está esperando para ir embora? – estas palavras beiraram, impulsivas, seus lábios. Vincent sabia que não deveria dissê-las, porém, quando menos se deu conta, ele havia as dito. E agora a garota o encarava com um olhar confuso, assustado.

— O que você está dizendo, Vincent? – ela indagou, confusa.

Em silêncio, o homem de cabelos negros retirou de seu bolso o celular da garota. Incrédula, Jennifer tentou se reaproximar, porém Vincent rejeitou seus abraços ou qualquer outra demonstração de carinho. A caixa de mensagens de seu celular estava aberta quando Vincent lhe devolveu o aparelho.

Lágrimas brotaram nos olhos de Jennifer.

— Vai! Em Boston, você e Brad podem ter uma vida melhor. Ao lado dele, você poderá a vida digna que sempre quis ter! – Vincent esbravejou.

A mão de Jennifer Grayson tentou mais uma vez alcançar o rosto de Vincent, porém fora impedida. Ele agarrou seu punho de uma forma tão bruta, chegando até em fazê-la reclamar de dor. Vincent Vantoch perdera sua sanidade, e isso já era um fato. Assustada pelo movimento brusco, o aparelho celular caiu de suas mãos. Encarando-o novamente, Jennifer o desconheceu. No fundo de seus olhos escuros, ela pôde ver que já não mais existia algo que pudesse ser ligado ao "antigo" Vincent.

— Calma, Vincent! – ela disse, gemendo em dor. — Eu não vou à nenhum lugar!

A raiva e o ódio irromperam em si, tomando-o de corpo e alma. E, naquele momento, nada mais que Jennifer lhe dissesse iria mudar o que sentia.

— O que você queria? Achava mesmo que poderia continuar mentindo pra mim, pensando que eu nunca fosse descobrir a verdade, Jenny?!

— Me solta, você está me machucando! – um novo gemido de dor escapou dos lábios avermelhados da garota, que, por sua vez, não tinha o mínimo de força para lutar contra Vincent.

— Você não sabe o que é ser machucado, Jennifer! – ele berrou.

O medo e o pânico esvaziaram a mente de Jennifer Grayson, mas, que ao perceber um momento de descontração vindo de Vincent, ela conseguiu se desvencilhar de seus braços, tendo, então, o impulso desesperado em correr para longe, porém novamente ele conseguiu a agarrar. Seus braços grandes e fortes a prenderam pela cintura, o que consequentemente a machucou. Ou melhor. Não só a machucou, mas também a pequena criança que se desenvolvia em seu ventre sofreu com as consequências disso.

Agarrando-a pela cintura, Vincent arremessou-a, com todas as suas forças, contra a parede. Sentindo dores agudas espalharem-se por todo o seu corpo, Jennifer caiu de joelhos. Em prantos, ela implorou misericórdia, porém Vincent estava cego demais pelo ódio para ouvi-la. Pegando-a pelos cabelos, ele a arrastou até a sala. À medida que ia sendo arrastada, as pernas de Jennifer se debatiam, frenéticas, contra o chão. Ela tentou gritar, mas foi em vão. Quem iria ouvi-la?

Chegando à sala de estar, Jennifer o grosso tapete sob seus pés. Pisando com mais firmeza sobre o tapete, ela tentou ter algum impulso, entretanto seu corpo, mais uma vez, foi-se ao chão. Ela já estava sem forças quando sentiu as mãos de Vincent pressionarem contra o seu pescoço. Suas mãos eram fortes demais; não lhe davam mais chances de escapar. O ar em seus pulmões foi aos poucos esvaindo-se. Seus olhos fixaram-se no rosto de Vincent. Havia ali uma expressão que Jennifer não conseguira identificar. Talvez fosse um misto de raiva e pena. Ela não sabia. Mas aquela foi a última coisa que vira antes de tudo ficar escuro.

Ainda em seu momento de pura insanidade, Vincent retirou suas mãos do pescoço da garota, revelando então grandes marcas avermelhadas, quase roxas. Erguendo-se do chão, ele a observou. O corpo de Jennifer estava completamente imóvel e as marcas avermelhadas em seu pescoço eram bastante visíveis. No primeiro momento, Vincent cogitou que a mesma estivesse desmaiada e que logo acordaria. Mas, para recebê-la bem quando acordasse, ele teria que terminar o seu trabalho. O que tinha para acertar com Jennifer Grayson já estava feito, agora faltava Brad.

O celular da garota estava caindo bem próximo ao sofá quando Vincent o pegou. Abrindo a caixa de mensagens do aparelho, ele começou a digitar uma mensagem para Brad, passando-se por Jennifer Grayson. Após isso, ele largou o aparelhou, indo-se ao porão da casa. O porão era o canto mais escuro da casa, porém Vincent nunca precisou pôr uma lâmpada ali, afinal ele sabia exatamente como cada coisa estava e também sabia muito bem como encontrá-las quando precisasse. De uma caixa de objetos velhos, ele retirou um taco de beisebol.

Com o taco em mãos, ele retornou ao centro da casa. Conferindo novamente a caixa de mensagens no aparelho celular da garota, ele percebeu que Bradley o havia respondido, imaginando ser a própria Jennifer Grayson. Nas mensagens de texto do rapaz, ele dizia que já estava pronto e que a ajudaria em tudo que fosse necessário, e, então, seguiriam juntos ao aeroporto. O vôo para Boston sairia naquela mesma noite. Usando o nome da garota, Vincent mandou uma outra mensagem, a qual dizia não precisar de ajuda e que em alguns minutos iria encontrá-lo em sua casa. A resposta do jovem foi imediata, mas, desta vez, Vincent foi mais categórico ao mandar a sua última mensagem.

