Febre

Samuel

Me torno dispensável no instante em que Melissa chega ao hospital, ela sabe de cor cada pequeno detalhe da saúde e da vida de Yuri e responde tudo prontamente, eu não sei por que querem saber sobre as vacinas dele para tratar um pulso deslocado, mas não falo durante toda a consulta, melissa o leva ao raio-x e depois para a enfermaria.

Yuri não diz a Melissa o que aconteceu, embora eu tenha certeza de que ela sabe, afinal não perguntou. Temo que ela possa usar isso contra mim, mas depois que saímos do hospital com Yuri já sonolento, ela apenas olha para mim e usa sua voz calma.

- Tem planos para amanhã?

- Não cheguei a planejar nada ainda\, pensei em fazer isso com ele.

Ela o senta no capô do carro e levanta o rosto do menino para ela.

- Vai com o papai?

- Não\, quero ir pra casa – ele tenta abraçá-la mas o braço imobilizado impede.

- Conversamos sobre isso\, Yuri. É o dia do papai ficar com você.

Ele ameaça começar a chorar e ela balança a cabeça.

- E se a mamãe te colocar na cama hoje? Eu espero você dormir – ela olha para mim – tudo bem se eu fizer isso?

- Claro.

Ela leva Yuri no carro dela e eu tenho que dirigir sozinho com meus pensamentos sombrios, a culpa revirando meu estomago, sinto a fome voltar com tudo e abocanho o hamburger como se fosse o prato mais delicioso que já comi, acabou com as batatas e os dois refrigerantes, Yuri pode pedir mais do quarto de hotel.

Enquanto dirijo, me lembro do dia em que Yuri nasceu e como me sento completo quando segurei aquela coisinha minúscula nas mãos pela primeira vez. O mundo parou naquele momento e a vida começou a fazer sentido e todo esse clichê que os pais sempre falam, mas era real.

Melissa estava o tempo todo dizendo as coisas que ela e o bebê precisava e que eu devia trabalhar mais para dar ao menino tudo o que ele merecia e que ficaria em casa para cuidar dele melhor.

Chego ao hotel seis minutos antes deles, Yuri está sonolento e o pego no colo deixando que ele deite no meu ombro enquanto subimos no elevador.

- Ele está quente.

- Está com febre\, é normal.

- Para um pulso machucado?

- Ele tem cinco anos\, fica com febre por tudo.

- É por isso que os médicos sempre passam analgésico e dizem “se dor ou febre” – resmungo.

Melissa olha para mim e sorri, por um instante acho que ela pode ser razoável, mas quando entramos no quarto e ela coloca Yuri na cama, seu olhar muda.

- Deve estar gastando uma nota com esse quarto\, está aqui a quantos dias?

- Estou vendo um apartamento para alugar\, mas até lá\, vou ficar tão confortável como se ainda estivesse em casa.

- Devia estar investindo mais em um advogado decente.

- Não vou discutir isso agora – abro o frigobar e tiro uma água.

- Tem enfermaria aqui?

- Só primeiros socorros.

- Precisamos baixar a febre dele ou não vai conseguir dormir.

Eu me retenho, não quero sair de novo, nem deixar minha ex-mulher no quarto onde eu guardo todas as minhas coisas importantes, fecho o laptop e coloco meu relógio de pulso em cima, de um jeito que vou saber se alguém mexer.

- Quer que eu vá até a farmácia.

- Sim\, vi uma a três quadras daqui\, traga algum remédio e algumas coisinhas pra ajudar a dormir.

Resmungo qualquer coisa e saio, a farmácia é realmente perto, na metade do caminho entre o hotel e nosso apartamento.

Eu sei que dipirona abaixa a febre, mas Yuri se recusa a tomar então pega um outro medicamento, que eu saiba só precisa disso para melhorar, mas Melissa pediu “coisinhas” a mais. Paro no corredor, há uma placa pendurada do teto escrito “cuidados pessoais”.

De repente sinto o peso dos anos perdidos, Yuri teve febre várias vezes e vi Melissa cuidando dele em todas elas, ainda assim não fazia ideia de como fazer porque não prestei atenção em nada, sempre preocupado com a empresa ou respondendo um Email importante.

Mas a culpa não é minha, Melissa acabou com nossa vida quando se envolveu com outro homem, eu ainda tinha tempo de amar meu filho e ela tirou isso de mim.

Me engano com meus pensamentos, mesmo sabendo a verdade e lágrimas estão surgindo no meu rosto, respiro fundo, tenho que me concentrar e manter o controle.

Mas estou colocando tudo a perder quando ouço a voz doce e melodiosa de Bianca atrás de mim.

- Olá\, Samuel – ela vacila\, se aproximando com cautela como se eu fosse perigoso.

- Bianca? Oi.

- Você está bem? – sua pergunta pede uma resposta real\, não a mentira de sempre.

- Melhorando\, eu acho. Desculpe pelo outro dia\, eu perdi seu contato\, só queria saber se estava bem.

- Ah\, tudo bem – sua expressão confusa me preocupou.

- E você está bem?

- Estou\, vim pegar um desses – ela pega duas embalagens na minha frente e sorri\, então noto que eu estava encarando os absorventes – fazendo compras para Melissa?

- Não\, Yuri está com febre\, estou procurando algo para aliviar.

- Em cuidados pessoais?

- Bianca – uso minha voz condescendente – é uma farmácia\, tudo aqui é para cuidado pessoal.

Ela ri, uma risada genuína e tão gostosa de ouvir que quase me faz rir também.

- Devia procurar em alívio da gripe – ela aponta para outra placa em outro corredor – acho que você não disse\, mas o que o Yuri tem?

- Um monstro como pai.

As palavras saem tão sinceras e brutas, que as lágrimas as acompanham, eu não sou o tipo que acha que homem não chora, mas ficar tão vulnerável assim, perto de uma mulher que mal conheço é humilhante

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Atualizado até capítulo 66

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