...|Saul Harris|...
...Departamento Policial....
SAUL HARRIS ESTAVA SENTADO, fumando um cigarro. Os últimos dias não foram fáceis. Para ele, houve apenas duas opções: a família ou o trabalho. E, por conta das futuras pressões que sofreria, ele optou por concluir suas investigações, porém não contava que fossem exigir tanto de si. Atraído cada vez mais aos casos criminais, ele não pensou duas vezes quando, literalmente, caiu de cabeça em suas investigações, com o único intuito de encontrar a resposta, a peça final do quebra-cabeças criado por Vincent Vantoch.
As investigações estavam avançando, mas, em contrapartida, seu casamento estava regredindo. Na última mensagem de texto recebida, Nadia havia sido muito clara ao falar sobre as tristezas e as indiferenças que sua ausência estava lhe causando. Nolan havia sofrido com vários episódios de uma epilepsia severa, e em um desses, o auxílio médico foi o essencial e o mais recomendado. Enquanto Harris estava em seu escritório, comendo biscoitinhos de chocolate e lendo o dossiê policial, Nadia estava angustiada nos corredores do hospital. Desta vez, Nolan Harris passou bem perto da morte.
...9:10 da manhã...
Diferente das outras vezes, John Graham esteve muito surpreso quando adentrara o escritório de Harris naquela manhã. O jovem agente esperava por encontrá-lo revirando os arquivos confidenciais da polícia, em uma busca incansável pelas possíveis pistas ou informações que pudessem ser ligadas à Vantoch. Mas não. Naquela manhã, em especial, Saul aparentava estar abatido e transmitia um certo ar de infelicidade. Existia um grande vazio em seu olhar ao encarar o celular. Era como se o verde-esmeralda presente em seus olhos houvessem perdido todo o seu brilho.
— Senhor Harris? – diante ao chamado de seu agente, Saul apenas elevou o seu olhar à ele. Em nenhum momento o detetive-inspetor saiu de sua posição, mesmo que suas costas já estivessem doloridas. — Tem alguém lá fora querendo falar com você.
Parado próximo a grande mesa do detetive-inspetor, John aguardou por uma resposta, entretanto o silêncio de ambos prevaleceu por alguns longos segundos. Encarando-o com um olhar sério e fixo, Saul implorou mentalmente para que o jovem agente entendesse a sua vontade em estar sozinho, porém, de acordo com as normas, ele não poderia ir até receber uma ordem ou uma palavra final de seu superior. Talvez aquela fosse a solução. Endireitando-se sobre a cadeira, Saul sentiu fortes dores em suas costas, mas que foram passageiras. A dor maior ele trazia em seu coração e em sua consciência pesada.
Ele nunca pensou que um dia isto fosse acontecer. De fato, ele nunca pensou que fosse estar tão ligado à alguém, de uma maneira tão linda e tão afetiva como agora estava. Nadia foi como um verdadeiro anjo em sua vida. E agora ele sentia que a estava perdendo.
— Eu não quero falar com ninguém. – Saul disse, a voz rouca.
O jovem agente continuou ali, parado. Com seus olhos fixos a figura mal-humorada de Saul Harris, ele tentou, falhamente, compreender a mente do detetive-inspetor. Não sabia como alguém suportaria estar na companhia de um homem tão frio e cheio de amarguras como ele. No Departamento Policial, pouco se sabia sobre ele. Talvez, o máximo que se sabia sobre o detetive-inspetor ranzinza fosse a sua idade – 41 anos – e a sua fidelidade cega ao seu casamento.
— Mas senhor... – mais uma vez, John tentou falar, tentou explicar, porém Saul se negou a escutá-lo.
Saul Harris levantou-se de sua cadeira, pegou seu casaco e caminhou, ruidosamente, até a porta aberta de seu escritório. Antes que perdê-lo de vista, John Graham ouviu um "mande voltar um outro dia", e em seguida a porta fora fechada em um baque estrondoso.
...• • • ...
Em passos largos e decididos, Saul caminhou por todos os corredores do Departamento, indo-se ao estacionamento. Um clima frio recaiu por todo o país nos últimos dias, chegando até mesmo a marca de 0°C em alguns estados americanos. Saul Harris apalpou os bolsos de sua calça, mas, aparentemente, suas chaves haviam ficado em seu escritório, jogadas em um canto qualquer de sua mesa desorganizada, lotada de papéis ou outros documentos.
— Merda! – ele praguejou, o vapor quente saiu de sua boca, formando uma "fumacinha" branca, que se desfez por completo após alguns segundos.
Saul Harris ficou parado no meio do estacionamento vazio. Ele estava pensativo. O frio lá fora era cortante, sua jaqueta de couro velha não seria suficiente para aquecê-lo. Retornar ao ambiente quente e aconchegante do Departamento Policial era a sua única opção naquele momento.
Ao dar o seu primeiro passo em direção ao Departamento, Saul ouviu uma voz o chamar, rompendo subitamente o silêncio do local.
— Detetive-inspetor Harris? – perguntou uma voz feminina.
Voltando-se na exata direção de onde viera a tal voz, Saul logo se deparou com uma garota. A mesma usava uma touca cinza em sua cabeça e vestia roupas adequadas ao frio. Ela aparentava ser bem jovem, mas o que uma garota como ela estava fazendo ali, em frente à um Departamento Policial?
— Sim. Sou eu. – ele respondeu, o tom de voz era neutro.
A garota se permitiu em dar alguns passos em direção do oficial, parando então bem próximo a ele.
— Eu sou Annya Dumont. – ela diz, pausadamente. Seus lábios estavam trêmulos, por conta do frio absurdo.
— O que você está fazendo aqui, garota? – Saul questionou, impaciente. — Volte para casa. Aqui não é um lugar para você!
Sem dizer mais nada, ele deu as costas e tentou continuar o seu caminho ao interior do Departamento, porém novamente a voz da garota o parou.
— Espere! Eu estou aqui para falar sobre Jennifer Grayson e Bradley Smith!
Surpreso, Saul Harris parou de caminhar, e, mais uma vez, voltou-se em direção a garota. Há alguns dias atrás, seu agente auxiliar havia mencionado seu nome. A garota e a mãe de Jennifer Grayson, Margareth Grayson, tinham um horário reservado para um novo interrogatório. Mas por quê esta aparição tão repentina?
— O que você sabe sobre Jennifer Grayson? – ele questionou.
Com os lábios cada vez mais trêmulos, ela respondeu:
— Tudo!
Os olhos de Saul a analisaram por completo. Ele sabia muito bem como reconhecer um mentiroso, entretanto, ele viu nas palavras daquela garota a mais pura verdade.
— Já que é assim, me acompanhe. Nós precisamos falar sobre Jennifer Grayson.
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Atualizado até capítulo 20
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