Decerto, Vantoch não queria perder mais o seu tempo, pois segundo ele mesmo, Jennifer Grayson logo acordaria de seu desmaio, e ele queria estar ao seu lado quando isso acontecesse. Então, em sua última mensagem, ele ordenou que o rapaz o esperasse do lado de fora de sua casa.

...• • •...

Antes de sair e ir de encontro com Brad, Vincent recolheu o corpo de Jennifer e o levou ao quarto, colocando-a sobre a cama. Encarando o relógio na parede, ele viu que o mesmo logo mais marcaria dez e quinze. Não poderia perder mais tempo. Então após isso, ele saiu. Entrou em sua camionete o mais depressa que pôde e seguiu até a área destinadas às palafitas. O seu olhar era bastante atento à estrada escura e deserta, mas nada contrário lhe ocorreu durante o percurso até os arredores da palafita dos Smith.

Já bem ao longe, ele conseguiu avistar a primeira palafita. A parte externa da casa era muito bem iluminada, e com isso, ele pôde ver com clareza a silhueta de Brad. O jovem rapaz aparentava impaciência. E diante a isso, Vincent decidiu fazer uma pequena brincadeirinha. Ou melhor. Esta "brincadeirinha" já havia sido pensada, afinal, ele não poderia chegar e começar batê-lo. Primeiro ele teria que se aproximar de Brad, envolvê-lo em seus gracejos, e, só depois, poderia avançar com seus planos finais.

— Ah, merda! – Vincent praguejou após uma falha no motor de sua camionete.

Ainda estava há alguns metros de distância de Brad, mas mesmo assim havia conseguido chamar a atenção do mesmo. Vincent desceu do veículo e começou a empurrá-lo até lá. Por estarem apenas os dois naquela estrada deserta e silenciosa, não foi preciso muito para que Bradley o ouvisse.

— Hey amigo! – o garoto disse, sinalizando com a mão à Vincent. — Tudo bem aí?

Disfarçando um meio-sorriso em seus lábios, Vincent respondeu:

— Não. O motor da minha camionete parou! – sua voz rouca ressoou por todo o lugar. — Você pode me ajudar?

Um breve silêncio recaiu sobre todo o local. Vincent continuou empurrando sua camionete em direção à Bradley. Estava cada vez mais perto. Parando ao lado da primeira casa, ele logo viu o jovem rapaz vir em sua direção. Ele tinha seu celular em mãos.

— Não sou bom nesse tipo de coisa, mas posso chamar um amigo. Ele é mecânico. – ele disse, enquanto tinha seus olhos fixos ao seu aparelho celular.

Fechando a porta da camionete, Vincent se recostou contra mesma, seus braços cruzando sobre seu peito e seu olhar fixo à silhueta de Bradley.

— Não, garoto. Não precisa. – Vincent disse, fitando-o seriamente. — Não será preciso chamar ninguém. Eu moro aqui perto, posso empurrar minha camionete até lá.

O rapaz não falou mais nada. Ele estava muito impaciente, e isso já algo muito nítido.

— Calma, garoto! – Vincent disse, risonho. — Para quê tanta impaciência?

— É a minha namorada. – ele disse, despreocupado, entretanto aquilo para Vincent soara como um agressivo disparate contra ele. — Ela disse iria me encontrar aqui. Mas agora ela está atrasada.

— Sua namorada? – Vincent retorquiu, as sobrancelhas elevadas e uma expressão de nojo surgiu em sua face.

Brad percebeu o incômodo que causara ao proferir aquela simples frase, entretanto, no início, não conseguira entendera o motivo para isso. Pensando que o homem fosse apenas um bêbado desobrigado da vida, o jovem lhe virou as costas. Péssima atitude. De costas para o homem, Brad prolongou o seu silêncio. Ele esperava, ansioso, por receber alguma outra mensagem vinda da garota. E enquanto se distraía lendo e relendo cada uma das mensagens enviadas, a voz rouca e cortante de Vincent soou novamente, dizendo:

— A sua namorada não vai vim! – ele disse; o taco de beisebol já estava pronto.

Surpreso com a tal afirmação, Brad voltou-se, com rapidez, na direção do homem, porém, antes mesmo que pudesse encará-lo, um forte golpe fora desferido contra sua cabeça. Imediamente, o corpo do jovem rapaz caiu ao chão. Bradley ainda estava vivo, porém um pouco desnorteado por conta do baque que recebera na cabeça. Vincent avançou em sua direção, segurando firme o taco de beisebol. Atordoado, Brad tentou rastejar para longe, mas novamente fora surpreendido por mais um forte golpe, que, desta vez, fora dado contra seu estômago. Ele berrou em dor. E depois mais outro golpe fora dado. Jogando o taco para longe, Vincent passou a desferir vários socos e chutes sem parar contra o corpo de Bradley.

Foram chutes e mais chutes contra seu estômago e outras partes de seu corpo, chegando até mesmo a fazê-lo sufocar com o seu próprio sangue, que expelia de sua boca em quantidades absurdas. Dominado pela raiva e o ódio, Vincent não parou. Não estava convencido, não o bastante. E às dez e meia daquela mesma noite, Bradley Smith estava morto, enfim.

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Comments

Gleide Sousa

Gleide Sousa

que loucura

2024-10-15

0

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